segunda-feira, 22 de outubro de 2012

NOSSO VIGIA NOTURNO





Eu tenho tendência a ser ansiosa e muitas vezes levo todos os problemas do dia para a cama comigo. Resultado: não durmo bem e no outro dia estou um “trapo”.
Uma senhora certa vez escreveu algo que me ajudou muito. Ela disse que à medida que tirava a roupa que havia usado durante o dia, ela se despia das suas preocupações, orando por cada uma delas. Depois ela tomava um bom banho e colocava seu roupão. Parece uma coisa boba, mas após fazer isto ela se sentia liberta do peso e pronta para realmente descansar.
Eu fiz, e funcionou!
Se Deus quisesse que ficássemos acordados a noite toda trabalhando nos problemas do mundo, o Espírito Santo nos revelaria, mas, ao contrário sua Palavra nos diz que Deus não dorme (Cf. Salmo 121/120), e por isso eu posso dormir! O sono vai renovar as minhas forças e enquanto isso Deus está acordado cuidando de cada uma das minhas preocupações.
Eu trabalho o dia inteiro e não preciso trabalhar no turno da noite também. Além do mais, minha ansiedade pura e simples não vai ajudar em nada na resolução daquilo que me aflige… ao contrário, ela vai fazer que os problemas pareçam maiores diante dos meus olhos.
Você já se sentiu assim? Então experimente descansar no Senhor, entregando-lhe cada uma das suas preocupações!
Lembre-se: “Para uma boa noite de descanso, descanse no Senhor!”.

Para os montes levanto os olhos: de onde me virá socorro?
O meu socorro virá do Senhor, criador do céu e da terra.
Ele não permitirá que teus pés resvalem; não dormirá aquele que te guarda.
Não, não há de dormir, nem adormecer o guarda de Israel.
O Senhor é teu guarda, o Senhor é teu abrigo, sempre ao teu lado.
De dia, o sol não te fará mal; nem a lua durante a noite.
O Senhor te resguardará de todo o mal; ele velará sobre tua alma.
O Senhor guardará os teus passos, agora e para todo o sempre.

(Salmo 121/120)

Hedy Silvado


TRATAR BEM A TODOS





Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente por dente. Mas eu vos digo…: àquele que te levar a juízo para tirar-te a túnica, deixa-lhe também o manto; e se alguém te forçar a andar uma milha, vai com ele duas…”. São palavras de Jesus, que nos convidam a viver a caridade para além dos critérios dos homens.
No nosso relacionamento, não podemos ser ingênuos, sem dúvida, e devemos exigir os nossos direitos dentro do que for justo, mas não nos deve parecer excessiva qualquer renúncia ou sacrifício em prol dos outros. Assim nos assemelhamos a Cristo que, com a Sua morte na Cruz, nos deu um exemplo de amor acima de toda a medida humana.
O homem não tem nada de tão divino – tão de Cristo – como a mansidão e a paciência na prática do bem” (2).
Fomentemos aquelas virtudes que, juntamente com a nossa salvação, aproveitam principalmente ao próximo… Nas coisas terrenas, ninguém vive para si próprio: o artesão, o soldado, o lavrador, o comerciante, todos sem exceção contribuem para o bem comum e para o serviço do próximo. Com muito mais razão há de ser assim no terreno espiritual, porque esta é a verdadeira vida. Quem vive só para si e despreza os outros é um ser inútil, não pertence à nossa linhagem” (3).
As múltiplas chamadas que o Senhor nos dirige para que vivamos a todo o momento a caridade (4), devem estimular-nos a segui-Lo de perto com atos concretos, procurando oportunidades de ser úteis, de proporcionar alegrias aos que estão ao nosso lado, sabendo que nunca progrediremos suficientemente nessa virtude. Ao mesmo tempo, consideremos hoje na nossa oração todos esses aspectos em que seria fácil faltarmos à caridade se não estivéssemos vigilantes: juízos precipitados, críticas negativas, faltas de atenção para com os outros por estarmos excessivamente preocupados com os nossos assuntos, esquecimentos que são fruto do desinteresse ou do menosprezo… Não é norma do cristão retribuir olho por olho e dente por dente, mas fazer continuamente o bem, ainda que, por vezes, não obtenha em troca, aqui na terra, nenhum proveito humano. O coração certamente se terá enriquecido.
A caridade leva-nos a compreender, a desculpar, a conviver com todos, de maneira que aqueles que “pensam ou atuam de um modo diferente do nosso em matéria social, política ou mesmo religiosa, devem ser objeto também do nosso respeito e do nosso apreço (...). Esta caridade e esta benignidade não se devem converter de forma alguma em indiferença no tocante à verdade e ao bem; mais ainda, a própria caridade exige que se anuncie a todos os homens a verdade que salva. Mas é necessário distinguir entre o erro, que sempre deve ser evitado, e o homem que erra, pois este conserva a dignidade da pessoa mesmo quando está dominado por ideias falsas ou insuficientes em matéria religiosa” (5).
Um discípulo de Cristo jamais tratará mal pessoa alguma; ao erro chama erro, mas, a quem está errado, deve corrigi-lo com afeto; senão, não poderá ajudá-lo, não poderá santificá-lo” (6), e essa é a maior prova de caridade.

