terça-feira, 31 de julho de 2012

OBEDIÊNCIA E FIDELIDADE NAS PEQUENAS COISAS





Deus pede-nos em cada momento alguma coisa muito concreta, mas sempre ao alcance das nossas forças. Depois da primeira correspondência, chegam mais graças para uma segunda, precisamente por termos correspondido à primeira. E assim uma graça maior sucede a outra, e vamo-nos tornando aptos para corresponder a Deus em coisas cada vez mais difíceis.
Pelo contrário, se descumprimos o querer de Deus em coisas que nos parecem sem importância, vamos resvalando por uma pendente que não demorará a precipitar-nos no pecado e na infelicidade: Quem despreza as pequenas coisas, pouco a pouco cairá nas grandes. “Foi dura a experiência; não esqueças a lição – As tuas grandes covardias de agora são – é evidente – paralelas às tuas pequenas covardias diárias – ‘Não pudeste’ vencer nas coisas grandes, porque ‘não quiseste’ vencer nas coisas pequenas”.
Por outro lado, as coisas pequenas não costumam levar à vaidade, que esvazia tantas obras. Quem pensará em aplaudir aquele que cedeu o seu lugar no ônibus, ou que deixou ordenados os seus papéis e livros ao terminar o estudo? Quem louvará uma mãe por sorrir, se é o que todos esperam dela, ou o professor que preparou bem a sua aula, ou o aluno que estudou a matéria da prova, ou o médico que tratou o doente com delicadeza?
E essas coisas pequenas, muitas das quais são meramente humanas, tornam-se divinas pelo oferecimento de obras que fazemos todas as manhãs e que depois procuramos renovar durante o dia. O humano e o divino fundem-se então numa íntima e forte unidade de vida, que nos permite ganhar pouco a pouco o Céu, ao preço das coisas humanas de cada dia.
Para alcançarmos essa unidade de vida mediante a fidelidade às pequenas coisas, necessitamos de um grande amor ao Senhor, de um desejo profundo de ser inteiramente d’Ele, de querer procurar o seu rosto em todas as ocasiões da vida normal. Por sua vez, o cuidado das pequenas coisas alimenta continuamente o nosso amor a Deus.
Nossa Senhora ensinar-nos-á a dar valor ao que parece carecer de importância, a esmerar-nos nos detalhes que podem passar despercebidos aos outros, como passou ao mestre-sala das bodas de Caná que ia faltar vinho: mas não à Virgem nossa Mãe.


Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane

REMORSO DO CONDENADO: EU ME CONDENEI POR UM NADA




Gustans gustavi paululum mellis, et ecce morior” — “Tomei um pouco de mel, e por isso morro” (I Rs 14, 43).

A consciência roerá o coração dos réprobos por muitos remorsos; mas um dos que mais o atormentarão, será a lembrança de que se perdeu por um nada. Oh! Que rugidos soltará o condenado, pensando que por algumas satisfações momentâneas e envenenadas, renunciou a um reino de eterna felicidade, e está condenado a arder para sempre naqueles abismos!...
Meu irmão, reflete bem que também hás de sentir um dia o mesmo desespero, se não te aproveitares agora da divina misericórdia, e lembra-te mais uma vez de que para te assegurar a eternidade nenhuma providência é demasiada.

A consciência roerá o coração dos réprobos por grande número de remorsos; mas um dos que mais os atormentarão será o pensar no nada das coisas porque se condenaram.
Quando Esaú tinha comido o prato das lentilhas, pelas quais vendeu o direito de primogenitura, diz a Escritura que pela dor e mágoa da perda se pôs a rugir. Irrugiit clamore magno (cf. Gn 27, 34). Mas, oh! Que uivos e rugidos mais horrorosos não soltará o réprobo, pensando que por umas satisfações fugitivas e envenenadas perdeu um reino de eterno gozo, e que está reduzido a ver-se eternamente condenado a uma morte contínua! Chorará mais amarguradamente do que Jonathas, quando se viu condenado à morte por Saul, seu pai, por ter tomado um pouco de mel: “Tomei um pouco de mel, e por isso morro”.
Ó céus! Que pena sofrerá o condenado, considerando então a causa da sua condenação!
Presentemente, o que é a nossos olhos a vida já passada, senão um sonho, um instante? Que hão de parecer, pois a quem está no inferno, esses cinquenta ou sessenta anos de vida passados na terra, quando se vir no oceano da eternidade, na qual passará cem e mil milhões de anos e de séculos e sempre verá que a eternidade está ainda no seu começo?
Mas, que digo! Cinquenta anos de vida! Serão porventura cinquenta anos de gozo? Gozará porventura o pecador, vivendo longe de Deus, doçuras contínuas em sua vida pecaminosa? Quanto tempo duram esses prazeres do pecado? Uns instantes apenas, e todo o resto de tempo é, para o que vive na desgraça de Deus, um tempo de mágoas e pesares. Que serão, portanto, esses curtos momentos de prazer, aos olhos do infeliz réprobo? E especialmente, como se lhe afigurará então aquele último pecado pelo qual se perdeu?
Portanto — assim dirá de si para si, — por uma miserável satisfação, que durou apenas um instante, e apenas gozada se dissipou como o vento, estou condenado a arder neste fogo, sem esperança e abandonado de todos, enquanto Deus for Deus, durante toda a eternidade!

