quarta-feira, 19 de setembro de 2012

CONFISSÃO: FORTALEZA CONTRA AS INVESTIDAS DO MALIGNO





Todos os pormenores que envolveram a cura do paralítico (cf. Mc 2, 1-12) são profundamente significativos. Aquela doença era bem o símbolo da paralisia espiritual e Jesus, com Seu poder divino, cura a moléstia do corpo e da alma. Com efeito, aquele homem saiu andando, carregando a cama em que o trouxeram até Cristo, que realizou algo ainda mais admirável ao lhe restituir a saúde da alma: “Teus pecados estão perdoados”.
Após Sua Ressurreição, Cristo, que demonstrou peremptoriamente Sua divindade, outorgaria esta faculdade aos apóstolos: “A quem perdoardes os pecados, estes lhes serão perdoados” (Jo 20, 23). Era a instituição do sacramento da penitência, o sacramento da libertação.
Quando alguém diz que vai se confessar não se trata de um ato qualquer como ir ao dentista ou a qualquer consultório médico, o que já indica um mal corporal, mas atitude que se torna necessária para recuperar o bem-estar físico.
Entretanto, o sacramento da reconciliação opera uma cura muito mais premente, que não admite nenhuma dilação, pois se trata do reencontro pessoal com Aquele que ama o que errou muito além de sua expectativa. Esse sacramento oferece o perdão das faltas veniais ou graves, sendo remédio espiritual que fortalece o cristão para os embates contra as investidas do maligno. Sana as falhas das eivas provenientes dos pecados capitais, sobretudo, do defeito dominante.
O sacerdote é apenas um instrumento do Redentor, pois pronuncia, em Seu nome, a fórmula da absolvição. É Jesus quem cura a paralisia espiritual e ajuda para a caminhada rumo a Jerusalém celeste, impedindo as más decisões e as indecisões diante dos ataques demoníacos.
O arrependimento sincero é uma volta medicinal aos erros passados, mas, sobretudo, uma largada para frente, para vitórias fulgurantes, obstando o cristão a desistir do mal, na prática das virtudes, na fidelidade à observância dos mandamentos, no anelo ardente de estar com Deus por toda a eternidade. Tira-se um fardo pesado e se imerge no oceano do amor infinito do Ser Supremo.
Percebe-se então que há uma diferença enorme entre o perdão dos homens e o do Criador, pois este é total. O Todo-Poderoso falou por intermédio do profeta Isaías: “Eu não me lembrarei mais dos teus pecados” (Is 43, 25). Perdão completo que apaga as manchas devidas à fragilidade humana, benesse ofertada pelo grande amor do Senhor, que é a bondade infinita. Cumpre lembrar que o ato de dileção dos amigos do paralítico permitiu seu encontro com Jesus, encontro que resultou em consequências tão maravilhosas.
Este é um apostolado muito abençoado por Jesus, levar os que estão nas trevas do erro para a luz da anistia divina. Aqueles que se comprimiam ao redor do Redentor tinham uma confiança formidável n’Ele. Cristo, que lia os corações, percebia a fidúcia que neles reinava. Primeiro, foram perdoados os pecados daquele doente, depois se seguiu sua cura. Eis porque, sobretudo, por ocasião de alguma moléstia, é preciso, antes de tudo, colocar a consciência em paz, mesmo porque os medicamentos só produzirão seu efeito total quando a tranquilidade e a imperturbabilidade imperam dentro do coração. Este não deve estar bloqueado, dado que é todo processo psicossomático que necessita ser restaurado.
Os empecilhos que levam à paralisia espiritual podem vir de um passado infeliz, e tudo que esteja lá no inconsciente precisa ser aflorado, ou de um espírito rancoroso, revoltado, amargo que necessita se envolver num perdão cordial ou ainda dos muitos cuidados, ambições terrenas, paixões desregradas, situações familiares, profissionais. Numerosas são as causas que podem impedir o encontro com Jesus. Um sincero exame de consciência é a melhor de todas as terapias.
Com habilidade, diplomacia e muita caridade os bons cristãos podem, de fato, ajudar os amigos a encontrarem o Médico Divino, apostolado admirável, meritório para o dia do juízo final. Adite-se ser de um valor imenso as preces pela conversão dos pecadores. Jesus deseja perdoar a todos, mas respeita a liberdade de nos aproximarmos d’Ele ou não, e conta com o interesse dos verdadeiros cristãos que levem outros até Ele.
Representante de Cristo, o padre no confessionário exerce um tríplice papel. Ele é Juiz e, na verdade quantos, às vezes, pensam estar numa triste situação espiritual e, no entanto, necessitam apenas de pequenos ajustamentos vivenciais. Médico, ele cura enfermidades da alma. Nem sempre o mesmo remédio pode ser aplicado a idêntico tipo de doença, sendo morte para um o que é saúde para o outro. É o que se dá também na esfera espiritual: o confessor, habilmente, diagnostica o que se passa com quem o procura em busca de paz interior, oferecendo-lhe o medicamento adequado. Mestre, ele guia e aponta as veredas salvíficas; tudo isso em nome de Jesus, que tem poder de perdoar pecados.

Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

TODO DIA EXISTE DEUS...

TODO DIA EXISTE DEUS...


num sorriso de criança,

no canto dos passarinhos,

num olhar, numa esperança.

TODO DIA EXISTE DEUS...


na harmonia das cores,

na natureza esquecida,

na fresca aragem da brisa,

na própria essência da vida.

TODO DIA EXISTE DEUS...


... no regato cristalino,

no pequeno servo do mar,

nas ondas lavando as praias,

na clara luz do luar.

TODO DIA EXISTE DEUS...


... na escuridão do infinito

todo ponteado de estrelas,

na amplidão do universo,

no simples prazer de vê-las.

TODO DIA EXISTE DEUS...


... nos segredos desta vida,

no germinar da semente,

nos movimentos da Terra

que gira incessantemente.

TODO DIA EXISTE DEUS...


... no orvalho sobre a relva,

na natureza que encanta,

no cheiro que vem da terra

e no sol que se levanta.

TODO DIA EXISTE DEUS...


...nas flores que desabrocham

perfumando a atmosfera,

nas folhas novas que brotam

anunciando a primavera.

Deus é capaz,


Deus é paz,

Deus é esperança.

É o alento do aflito,

o Criador do Universo,

da luz, do ar, da aliança.

Deus é a justiça perfeita

que emana do coração.

Ao perdoar quem ofende

Ele é o próprio perdão.

Será que você ainda não viu o rosto de Deus

no colorido mais belo

dos olhos dos filhos seus?

Deus é constante e perene. É divino!

De tal sorte que sendo essência da vida

é o descanso na morte...

Não há vida sem volta e não há volta sem vida...

A morte não é morte, é só a porta da vida.

TODO DIA EXISTE DEUS...


...No ciclo da natureza, neste ir e vir constante,

no broto que se renova, na vida que segue adiante,

em quem semeia bondade e em quem ajuda o irmão,

colhendo felicidade, cumprindo a sua missão...

QUANDO A FRAQUEZA É A FORÇA





Certamente, não é fácil ser cristão hoje. Nunca foi. Às vezes, vem a tentação do desânimo, diante do avanço do paganismo e da fraqueza da Igreja de Cristo... Onde está o Senhor? Para quem se perturba e tem medo, eis um belo pensamento do Patriarca ortodoxo Bartolomeu I, de Constantinopla:
A Igreja deve apoiar a sua força na sua fraqueza humana, na loucura da Cruz (escândalo para os Judeus, loucura para os Gregos), e a sua esperança na ressurreição de Cristo. Privada de todo poder mundano, perseguida e entregue cotidianamente à morte, a Igreja faz com que surjam santos, que guardam a graça de Deus em vasos de argila, que vivem dentro da luz da Transfiguração e são conduzidos por Deus ao martírio e ao sacrifício, e não à instauração violenta de um suposto Estado de Deus no mundo. Seus santos não são simplesmente operadores sociais ou filantropos ou taumaturgos. Eles põem a pessoa humana em comunhão com a pessoa de Cristo, conduzem à Divindade incriada o homem criado, provocam no homem não uma simples melhoria ou aperfeiçoamento moral, mas uma mudança ontológica da sua natureza. Por isso, a esperança da Igreja não se encontra neste mundo.
É exatamente isto! A força da Igreja não vem deste mundo; sua glória não vem dos aplausos ou aprovações humanas... A Igreja é eficaz não quando é compreendida e aceita pelo mundo, mas sim quando é fiel ao seu Senhor e é capaz de testemunhá-Lo sem medo nem política de boa vizinhança. Aliás, a razão de ser da Igreja não é ser forte, ser uma bela organização social, ter universidades e hospitais, realizar ações filantrópicas ou humanitárias, defender a justiça social... A Igreja é atual não quando seus bispos vivem na mídia, dando entrevista sobre tudo, particularmente sobre política, economia e problemas sociais... Tudo isso pode ter sentido somente se estiver em função do essencial. E o que é essencial no ser da Igreja? É que ela existe para ser presença de Jesus Cristo morto e ressuscitado no mundo, para ser lugar de atuação e visibilização da graça do Santo Espírito; a Igreja é o espaço de Deus, o lugar do Mistério dado e vivido na Palavra e no Sacramento, a Santa Comunidade, formada por pobres pecadores. Aí, nesses tão pobres feitos imerecidamente tão ricos, porque membros do Corpo de Cristo, Deus faz-se presente no mundo e a humanidade, sufocada pela mesmice dos pecados de ontem e de hoje, pode encontrar a verdadeira Novidade que liberta e a verdadeira Paz que dá sabor à  vida: o Cristo Jesus!