O preceito da caridade não se estende somente àqueles que nos querem e nos tratam bem, mas a todos sem exceção. Ouvistes o que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos aborrecem e orai pelos que vos perseguem e caluniam.
Devemos também viver a caridade com aqueles que nos tratam mal, que nos difamam e roubam a honra, que procuram positivamente prejudicar-nos. O Senhor deu-nos exemplo disso na Cruz (7), e os discípulos seguiram o mesmo caminho do Mestre (8). Ele nos ensinou a não ter inimigos pessoais – como o testemunharam heroicamente os santos de todas as épocas – e a considerar o pecado como o único mal verdadeiro.
A caridade terá diversas manifestações que não se opõem à prudência e à defesa justa, à proclamação da verdade em face da difamação, e à defesa enérgica do bem e dos legítimos interesses pessoais ou do próximo, e dos direitos da Igreja. Mas o cristão deve ter sempre um coração grande para respeitar a todos, mesmo aqueles que se manifestam como inimigos; e deve fazê-lo “não por serem irmãos, mas para que o sejam; para tratar sempre com amor fraterno aquele que já é irmão e aquele que se manifesta como inimigo, a fim de que venha a ser irmão” (9).
Este modo de atuar, que exige uma profunda vida de oração, distingue-nos claramente dos pagãos e daqueles que realmente não querem viver como discípulos de Cristo. Pois, “se amardes os que vos amam, que recompensa tereis? Também não fazem isso os publicanos? E se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis a mais? Também não fazem isso os gentios?” A fé cristã pede não apenas um comportamento humano correto, mas virtudes heroicas.
Com a ajuda da graça, estenderemos, pois, a nossa caridade aos que não se comportam como filhos de Deus, aos que o ofendem, porque “nenhum pecador, enquanto tal, é digno de amor; mas todo o homem, enquanto tal, é digno de ser amado por Deus” (10). Todos continuam a ser filhos de Deus e capazes de converter-se e de alcançar a glória eterna.
A caridade incitar-nos-á à oração, à exemplaridade, ao apostolado, à correção fraterna, confiando em que todo o homem é capaz de retificar os seus erros. Se vez por outra as ofensas, as injúrias, as calúnias forem particularmente dolorosas, pediremos ajuda a Nossa Senhora, que contemplamos frequentemente ao pé da Cruz, sentindo muito de perto todas as infâmias contra o seu Filho: grande parte daquelas injúrias, não o esqueçamos, saíram dos nossos lábios e das nossas ações. Os agravos que nos fazem hão de doer-nos, sobretudo, pela ofensa a Deus que representam e pelo mal que podem ocasionar a outras pessoas, e hão de mover-nos a desagravar a Deus e a oferecer-lhe toda a reparação que pudermos.