Que favor não seria para o réprobo, se Deus lhe concedesse mais um ano ou mês de vida, para reparar o mal praticado, e aplacar os remorsos que de contínuo o atormentam? Ora, meu irmão, esse tempo é a ti que Deus o concede, e então em que o quererás empregar? Pensa que se trata da eternidade, e que, na palavra de São Bernardo, nenhuma providência é demasiada para a pores ao abrigo dos perigos: “Nulla nimia securitas, ubi periclitatur aeternitas”.

Iluminai-me, Senhor, e fazei-me conhecer a injustiça que cometi ofendendo-Vos, e o castigo que mereci. Meu Deus, sinto grande mágoa por Vos haver ofendido; mas esta mágoa me consola. Se me tivésseis enviado ao inferno, como merecia, o inferno do meu inferno seria o remorso de pensar que me perdi por tão pouca coisa. Mas, agora este remorso me consola, porque me anima a esperar o perdão que prometestes ao que se arrepende. Sim, meu Senhor, arrependo-me de Vos haver ultrajado; abraço a mágoa que sinto e peço-Vos que ma aumenteis e conserveis até à morte, afim de que eu chore sempre amargamente os desgostos que Vos dei.
Perdoai-me, meu Jesus! Ó meu Redentor, que, para ter piedade de mim, não tivestes piedade de Vós mesmo, condenando-Vos a morrer de dor: suplico-Vos que me livreis do inferno onde não mais Vos poderia amar. Fazei que a mágoa de Vos ter ofendido sustente em mim uma dor contínua e ao mesmo tempo me abrase todo em amor por Vós, que me haveis amado tanto, me haveis suportado com tão grande paciência, e, em vez de me castigar, me enriqueceis de luzes e graças.
Graças Vos dou, ó meu Jesus, e amo-Vos mais que a mim mesmo, amo-Vos de todo o coração. — Não sabeis desprezar o que Vos ama. Amo-Vos; não me repilais de Vossa presença. Recebei-me em Vossa amizade, e não permitais que Vos torne a perder.
Maria, minha Mãe, aceitai-me por vosso servo e prendei-me a Jesus, vosso Filho. Suplicai-lhe que me perdoe, que me dê o Seu amor e a graça da perseverança até à morte. (II 128.)

Sto. Afonso de Ligório
 Deus te abençoe! 
Pe. Luiz Gilderlane

A ÁRVORE MORTA





Num inverno, quando eu ainda era criança, meu pai estava precisando de lenha. Procurou uma árvore morta e a cortou.
Mas, quando chegou a primavera, viu que no tronco daquela árvore que tinha cortado, nasciam novos brotos. Meu pai ficou desolado.
Então ele disse:
- Tinha certeza de que aquela árvore estava morta. Perdera todas as folhas no inverno e fazia tanto frio que os galhos quebraram e caíram no chão, como se o velho tronco tivesse ficado sem vida. Mas agora percebo que ainda existia vida naquele tronco.
Depois, voltou-se para mim, e aconselhou-me:
- Não esqueça esta lição. Nunca corte uma árvore no inverno. Não tome uma decisão negativa no tempo adverso. Nunca tome decisões importantes quando se sentir desanimado, deprimido e com o espírito abatido. Espere. Seja paciente. A tormenta passará. Lembre-se: a primavera voltará!


Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane

QUE FIZ EU?





Pitágoras recomendava a seus discípulos fazerem a si mesmos as perguntas seguintes duas vezes por dia, antes do meio dia e à noite: “Que fiz eu? Como o fiz? Fiz tudo o que devia fazer?”.

E Quinto Séxtio, outro filósofo anterior a Cristo, formulava a si mesmo, todas as noites, as seguintes interpelações: “A que fraquezas de meu caráter busquei remédio hoje? Que defeitos combati? Em que foi que me tornei melhor?”.