D. Henrique Soares da Costa

Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane

QUEM SE HUMILHA SERÁ EXALTADO





Estando uma vez S. Francisco, no princípio da Ordem, com Frei Leão em um convento, onde não havia livro para rezar o ofício divino, ao chegar a hora de Matinas, disse S. Francisco a Frei Leão:
- Caríssimo, não temos breviário, com que possamos rezar Matinas: mas, a fim de passarmos o tempo louvando a Deus, eu direi e tu me responderás como te ensinar; e toma cuidado, não digas as palavras de modo diverso do que te ensinar. Direi assim: “Õ irmão Francisco, praticaste tanto mal, tais pecados no século que és digno do inferno”; e tu, irmão Leão, responderás: “Verdadeira coisa é que mereces o inferno profundíssimo”.
E Frei Leão, com simplicidade columbina, respondeu:
- Estou pronto, pai, começa em nome de Deus.
Então S. Francisco começou a dizer: 
- Ó irmão Francisco, praticaste tantos males e tantos pecados no século, que és digno do inferno. 
E Frei Leão respondeu: 
- Deus fará por ti tantos bens, que irás ao paraíso.
Disse S. Francisco: 
- Não digas assim, irmão Leão; mas quando eu disser: “Irmão Francisco, praticaste tanta coisa iníqua contra Deus, que és digno de ser maldito por Deus”, responderás: “Em verdade és digno de ficar mesmo entre os malditos”.
E Frei Leão respondeu: 
- De boa mente, pai.
Então S. Francisco, entre muitas lágrimas e suspiros e a bater no peito, disse em altas vozes: 
- Ó meu Senhor do céu e da terra; cometi contra Ti tantas iniquidades e tantos pecados que por isso sou digno de ser amaldiçoado por Ti.
E Frei Leão respondeu: 
- Ó irmão Francisco, Deus te fará tal, que entre os benditos serás singularmente bendito. 
E S. Francisco, maravilhando-se de Frei Leão responder sempre o contrário do que ele havia ordenado, repreendeu-o, dizendo: 
- Por que não respondes como te ensino? Ordeno-te, pela santa obediência, que respondas como te ensinar. Direi assim: “irmão Francisco miserável, pensas tu que Deus há de ter misericórdia de ti; não é tão certo que tens cometido tantos pecados contra o Pai da misericórdia e o Deus de toda consolação, de modo que não és digno de encontrar misericórdia?”. E tu, irmão Leão, ovelhinha, responderás: “De nenhum modo és digno de alcançar misericórdia”.
Mas depois, quando S. Francisco disse: 
- O irmão Francisco miserável, etc.
Então Frei Leão respondeu:
- Deus Pai, cuja misericórdia é infinita mais do que o teu pecado, fará em ti grande misericórdia e te encherá de muitas graças. 
A esta resposta S. Francisco docemente irritado e pacientemente perturbado disse a Frei leão: 
- Por que tiveste a presunção de ir contra a obediência, e por tantas vezes respondeste o contrário do que te impus?
Respondeu Frei Leão muito humilde e reverentemente: 
- Deus o sabe, pai meu, que cada vez tive vontade de responder como me ordenaste, mas Deus me fez falar como quis e não como eu queria.
Do que S. Francisco se maravilhou e disse a Frei Leão: 
- Peço-te afetuosamente que desta vez me respondas como te disser.
Respondeu Frei Leão: 
- Dize em nome de Deus, que por certo responderei desta vez como queres.
E S. Francisco, entre lágrimas, disse: 
- Ó irmão Francisco miserável, pensas que Deus terá misericórdia de ti?.
Responde Frei Leão: 
- Antes grandes graças receberás de Deus e serás exaltado e glorificado na eternidade, porque quem se humilha será exaltado, e eu não posso dizer de outro modo, porque Deus fala pela minha boca. 
E assim nesta humilde contenda, com muitas lágrimas e muita consolação espiritual, velaram até ao amanhecer.