O coração do cristão tem de ser grande. A sua caridade, evidentemente, deve ser ordenada e, portanto, deve começar pelos mais próximos, pelas pessoas que, por vontade divina, estão à sua volta. No entanto, o seu afeto nunca pode ser excludente ou limitar-se a âmbitos reduzidos. O Senhor não quer um apostolado de horizontes tão estreitos. A atitude do cristão, a sua convivência com todos, deve ser como uma generosa torrente de carinho sobrenatural e de cordialidade humana, que banha tudo à sua passagem.
Pedimos a Deus na nossa oração pessoal que nos dilate o coração; que nos ajude a oferecer sinceramente a nossa amizade a um círculo cada vez mais vasto de pessoas; que nos anime a ampliar constantemente o campo do nosso apostolado, ainda que num caso ou noutro não sejamos correspondidos, ainda que seja necessário enterrarmos frequentemente o nosso próprio eu, ceder nalgum ponto de vista ou nalgum gosto pessoal. A amizade leal exige um esforço positivo – que será alimentado pelo trato assíduo com Jesus Cristo – “por compreender as convicções dos nossos amigos, mesmo que não cheguemos a partilhar delas nem a aceitá-las” (11) por não poderem conciliar-se com as nossas convicções de cristãos.
O Senhor não deixa de perdoar as nossas ofensas sempre que voltamos para Ele movidos pela Sua graça; tem uma paciência infinita com as nossas mesquinhezes e com os nossos erros; por isso nos pede – e assim nos ensinou expressamente no Pai Nosso – que tenhamos paciência em face de certas situações e circunstâncias que dificultam que os nossos amigos ou conhecidos se aproximem de Deus. A falta de formação e a ignorância da doutrina que as pessoas revelam, os seus defeitos patentes, mesmo a sua aparente indiferença, não nos devem afastar delas, antes hão de ser para nós chamadas positivas, prementes, luzes que indicam uma maior necessidade de ajuda espiritual; hão de ser um estímulo para intensificarmos o nosso interesse por cada uma dessas pessoas e nunca um motivo para nos afastarmos delas.
Formulemos um propósito concreto que nos faça aproximar-nos dos nossos parentes, amigos e conhecidos que estejam espiritualmente mais necessitados, e peçamos graças à Santíssima Virgem para levá-lo a cabo.

Falar com Deus

(1) Mt 5, 38-48;
(2) cfr. São Gregório Nazianzeno, Oração, 17, 9;
(3) São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus, 77, 6;
(4) cfr. Jo 13, 34-35; 15, 12;
(5) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 28;
(6) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, n. 9;
(7) cfr. Lc 23, 34;
(8) cfr. At 7, 60;
(9) Santo Agostinho, Comentário à primeira Epístola de São João, 4, 10, 7;
(10) idem, Sobre a doutrina cristã, 1, 27;
(11) Josemaría Escrivá, Sulco, n. 746.