Sêneca, igualmente célebre por sua sabedoria, escreveu: “Tenho o hábito de examinar-me cada dia à noite, depois de apagar a luz percorro meu dia em pensamento e ponho todas as minhas palavras e todas as minhas ações no prato da balança.”

Esses grandes pensadores tinham razão: só pode o homem ser senhor de si mesmo e dominar todos os seus impulsos quando for capaz de se conhecer a si mesmo.
O mecânico só é senhor de sua máquina, e só pode dominá-la, quando a conhece inteiramente, até o mais insignificante parafuso.

“Lendas do Céu e da Terra”, Malba Tahan


Se ilustres pensadores pagãos sabem de tudo isso, muito mais deveríamos saber nós que temos o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Portanto, dominemos nosso selvagem leão interior, e voemos como a águia em direção ao nosso Criador.

Almas Castelo


A HÓSTIA MILAGROSA EM DONAI





Donai é uma pequena cidade da França. Em 1254 presenciou esta modesta vila um milagre extraordinário.
Um sacerdote acabara de distribuir a Santa comunhão aos fiéis. Voltando ao altar, viu uma hóstia no chão. Incomodado com este desagradável incidente, abaixou-se para recolher a Santa partícula. Mas, eis que ela se levantou por si mesma, indo repousar sobre o sanguíneo.
Embora admirado por este fato extraordinário, não contava, entretanto, com o que havia de acontecer. Olhando para a Santa Hóstia, já não via a espécie de pão, mas sim um lindo menino. Não pode deixar de manifestar altamente a sua comoção.
Os cônegos da igreja e as outras pessoas presentes, achegando-se ao altar, viam em vez de Hóstia consagrada, um amabilíssimo menino.
Este fato causou grande excitação na cidade inteira. O povo afluía em massa para presenciar o espetáculo grandioso, e todos, se tornaram testemunhas do belo milagre. Conservar depois, a Hóstia Milagrosa, perdurando o milagre.
Thomaz de Cantiprat, Bispo auxiliar de Cambrai, homem de grande valor e ciência, ouviu falar deste milagre. Resolveu, pois, ir em pessoa, à Donai para verificar o que havia de verdadeiro nestas narrações. Chegando lá, pediu ao deão da igreja que lhe mostrasse a Hóstia Milagrosa. Foi atendido.
Eis que ele mesmo nos narra:

“Quando se abriu a âmbula, diversas pessoas presentes gritaram: ‘Aí está nosso Deus! Aí, está o nosso Salvador!’, mas, eu via apenas a espécie de pão. Isto porém, durou só por alguns momentos, pois , de repente vi, em lugar da Hóstia a face de Nosso Senhor Jesus Cristo, não como de menino, mas como homem, a cabeça cingida com a coroa de espinhos, da fronte, deslizavam gotas de sangue. Prostrei-me, imediatamente, por terra e adorei a meu Deus, com os mais vivos sentimentos de amor e consolação.
Quando me levantei, vi somente a face divina, sem a coroa e sem o sangue, mas, era de uma expressão tão atraente e tão terna como nunca jamais se viu neste mundo. Das pessoas presentes, umas, tinham visto a Jesus como menino, outras como crucificado.”

De mil modos Jesus procura atrair nossos corações.
Não resistamos ao seu chamado!

(Extraído do livro: “Leituras Eucharisticas” - 1935- Editora Vozes – Frei Mariano Wintzen)