VOCAÇÃO PARA A SANTIDADE





A descoberta da vocação pessoal é o momento mais importante de toda a vida. Da resposta fiel a essa chamada divina dependem a felicidade própria e a de muitos outros. Deus cria-nos, prepara-nos e chama-nos em função de um desígnio eterno. “Se hoje em dia tantos cristãos vivem à deriva, com pouca profundidade e limitados por horizontes pequenos, isso se deve, sobretudo, à falta de uma consciência clara da sua própria razão de ser e de existir [...]. O que eleva o homem, o que realmente lhe confere uma personalidade, é a consciência da sua vocação, a consciência da sua tarefa concreta. Isso é o que enche uma vida de conteúdo” (1).
A decisão inicial de seguir o Senhor é, porém, a base de muitas outras chamadas ao longo da vida. A fidelidade realiza-se dia após dia, normalmente em coisas que parecem de pouca importância, nos pequenos deveres cotidianos, no cuidado em afastar tudo aquilo que possa ferir o que é a essência da própria vida. Não basta preservar a vocação; é preciso renová-la, reafirmá-la constantemente: quando parece fácil e nos momentos em que tudo custa; quando os ataques do mundo, do demônio e da carne se manifestam em toda a sua violência.
Teremos sempre a ajuda necessária para sermos fiéis. Quanto mais dificuldades, mais graças. E com a luta ascética bem determinada – com um exame particular bem concreto –, o amor cresce e se robustece com o passar do tempo; e a entrega, afastada toda a rotina, torna-se mais consciente, mais madura. “Não se trata de um crescimento de tipo quantitativo, como o de um montão de trigo, mas de um crescimento qualitativo, como o do calor que se torna mais intenso, ou como o da ciência que, sem chegar a novas conclusões, se torna mais penetrante, mais profunda, mais unificada, mais certa. Assim, pela caridade tendemos a amar mais perfeitamente, de modo mais puro, mais intimamente, a Deus acima de tudo, e ao próximo e a nós mesmos para que glorifiquemos a Deus neste tempo e na eternidade” (2). É esse o crescimento que o Senhor nos pede.
Esforçar-se por crescer em santidade, em amor a Cristo e a todos os homens por Cristo, é assegurar a fidelidade e consequentemente uma vida plena de sentido, de amor e de alegria. São Paulo servia-se de uma comparação tirada das corridas no estádio para explicar que a luta ascética do cristão deve ser alegre, como um autêntico esporte sobrenatural. E ao considerar que não tinha atingido a perfeição, dizia que lutava por alcançar o que fora prometido: “Uma só coisa é a que busco: lançar-me em direção ao que tenho pela frente, correr para a meta, para alcançar o prêmio a que Deus nos chama das alturas” (3).
Desde que Cristo irrompeu na sua vida na estrada de Damasco, Paulo entregou-se com todas as suas forças à tarefa de procurá-Lo, amá-Lo e servi-Lo. Foi o que fizeram os demais Apóstolos a partir do dia em que Jesus passou por eles e os chamou. Os defeitos que tinham não desapareceram naquele instante, mas eles seguiram o Mestre numa amizade crescente e souberam ser-lhe fiéis. Nós devemos fazer o mesmo, correspondendo diariamente às graças que recebemos, sendo fiéis cada dia. Assim chegaremos à meta em que Cristo nos espera.

Falar com Deus

(1) F. Suárez, A Virgem Nossa Senhora, Aster, Lisboa, pág. 29;
(2) R. Garrigou-Lagrange, La Madre del Salvador, Rialp, Madrid, 1976, pág. 106;
(3) cfr. Fi 3, 13-14.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ELEVADOS PELA BONDADE DE DEUS





O homem, enquanto imagem e semelhança de Deus é bom, mas ao mesmo tempo tem sua existência marcada por limitações. Desde que nascemos somos dependentes, precisamos dos nossos pais, precisamos de pessoas que nos ensinem. Depender pode ser uma condição humilhante quando não se tem consciência de que estas pequenas realidades são apenas fagulhas que nos apontam para nossa real dependência. Nós dependemos de Deus.
A condição humana nos humilha quando o forte impulso de filhos de Adão que somos grita em nós. A condição humana nos humilha quando tentamos fazer o que é bom, mas mesmo diante de todos os esforços acabamos por fazer o que é mau. A condição humana nos humilha quando nossas misérias são esfregadas em nossa “cara”. Quando vemos do que realmente somos capazes.

Mas o homem não é só miséria, o homem é capaz de Deus, temos as fagulhas de Adão, mas fomos resgatados por Cristo, o Homem Novo que nos levanta de nossas misérias e nos ensina a caminhar. Nossa condição humana é humilhante, mas é exultante saber que ainda assim Deus quis nos elevar e continua nos elevando e dizendo que nem tudo é miséria, nem tudo é humilhação. Depender de Deus é condição essencial da existência de um cristão.
Não esqueçamos, que não obstante às humilhações, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Nossa condição humana faz frente à proposta feita pela serpente a Adão e Eva e mostra que nós, por nós mesmos, não somos “deuses”. Somos imagem e semelhança de um Deus que acima de tudo é Amor. Isso é grandioso e nos enche de responsabilidade, mas não tira o elemento humilhação, que nos ajuda a superar qualquer tipo de soberba e egoísmo por nos relembrar nossa condição falível.
Nem tudo é humilhação, mas quando ela acontece nos relembra o quão simples e humildes precisamos ser no relacionamento com Deus e com as outras pessoas.



Deus te abençõe!
Pe. Luiz Gilderlane