Deus te abençoe! 
Pe. Luiz Gilderlane

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A INVEJA





Conforme a definição clássica, que consta no parágrafo 2538 do Catecismo da Igreja Católica, a inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro. Diante disto notamos que a marca da inveja é a tristeza, mas não aquela causada por algo de ruim que tenha acontecido (uma doença, a morte de alguém querido, etc.), mas por algo de bom, ou seja, o bem ou o dom do outro. Notamos, então, que o invejoso é infeliz! Deus nosso Pai, que deseja nossa felicidade, quer justamente que sejamos livres deste mal, que, aliás, é bastante comum. Logicamente uns mais, outros menos, mas todos os homens já sofreram deste mal.
Sendo assim, vamos entender um pouco a inveja e suas causas, bem como os meios que Deus nos dá para tratá-la.
Conforme São Tomás de Aquino, a inveja tem como característica o fato de que o bem alheio é considerado um mal próprio. A tristeza advém do fato de que ao olharmos o bem do outro que não temos, nos sentimos menores ou inferiores a ele, e o julgamos feliz em razão desse bem. Com isso, o coração que alimenta a inveja vai se tornando triste, inconformado com o que não tem, o que leva à revolta ou a um estado constante e doentio de competição com o outro, a ponto de chegar a odiar e até desejar o mal ao invejado, pois o invejoso não se contenta com a própria tristeza mas quer ver o outro mais triste do que ele próprio. Por fim, este estado da alma leva a pessoa à depressão, ao desânimo, a perder o sentido da vida, que passa a ser vista somente pelo ângulo daquilo que não se tem, de modo que o invejoso é um eterno descontente com tudo e com todos.
A inveja é como uma árvore que tem raízes e frutos. A raiz da inveja é a vanglória, que por sua vez, conforme São Tomás de Aquino, tem a sua raiz no orgulho. A vanglória é o desejo de se destacar em função do brilho e não do bem em si mesmo, do sucesso ou o bem alcançado, de modo que o sucesso passa a ser a meta de vida, a ponto de se fazer qualquer coisa para alcançá-lo. Não que o sucesso seja ruim, ele é bom, mas não se pode viver em função dele, ou seja, nossa felicidade não está em função do sucesso ou dos bens e sim em função de nossa comunhão com Deus.
Por outro lado, os frutos da inveja são: a maledicência, que consiste em falar mal e difamar, normalmente injustamente, a pessoa invejada, com o simples objetivo de destruir ou rebaixá-la; a competição vaidosa, que consiste em estar sempre se comparando com o outro e com isto iniciar uma competição constante, cujo objetivo é simplesmente estar por cima, custe o que custar; a insatisfação constante, pois o invejoso acha que a felicidade está sempre “na casa do vizinho”, e é incapaz de se satisfazer com aquilo que tem; e por fim, o ódio à bondade que consiste em levar a sociedade a aceitar o mal e o pecado como normal, pois aquele que está afundado no pecado traz dentro de si a inveja da santidade e bondade dos outros, na forma de uma tristeza raivosa do bem, porque essa bondade os acusa de sua maldade.
Como diz São Paulo em sua carta a Tito: “Porque também nós outrora éramos insensatos, rebeldes… vivendo na malícia e na inveja” (1). Essa insensatez consiste justamente na incapacidade de perceber que a inveja leva a uma vida infeliz, pois por mais que tenhamos, nunca teremos tudo, ou seja, sempre haverá algo que invejar. Mas nós somos chamados a fazer a experiência do Amor de Deus, que pode nos curar e libertar do mal da inveja, na medida em que, alimentados pela Graça, optamos pelo caminho da felicidade e trabalhamos em nós para arrancar toda raiz de inveja que há em nosso coração.
Conforme Francisco Faus coloca em seu livro “A Inveja”, o invejoso é como um beija-flor que entra em uma sala com cinco portas de vidro, mas sem saber distinguir quais estão abertas, ele insiste em sair exatamente pela que está fechada, a porta da inveja, até que de tanto bater no vidro, cai semimorto no chão, sem perceber que há outras quatro portas abertas, que conduzem à verdadeira liberdade e felicidade.
A primeira porta é chamada a PORTA DA GRATIDÃO, que nos ensina que na vida, ao invés de motivo para inveja, temos motivos para gratidão. São Paulo nos ensina em sua carta aos Efésios: “Rendei graças sem cessar e por todas as coisas a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (2). Sem dúvida, esse é um ensinamento, e diria até, uma ordem de São Paulo, que nos leva para a liberdade de filhos de Deus, de filhos que confiam no amor do Pai, pois, como dizia são Josemaria Escrivá, o fundador do Opus Dei: “De Deus não me pode vir mal algum”, e “Que estejam tristes, os que não se sabem filhos de Deus, os que não se sabem amados por Deus”.
A segunda porta é a FIDELIDADE À NOSSA VIDA, que significa que temos que valorizar e tirar o máximo proveito do que temos, e não nos lamentar pelo que não temos. Junto com a gratidão, sendo fiéis à nossa vida, saberemos aproveitar e fazer frutificar o que Deus nos dá, ao invés de ficarmos olhando para o que os outros têm, o que não nos levará a lugar algum, além da tristeza e frustração.
A terceira porta é o AMOR GENEROSO, pois a Caridade, assim como a inveja, tem como objetivo o bem do próximo, porém em sentido oposto, pois a caridade se alegra com o bem do outro, enquanto a inveja se entristece. Sendo assim, como caminham em sentidos opostos, a caridade é um antídoto da inveja, pois aquele que ama se alegra com a riqueza, o sucesso e a grandeza do amado, de tal modo que a inveja não tem lugar onde há o amor.
A quarta porta: AS BEM-AVENTURANÇAS. Cristo sabia da sede da felicidade que há no coração de cada homem, de cada mulher, por isso Ele inicia Sua pregação com o famoso Sermão da Montanha (3), em que Ele nos dá o caminho para a felicidade, segundo o projeto de Deus, que está baseado no amor verdadeiro, que é oposto ao que o mundo hoje nos propõe, que está baseado no orgulho, que, como já vimos, é a raiz da inveja.
Em suma, se tivermos a coragem de optar pelo caminho traçado por Cristo nas Bem-Aventuranças, iremos vencendo a inveja e consequentemente toda a tristeza que ela traz consigo, até que a felicidade anunciada por Cristo se realize em nossas vidas.
O que cabe a cada um de nós é sinceridade e honestidade, de modo a reconhecermos o quanto de inveja há em nossos corações, para, a partir daí, confiantes na misericórdia de Deus, buscar nos lançar nas portas que Ele mesmo nos abriu, para que sejamos o que Ele quer: felizes!

Fernando Botelho de Andrade

(1) Tt 3, 3.
(2) Ef 5, 20.
(3) Mt 5, 1ss
Baseado no livro “A Inveja” de Francisco Faus, editora Quadrante.

sábado, 7 de julho de 2012



JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO FAZ AS DELÍCIAS DAS ALMAS DESPRENDIDAS


Ubicumque fuerit corpus, illuc congregabuntur et aquilae” — “Por toda a parte onde se achar o corpo, aí se reunirão as águias” (Lc 17, 37)

As almas desapegadas são aquelas águias magnânimas que se elevam acima de todas as coisas criadas e têm pelo afeto sua morada continua no céu. Ainda na terra elas acham o seu paraíso na presença de Jesus sacramentado, e nunca se fartam de visitá-Lo e fazer-Lhe companhia. Se nós também quisermos achar nossas delícias no divino Sacramento, desapeguemos nosso coração de nós mesmos e de todos os bens terrestres; e quando cometermos alguma falta, refugiemo-nos logo em nosso divino Salvador, afim de que nos purifique.

Por este corpo os Santos entendem comumente o de  JESUS NO SANTÍSSIMO SACRAMENTO , e pelas águias entendem as almas desapegadas, que se elevam, como estas aves, acima das coisas da terra, e voam para o céu, para onde tendem sem cessar por seus pensamentos e afetos, e onde têm a sua morada continua. Estas águias ainda na terra acham seu paraíso, onde quer que achem a Jesus sacramentado, e parece que nunca se podem fartar de o visitarem e de ficarem na sua presença. —Se as águias, diz São Jerônimo, percebendo o cheiro de alguma presa logo se lançam para a tomar, com quanto maior ardor devemos nós correr e voar para Jesus no Santíssimo Sacramento, como para o mais precioso alimento dos nossos corações?
Os Santos, neste vale de lágrimas, correram sempre com avidez, como cervos sequiosos, para esta fonte celeste. A grande serva de Deus, Maria Diaz, que viveu no tempo de Santa Teresa, obteve do bispo de Ávila licença para morar numa tribuna da igreja, onde ficava continuamente na presença de Jesus sacramentado, a quem chamava seu vizinho. O venerável frei Francisco do Menino Jesus, carmelita descalço, passando diante das igrejas onde estava o Santíssimo Sacramento, não podia deixar de entrar nelas para O visitar, dizendo que não convém a um amigo passar diante da casa de seu amigo sem entrar ao menos para saudá-lo e dizer-lhe uma palavra.
Finalmente, o Padre Alvarez, qualquer que fosse a sua ocupação, dirigia muitas vezes os olhos para o lado onde sabia que repousava o Santíssimo Sacramento; frequentemente o visitava, e passava algumas vezes noites inteiras na Sua presença. Derramava lágrimas vendo os palácios dos grandes cheios de gente, para fazerem corte a um homem, de quem esperam algum mísero bem; e tão abandonadas as igrejas, onde reside no meio de nós, como num trono de amor, o soberano Senhor do céu, rico de bens infinitos e eternos. Dizia que são muito felizes os religiosos que na sua própria casa podem visitar, quantas vezes querem, de noite e de dia, este augusto Senhor no Santíssimo Sacramento; o que não é dado às pessoas do século.

Procuremos visitar frequentemente a Jesus sacramentado; e, para acharmos as nossas delícias na sua divina presença, desprendamos nosso coração de todos os bens criados, porquanto é indigno das consolações celestiais aquele que vive escravo dos prazeres dos sentidos. Quando cometemos alguma falta, recorramos logo a este divino Sacramento, para ficarmos limpos: porque aí está a fonte predita pelo Profeta, a fonte aberta a todos, onde podemos, quantas vezes quisermos, ir purificar nossas almas de todas as manchas, que todos os dias contraímos pelo pecado: Haverá uma fonte aberta para a casa de Davi, para nela serem lavadas as manchas do pecador (Zc 13, 1).

Sim, ó meu Jesus, assim proponho fazer; mas Vós, dai-me a força para o executar. Confesso, ó Senhor, que, à vista de minhas manchas e ingratidões, não me devia atrever a chegar-me a Vós; mas já que me convidais com tanta bondade, não quero desalentar-me por causa das minhas misérias. A Vós compete mudar-me completamente; bani da minha alma todo o amor que não é para Vós, todo o desejo que não Vos é agradável, todo o pensamento que não tende para Vós, Meu Jesus, meu amor, meu tesouro, só a Vós quero contentar, só a Vós quero agradar. Só Vós mereceis todo o meu amor, só a Vós quero amar de todo o meu coração. Desapegai-me de tudo mais, Senhor, e ligai-me só a Vós; mas ligai-me tão bem, que não possa mais separar-me de Vós, nem nesta nem noutra vida.
Ó Maria, vós tanto desejais ver amado vosso divino Filho! Se me amais, eis aqui a graça que vos peço e que me haveis de impetrar: obtende-me um grande amor a Jesus sacramentado, e fazei com que eu não ame senão a Jesus. Vós alcançais tudo o que pedis; atendei-me, pois, e rogai por mim. Impetrai-me também um grande amor para convosco, que sois a criatura mais amante, a mais amável e a mais amada de Deus. (*I 389.)

Sto. Afonso Maria de Ligório
Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo Segundo: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 242-244.

Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane

quinta-feira, 5 de julho de 2012


A GRANDE DIFERENÇA ENTRE CRISTÃOS E CRISTÃOS


O homem foi criado para viver em comunhão com Deus, seu Criador, por isso à Sua imagem e semelhança. Mas só se pode viver em comunhão com quem se conhece e com quem se tem afinidade, semelhança e amor.
Antes do pecado original, Deus se dava a conhecer… todas as tardes vinha passear no jardim do Éden e conversar com o homem, mas com o pecado original isso acabou, o homem foi expulso do jardim do Éden e mais e mais foi se afastando do coração, da comunhão, do conhecimento de seu Criador.
Onde abunda o pecado superabunda a Graça”. Portanto, a salvação oferecida por Deus veio dar ao homem pecador, não só a remissão do pecado, a volta para o Jardim do Éden e possibilidade da comunhão com seu Criador…
Deus na pessoa do Filho Se fez homem, remiu não só o pecado original, mas toda a consequência do mesmo e oferece continuamente ao homem a sua Vida Divina na Pessoa do Espírito Santo… “Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem em seu nome, deu lhes o poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12).
É interessante notar que aqui o homem recebe o poder de se tornar filho de Deus, mas há uma grande diferença em ter um poder e desfrutar deste poder, ou seja, neste caso, há uma grande diferença entre ter apenas o poder de se tornar filho de Deus e realmente viver a Vida de Filho de Deus.
Em Romanos 8, 14, está escrito: “Pois todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”, note-se que são filhos, não os que apenas têm o Espírito Santo, mas são filhos os conduzidos por Ele.
Aí está a grande diferença entre cristãos e Cristãos… Todos o cristão é batizado em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Ser batizado, quer dizer, ser mergulhado e no nome, quer dizer na pessoa, portanto, no seu batismo o cristão é mergulhado na pessoa do Pai e na pessoa do Filho e na pessoa do Espírito Santo, mas ser mergulhado em não garante ser conduzido por, ou seja, para ser conduzido pelo Espírito Santo e assim se tornar efetivamente Filho de Deus se faz necessário não só mergulhar, mas principalmente e unicamente se deixar conduzir por Ele.
Ser conduzido pelo Espírito Santo, não basta ser mergulhado Nele e se encher Dele, se faz necessário muito mais, é indispensável fazer apenas e exclusivamente a Sua Vontade e com a alegria e a certeza de querer ser não só de boca, mas querer ser de todo o coração e verdadeiramente, não apenas servo, mas Filho de Deus que se dispõe a ir para a cruz e morrer nela todas as vezes em que a sua vontade não bater com a vontade do Espírito Santo de Deus que o conduz.
Antes do pecado original, Deus vinha estar com o homem para se dar a conhecer e ensinar a este homem como viver em comunhão com Ele. Após o pecado, Deus na Pessoa do Filho,veio como homem no meio dos homens para salvá-los do pecado, mas principalmente para, não mais ensiná-los a viver em comunhão com Deus, mas sim muito mais que isso, ou seja dar-lhes a condição de se tornarem filhos, Nele e por Ele, ao receber Dele o seu próprio Espírito, o Espírito de Deus, que é o único que vivendo na intimidade do Filho pode dar ao homem o testemunho de como é, sente, pensa e age o Filho.
Como Deus sabe que seria impossível ao filho do homem se deixar conduzir pelo Espírito de Deus, Este inspirou a alguns homens escolhidos por Ele para escreverem na linguagem dos homens tudo o que Deus quer e precisa revelar de Si aos homens e assim, dando a conhecer como Pai, Amor, Poder infinito, misericórdia, e Salvação, despertar no homem o desejo de se tornar filho deste DEUS, tão diferente de todos os ídolos e deuses inventados no decorrer da história da humanidade. Assim foram surgindo os escritos que hoje, compilados em um único livro, denominamos Bíblia que para os cristãos é reconhecido como a Revelação por escrito de Deus, inspirada pelo Espírito Santo.
Assim sendo, todo Cristão que realmente quiser se tornar filho de Deus e, portanto, ser conduzido pelo Espírito de Deus e desfrutar de tudo o que implica esta filiação, conscientemente deveria pôr como prioridade em sua vida, não apenas ter a Bíblia, mas acima de toda e qualquer busca de conhecimento, rezar incessantemente através destes escritos, pedindo ao seu inspirador, o Espírito Santo, a sua condução os seus ensinamentos, a sua Luz na busca desta trajetória rumo à casa do Pai, sem, porém, se esquecer, jamais, que, como católicos, todo ensinamento ou revelação que recebermos tem que antes ser submetido ao discernimento de nossa Igreja Católica para não só garantir a unidade dos filhos nesta trajetória, como também evitar o grave risco de iluminismos que só alimentam a vaidade, o engano e a divisão.
A Bíblia deve ser para todo Cristão a primeira e mais segura fonte de estudo e pesquisa para adquirir o conhecimento do Filho para, conhecendo como é o Caminho, a Verdade e a Vida, tornar mais fácil o trabalho do Espírito Santo de nos conduzir à Casa do Pai e de nos fazer viver o Céu dos Filhos de Deus desde aqui na Terra e por toda eternidade.
Não se pode esquecer, porém, que toda letra por si só é morta e que por isso pode ser interpretada erroneamente, segundo a cabeça e entendimento de quem a lê. Mas a Palavra de Deus é viva porque o Espírito que a inspirou é Vivo e está à disposição de todo aquele que, com a humildade da obediência à sua Igreja, lhe pedir sua manifestação.
Portanto, esta busca do conhecimento do Filho pela Bíblia tem que ser feita de forma oracional e inteiramente à Luz do Espírito Santo de Deus, para que se possa apropriar e usufruir de toda imensurável riqueza em todo tipo de graças, salvação e bênçãos que o Pai oferece a todo o que, conduzido por este mesmo Espírito, se tornar Filho de Deus em e por Jesus Cristo.
A Bíblia é o Testamento garantido pelo Paráclito ou advogado Divino da nossa herança como também Filhos do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e ignorá-la ou apenas mantê-la como enfeite em nossa casa é como um escravo que mantém sua carta de alforria fechada em seus guardados sem acreditar que nela, a lei lhe garante.
Portanto, quando alguém, ao se achar escravo de qualquer circunstância em sua vida, quer de doença, dor, dívida, angustia, etc., deverá procurar e certamente encontrará um socorro, uma promessa, uma solução de Deus, através de Sua Palavra escrita na Bíblia e revelada pelo Espírito Santo em seu coração. Amém e Amém.

Helena Maria Botelho de Andrade
 Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

DA PUREZA DE INTENÇÃO





Omne, quodcumque facitis in verbo aut in opere, omnia in nomine Domini Iesu Christi, gratias agentes Deo et Patri per ipsum” — “Tudo quanto fizerdes por palavra ou por obra, tudo seja em nome do Senhor Jesus Cristo, rendendo graças por ele a Deus Pai” (Cl 3, 17).

Nunca deixemos de dirigir de manhã a Deus todas as ações do dia; e procuremos renovar a boa intenção ao menos no começo das ações principais. É certo que as ações, boas em si mesmas, porém feitas para granjear louvores humanos, para satisfazer ao amor próprio ou por qualquer motivo humano, são como que postas num saco furado. Ao contrário, a pureza de intenção faz preciosas as ações mais insignificantes, porquanto toda obra feita para Deus é verdadeiro ato de amor divino.

A pureza de intenção consiste em fazer todas as ações com o único intuito de agradar a Deus. Jesus Cristo disse: “Se o teu olho for simples, todo o teu corpo será luminoso. Mas, se o teu olho for mau, todo o teu corpo estará em trevas”. Segundo a explicação de Santo Agostinho, o olho simples significa a intenção pura de dar gosto a Deus: o olho tenebroso significa a intenção má, quando se faz uma coisa por vaidade, ou para própria satisfação. Ora, segundo a intenção for boa ou má, a obra será também aos olhos de Deus boa ou má.
Poderá haver obra mais sublime do que o dar a vida pela fé? Todavia diz São Paulo que aquele que morre com outro intuito que não a vontade de Deus, nenhum proveito tem de seu martírio. Ora, se não aproveita nada o martírio, não sendo sofrido por amor de Deus, que utilidade terão todas as pregações, todos os livros e todos os trabalhos dos operários sagrados e todas as austeridades dos penitentes, quando feitos para granjear louvores humanos ou para contentar o amor próprio?
Disse o profeta Ageu, que as obras, embora santas por natureza, mas não feitas para Deus, são postas in sacculum pertusum (1), em um saco roto, quer dizer, que se perdem todas e nada resta. Ao contrário, toda a ação, por insignificante que seja, mas feita para o agrado de Deus, tem muito mais valor do que muitas obras grandiosas feitas sem reta intenção. Lemos em São Marcos que a viúva pobre não deitou no cofre das oferendas do templo senão duas pequenas moedas, mas o Salvador dela disse: “Vidua haec pauper plus omnibus misit” (2) — “Esta viúva pobre deu mais do que todos os outros”. Explica São Cypriano que ela deu mais do que os outros, porque deu as duas pequenas moedas com a intenção pura de agradar a Deus.
Para conhecer se uma ação foi feita com intenção reta, um dos melhores sinais é o não perturbar-se, quando não se alcança o intento desejado. Outro sinal é se depois da obra feita se fica contente e tranquilo, posto que outros murmurem ou a desaprovem. Pelo mais, se acontecer que o que fez bem é louvado, não deve inquietar-se pelo medo da vanglória. Se tal pensamento surgisse na mente, deveria desprezá-lo e dizer com São Bernardo: “Nec propter te coepi, nec propter te desinam” — “Não é para ti que comecei, nem para ti a quero interromper”.

A intenção de adquirirmos uma glória mais alta no céu é boa; mas a mais perfeita é a de agradar ao Senhor. É esta intenção que fere o Coração de Deus de amor para conosco, assim como disse a Esposa sagrada: “Vulnerasti cor meum in uno oculorum tuorum” (3) — “Feriste meu Coração com um dos teus olhos”. Pelo que o Apostolo deu também a seus discípulos este conselho: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, tudo fazei para glória de Deus” (4).
Dizia a Venerável Beatriz da Encarnação, primeira filha de Santa Theresa: “Nenhum valor terrestre pode igualar o de qualquer obra feita para Deus, posto que mais insignificante”. Com razão, pois que todas as obras feitas para Deus são outros tantos atos de amor divino. A pureza de intenção faz preciosas as ações mais desprezíveis; como sejam: o comer, o lavrar a terra, mesmo o divertir-se, com tanto que sejam feitas por obediência e para agradar a Deus.

Devemos, portanto, desde pela manhã dirigir a Deus todas as ações do dia. E será de grande vantagem renovar essa intenção no começo de todas as ações, ao menos das mais importantes, por exemplo, antes da oração, da comunhão, da leitura espiritual; paremos um instante no começo destas ações, como fazia certo solitário, que antes de principiar qualquer ação parava um pouco e levantava os olhos ao céu. Perguntado por que razão assim fazia, respondeu: “Procuro acertar o tiro”.

Ó meu Jesus, quando começarei a Vos amar com todas as veras? Ai de mim! Se entre as minhas ações, mesmo boas, procuro uma feita unicamente para Vos agradar, não a posso achar. Tende piedade de mim! Não permitais que eu Vos sirva tão mal até a minha morte. Ajudai-me, afim de que o resto de minha vida seja empregado unicamente no Vosso serviço e no Vosso amor. Fazei com que eu suporte tudo para Vos dar gosto, e faça tudo somente para Vos agradar; eu vo-Lo peço pelos merecimentos da Vossa paixão. Ó minha grande advogada, Maria, obtende-me esta graça pela vossa intercessão.

Santo Afonso Maria de Ligório

(1) Ag 1, 6.
(2) Mc 12, 43.
(3) Ct 4, 9.
(4) Cor 10, 31.
 Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane.