quarta-feira, 31 de julho de 2013

Meus olhos viram a tua salvação.


Comentário baseado no Evangelho de Mt 13,16-17


O texto de hoje é a continuação da pergunta dos discípulos: "Por que lhes falas em parábolas" (v. 10). A resposta de Jesus faz uma distinção entre os discípulos e a multidão: "... a vós foi dado a conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não" (v. 11). Então, Jesus fez distinção de pessoas?
Não! A compreensão deve ser positiva, pois ela tem uma força de interpelação para o leitor do evangelho: somente no seguimento de Jesus Cristo é que suas palavras fazem plenamente sentido. Não é Jesus que fala de maneira enigmática, mas os que ouvem não se sentem envolvidos por seu ensinamento. É como se a palavra de Jesus não lhes dissesse respeito.
A bem-aventurança do v. 16 diz respeito à pessoa de Jesus. Ver o Messias, ouvir a sua voz, foi o desejo de muitos profetas. O velho Simeão exulta: "Agora, soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação" (Lc 2,29-30).
Jesus teve motivos para escolher o método parabólico como meio de comunicar os mistérios do Reino. As parábolas exigiam, por parte dos ouvintes, uma grande capacidade de entrar em comunhão com Jesus, para poder captar-lhe a mensagem. Caso contrário, não se ia muito além da materialidade das palavras. E a parábola não passava de uma historinha meio sem graça, por falar de coisas evidentes. A mensagem das parábolas estava escondida atrás das palavras e só era captada por quem fosse capaz de buscar seu sentido oculto.
Por outro lado, a linguagem das parábolas era simples, mas exigia interpretação por parte dos ouvintes. As parábolas escondiam uma mina inesgotável de ensinamentos. Cada pessoa que as escutava podia descobrir uma mensagem particular e, com isso, iluminar a própria experiência de consagração ao Reino.

Sendo assim, ao mesmo tempo em que a mensagem das parábolas era compreendida por uns, permanecia incompreensível para outros. A uns era dado compreender os mistérios do Reino, a outros não. 
Seria isto um preconceito de Jesus em relação a algumas pessoas? Não! A compreensão dos mistérios do Reino não é dada a quem, de antemão, se fecha para Jesus. Seria perda de tempo querer comunicar-lhes o que não querem receber. Feliz é quem abre olhos e ouvidos para acolher Jesus!

Capacidade de entender a Palavra


Comentário baseado no Evangelho de Mt 13,16-17



Quando conversamos com alguém sobre algum assunto muito importante, mas notamos que o ouvinte está “longe” da conversa, distraído, olhando para os lados, preocupado com outras coisas, lógico que não sentimos vontade de continuar, e assim logo  encerramos o assunto ou  transformamos a  conversa em uma futilidade, que não requer tanta atenção do outro.
Na celebração de casamentos ás vezes enquanto o Padre ou o Diácono capricha na homilia, os noivos estão dando risinhos entre si, ou olhando para a cara de algum padrinho engraçado, ou olhando a da minha ou o noivinho, ou o que é ainda pior, fazendo pose para uma foto. Como diz o caboclo, “dá uma réiva”, e daí a gente logo conclui  e perde a vontade de continuar com a reflexão, pois os principais interessados, que são os próprios celebrantes, estão distraídos, a palavra é apenas um ruído, um barulho que não passa dos ouvidos.
Para fazer esse desabafo no evangelho de hoje, Jesus deve ter passado essa experiência inúmeras vezes diante da multidão, ele ali falando com entusiasmo do Reino Novo, falando e revelando o Pai, e o povaréu nem aí com o “peixe”, parece que só se ligavam quando Jesus fazia algum milagre, daí a coisa fervia, pois milagre não exige compromisso da parte de quem o recebe.
Temos em nossas vidas pessoas com quem conversamos todo dia, mas algumas nos são especiais, e com essas a conversa passa do mero formalismo para um colóquio, algo mais profundo. As multidões sempre seguiram Jesus, no meio delas haviam pessoas que viam em Jesus alguém especial, interessavam-se em ouvi-lo, prestando toda atenção, porque suas palavras traziam esperança, fortalecimento, coragem e conforto, e com isso trazia também a vontade de pensar diferente e construir um mundo novo. Não era apenas uma mensagem bonita que deleitava os ouvidos, mas era algo que entrava dentro do coração, no centro da vida, provocando mudanças...
Mas havia também os “avoados”, os interessados em buscar em Jesus alguma vantagem, esses até o aplaudiam e o admiravam, mas não estavam interessados em mudanças radicais de vida, ouviam as pregações, entravam por um ouvido e saia pelo outro. Jesus era só mais um pregador entre outros, muito bom, falando com sabedoria, mas era só mais um. Assim é que o homem da pós-modernidade vê o cristianismo, como mais uma religião entre centenas de milagres, como uma Filosofia de Vida, entre tantas outras, muito boa, sólida, consistente, tradicional, mas é só mais uma...
Os Discípulos foram escolhidos do meio da multidão, o Senhor viu neles, muito mais do que ouvidos atentos, mas corações abertos, sedentos de esperança e uma total disponibilidade para segui-lo. Não são homens especiais e superdotados de algum poder sobrenatural, mas para eles Jesus não é apenas mais um, é o Único e absoluto. Com eles Jesus inicia o Novo Povo de Deus, os homens e mulheres da Nova Aliança, haverá entre Jesus e eles um forte elo como havia no Código da Aliança entre Deus e Israel “Eu serei o Vosso Deus e Vós sereis meu Povo” em uma relação única e particular.
Por isso Jesus os trata de modo especial e os introduz pedagogicamente ao conhecimento sobre os mistérios do Reino dos Céus, que não é revelado a multidão. Hoje esses discípulos estão nas nossas comunidades cristãs, são todos os batizados que se abriram á Graça de Deus, que foram capazes de se encantarem com Jesus e seu evangelho, e se colocam sempre disponíveis para construir esse Reino que é Eterno. Jesus não fala mais em parábolas, ele é o Logus do Pai, a sua Palavra encarnada no meio de nós, ele se entrega totalmente na Eucaristia em cada celebração.

Ai de nós se o ouvirmos de má vontade, sem nenhuma disposição interior para o segui-lo, ai de nós se não o acolhermos com o coração aberto... Melhor seria nem ser batizado e não ter se apossado do nome de Cristão.

sábado, 20 de julho de 2013

APATIA x EMPATIA





Em todas as relações humanas envolvemos sentimentos que nos aproximam ou afastam das outras pessoas. Se você analisar as últimas horas, irá notar que dois sentimentos quase sempre estão presentes: são a apatia e a empatia. Um deles nos leva a enxergar além dos clichês relacionais (“Olá, como vai?”) que todos insistimos em empregar, por educação ou por medo de mostrarmos o que realmente está se passando no nosso mundo interior. Este sentimento nos leva a perceber que a outra pessoa precisa de ajuda, precisa de um amigo que possa parar alguns momentos para ouvir, partilhar a carga. O mais interessante é que muita gente seria ajudada pelo simples fato de alguém achegar-se demonstrando que notou algo errado, o problema que está afligindo, e que gostaria de ajudar de alguma forma.
Você já sabe qual é este sentimento? É claro, a empatia.
Mas a rotina, a falta de habilidade para desenvolver relacionamentos verdadeiros e significativos e a concorrência por “um lugar melhor ao sol” nos mostrou o “único caminho” da felicidade que prioriza o trabalho, a ascensão profissional, os bens que podemos conseguir como fruto de nosso esforço. Algo que é sadio e faz parte da vida de qualquer ser humano equilibrado! Porém este tipo de postura dá início a um processo de fechamento, individualismo (em vez de individualidade), e a terrível apatia. Esta é um estado que inicia-se aparentemente sem importância, controlado, mas que com o passar do tempo tende a assumir o seu lugar no centro das reações emocionais e mentais ante a outras pessoas e seus traumas e realidades. Parece que ter 45 canais de TV diferentes, não precisar sair de casa para fazer uma refeição, alugar um bom filme ou comprar remédios, navegar pela Internet sob quaisquer disfarces ajuda tremendamente na instalação da apatia como regra e não exceção!
Precisamos urgentemente rever nossa vida e prioridades. Pense um instante no que a Bíblia nos tem a dizer sobre isso:
Que vossa caridade não seja fingida... Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram.” (Romanos 12, 9a.15)

A Bíblia volta a nos dar uma aula de vida mostrando que a empatia traz benefícios tremendos às relações interpessoais em qualquer lugar e ocasião, desde o casamento e a vida em família até o ambiente de trabalho. É bom ver pessoas que já compreenderam este princípio motivadas e produzindo, entendendo que as pessoas tem prioridade sobre as coisas e que 5 minutos de empatia em seus relacionamentos acrescenta um tipo de realização que nenhum bem material pode trazer.
Os empáticos são pessoas que encaram a vida e as situações de maneira mais humana e munidos por uma desenvoltura que alivia tensões, estresse e as prepara para receber o melhor!

Quero deixar um desafio a você. Que tal voltar agora para seu ambiente de trabalho ou família, e em silêncio, por um minuto, encará-los como pessoas, gente que tem necessidades que vive traumas e machucaduras que você bem pode ajudar a curar. Depois procure levar uma palavra de conforto a alguém que você sente que mais necessita… Deus ajudará você nesta tarefa especial.
Tornar-se amigo nas horas de tristeza (e de alegria também), como a Bíblia nos recomenda, pode abrir portas de relacionamento e amizade que você nunca sonhou ter!
O que está esperando? Comece agora mesmo!
Jogue fora a apatia! VIVA A EMPATIA!


sábado, 6 de julho de 2013

NECESSIDADE DA ORAÇÃO

NECESSIDADE DA ORAÇÃO


UMA CURIOSA MESA-REDONDA
Imaginemos que estamos diante de uma televisão toda especial, um autêntico portento da tecnologia. A sua particularidade é ultrapassar as barreiras do tempo, unindo eventos de diversas épocas num mesmo momento. O programa que sintonizamos é uma mesa-redonda que tem por tema “A necessidade da oração”. Foram convidados especialistas de séculos muito diversos para falar sobre o assunto.
Depois das devidas apresentações, o moderador cede a palavra ao primeiro dos convidados. A câmera focaliza um rosto expressivo, de olhos vivos. Trata-se de Santa Teresa de Ávila, que desempenhou um papel fundamental na renovação espiritual da Igreja no século XVI. As suas obras são referência obrigatória quando o tema é oração. Com voz firme e decidida, toca diretamente o coração dos espectadores:
Só há um caminho para chegar a Deus: a oração; se vos indicarem outro, enganam-vos” (1).
Dando pleno apoio às palavras de Teresa de Ávila, toma o microfone Santo Afonso de Ligório, bispo e Doutor da Igreja, que viveu no século XVIII. As suas obras sobre Nossa Senhora e sobre o relacionamento com Deus continuam a ter enorme difusão. Com os seus gestos serenos e cativantes, ganha imediatamente a simpatia e a admiração dos espectadores:
Todos os santos se santificaram por meio da oração; todos os condenados se perderam por não terem orado; se o tivessem feito com persistência, ter-se-iam salvo” (2).
Os assistentes estremecem perante a seriedade da disjuntiva: salvação ou perdição eterna.
A câmera focaliza então um rosto sorridente. Trata-se de São Josemaría Escrivá que, nos nossos dias, abriu aos leigos um caminho acessível e alegre de santificação no meio da sua vida diária:
A oração é o fundamento de toda a atividade sobrenatural. Com a oração, somos onipotentes, e, se prescindíssemos desse recurso, nada conseguiríamos” (3).
Que enorme poder o da oração!
O microfone volta para a Santa de Ávila:
Quem não faz oração não necessita de demônio que o tente; ao passo que quem a faz apenas quinze minutos por dia, necessariamente se salva” (4).
Um tempo tão breve para uma felicidade eterna!
Como para reforçar o assunto, toma a palavra um homem de ampla humanidade e voz pausada: é Tomás de Aquino, uma das maiores luminárias da filosofia e da teologia, ao mesmo tempo que alma profundamente contemplativa:
A oração é necessária, não para que Deus tome conhecimento das nossas necessidades, mas para que nós nos demos conta da necessidade que temos de recorrer a Deus” (5).
O que impressiona é que essas almas santas falam não só de uma grande “conveniência” da oração, mas de uma necessidade absoluta, comparável à necessidade que temos do ar ou do alimento para a vida corporal.

Esse programa de televisão não existiu nem existirá: é mero produto da imaginação. Mas todas as frases que citamos são autênticas e sublinham unanimemente a necessidade da oração para a salvação e para a construção de uma vida cristã séria.
Talvez por causa dessa relação tão estreita, as pessoas que se afastaram de Deus durante uma temporada e desejam retornar a Ele ressaltem, como sua primeira e principal falha, precisamente essa: “Desleixei as minhas orações..., esqueci-me de Deus...”. E sabem que o caminho de retorno passará, necessariamente, por esse meio imprescindível.

O DOM DA ORAÇÃO
Genialmente irrepetível é a concepção artística de Michelangelo sobre a criação do homem, na Capela Sixtina. Um Deus de aspecto majestoso quase toca com o seu dedo divino o dedo da primeira mão humana. Naqueles milímetros que separam os dois seres fica representada a distância infinita que há entre a criatura e o Criador, mas ao mesmo tempo os dois olhares se encontram num primeiro laço de amizade.
O nosso Criador é inabarcável, inteiramente inatingível por meio dos sentidos. E poderia muito bem ter permanecido assim, reservando para a outra vida toda e qualquer possibilidade de um encontro pessoal com Ele. Mas quis tornar-se acessível, quis que, por assim dizer, os nossos olhares pudessem cruzar-se com o seu já nesta vida, para que o nosso coração pudesse aproximar-se do seu com inteira confiança.
A oração não é, pois, nada normal, na medida em que é muito pouco razoável que o Todo-Poderoso se disponha a ouvir-nos a cada um de nós, nas nossas necessidades e circunstâncias. É um dom divino que procede da sua bondade infinita. Como dizia o Cura d´Ars: “Deus é tão bom que nos permitiu falar com Ele” (6). E, ao mesmo tempo, esse dom divino é a coisa mais normal possível, no sentido de que não exige marcar hora nem combinar um local. Basta pormo-nos na presença de Deus, que nos é mais íntimo do que nós a nós mesmos, e falar-lhe. “Para mim – dizia Santa Teresa de Lisieux –, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou da alegria” (7).

MAS PARA QUE ORAR?
O antigo Catecismo das crianças, respondendo à pergunta sobre o motivo pelo qual o homem foi criado, afirmava categoricamente: “O homem foi criado para conhecer e amar a Deus nesta vida...”. Todos percebemos que só pode ser esta a razão de ser, o principal objetivo da nossa vida. E a oração é o caminho para o atingirmos, um caminho insubstituível. Só através dela obtemos a proximidade pessoal com Deus, uma proximidade que não se adquire pelo simples estudo da doutrina cristã e da ciência moral, nem por uma vida moral imune a toda a crítica, nem pelo cumprimento de uns elaborados ritos externos.
Não há dúvida de que, sem um conhecimento adequado da doutrina católica, a nossa oração seria sempre “subnutrida”, mirrada; mas não é menos verdade que, sem oração, o mero conhecimento doutrinal tenderia a transformar-se numa espécie de “matemática do espírito”, árida, fria e estéril. A primeira finalidade da oração é, portanto, abrir-nos a esse dom e permitir-nos chegar a um conhecimento pessoal e cordial de Deus.
Mas, para chegarmos a essa intimidade com Deus, é preciso também que nos conheçamos a nós mesmos, que saibamos quem é esse “eu” que pretende conversar com o seu Criador. Ou seja, a segunda finalidade pela qual fazemos oração é que ela deve conduzir-nos ao conhecimento próprio.

“Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?”, perguntava-se a princesa do conto de fadas. E o espelho respondia afirmativa ou negativamente. Oxalá o espelho da nossa consciência respondesse tão claramente às dúvidas que temos sobre nós mesmos.
Em muitas ocasiões, somos uma incógnita aos nossos próprios olhos, porque o nosso verdadeiro rosto está oculto sob o véu das nossas paixões, do receio de nos reconhecermos como somos, do orgulho que retoca as nossas obras com cores irreais, do egoísmo que defende a todo o custo o proveito próprio...
Ora, o espelho que responde às questões sobre nós mesmos só pode ser, por isso, um espelho “indireto”: o espelho da oração. Só espelhando-nos em Deus, vendo-O como nosso Criador e vendo-nos como criaturas Suas, sabendo-nos filhos Seus pelo Batismo, mas também pecadores que O ofenderam e continuam a ofendê-Lo..., só assim iremos retirando esse véu que nos esconde de nós mesmos.
Por outro lado, há na nossa vida ainda um outro véu: a incerteza sobre o que fazer. Que caminho seguir na vida? Como sobreviver neste mundo, sendo honesto? Como encarar serenamente essa dificuldade familiar? O que Deus quer de mim com este desastre econômico? Por que esta doença agora?...
Deus conhece as respostas a todas essas perguntas, e está sempre à nossa disposição para nos dar as explicações ou o conforto necessários.
No entanto, como dizia Santo Afonso de Ligório, “Deus não costuma falar à alma que não Lhe fala” (8): o Senhor deseja falar-nos do Seu amor e dos Seus planos a nosso respeito, mas, se nós não nos dispusermos a procurá-Lo – a fazer oração –, permaneceremos na ansiedade da dúvida.
A oração é, portanto, também o grande meio para descobrirmos a resposta ao “Que devo fazer nesta vida?”. A resposta, em si, é muito simples: a vontade de Deus. Mas não se trata apenas dessa vontade divina que poderíamos chamar “genérica”, aplicável a todos os homens, e que se expressa nos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja; trata-se, mais especificamente, da vontade concreta de Deus para mim, aqui e agora. Desde as grandes decisões que precisamos tomar na nossa vida até as decisões corriqueiras do nosso dia a dia, tudo deve seguir a orientação divina, num ato de confiante aceitação e obediência.
É por isso que, para nos aproximarmos de Deus, não nos basta apenas evitar o descumprimento dos preceitos divinos. Não nos basta ser “certinhos”, ser “bons” ou até isso a que chamam “um santo”, mas sempre pela via negativa: “Não mato, não roubo, não minto”... Isso seria reduzir a religião a um legalismo mais ou menos do mesmo tipo do daqueles que dizem: “A minha religião me proíbe de fumar”. Não: o cristão não é um colecionador maníaco de regras e proibições negativas: é um filho empenhado em aceitar e fazer por amor a vontade desse Deus que o amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 10).
De certa forma, toda a nossa oração se resume à pergunta de Saulo, depois de cair do cavalo cegado pela luz divina: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6). Aquele judeu legalista, ferreamente empenhado em perseguir os cristãos porque, no seu entender, tinham violado a Lei de Moisés, transformou-se, na sequência dessas palavras tão simples, no mais fogoso dos Apóstolos de Cristo.
Por fim, temos necessidade de orar porque, quando nos empenhamos seriamente em pôr em prática o que Deus quer de nós, descobrimo-nos faltos de forças, de capacidades e talentos. Faltos de tudo, necessitados de uns bens materiais, sem dúvida, mas, sobretudo, de bens espirituais – de fé, de fortaleza, de esperança – que só Ele pode conceder. Por isso, nada mais natural do que dirigirmo-nos ao Deus onipotente, numa atitude de súplica. Bem diz o novo Catecismo da Igreja Católica que “o homem é um mendigo de Deus” (n. 2559). Se é lógico que um mendigo peça aos homens o que precisa, muito mais lógico é que, na oração, o homem peça a Deus tudo.
Orar é o caminho para atalhar todos os males que sofremos” (9). São imensas as promessas que encerra esta afirmação do Bem-aventurado Josemaría Escrivá. “Atalhar os males” da vida – a solidão, o tédio proveniente da ausência de sentido para a própria vida, um sofrimento humanamente irremediável, a carência de uns bens necessários, a desorientação à hora de agir – não é o que todas as pessoas buscam? Aí está a solução. Acessível a todos, não como a receita barata oferecida por um enganador, para curar todas as doenças; mas como a solução de tudo pela sua raiz, que é Deus.

E O QUE É FAZER ORAÇÃO?
Todos sabemos, ao menos genericamente, o que é a oração. Mesmo os que não oram, os que não creem, os que têm uma vida desregrada, sabem o que é orar, embora pessoalmente não o pratiquem... ou o façam com uma fé remota e confusa, como aquele homem que orava assim: “Ó Deus, se é que existis, salvai a minha alma, se é que tenho alma” (10).
No entanto, é muito útil partir de uma noção clara do que realmente é a oração, e para isso recorremos de novo à ajuda de almas experimentadas.
Com palavras de São João Damasceno (11), “oração é a elevação da alma a Deus”. Supõe, portanto, um encontro a sós entre dois seres: Deus e a criatura. Vimos atrás que Deus nos criou para Ele, mas, à diferença dos seres inanimados ou das criaturas irracionais, não somos para Ele apenas por existirmos e estarmos passivamente à sua disposição – como uma tábua à disposição do marceneiro –, mas porque Ele nos dotou de inteligência e vontade, e quer que caminhemos ao seu encontro conscientemente, por um livre ato da nossa vontade esclarecida.
Vemos assim que essa elevação da alma em busca do contacto com Deus é algo que corresponde à nossa condição tal como Ele a criou. Portanto, ainda que possa parecer o contrário, a iniciativa da oração não é nossa. “Deus é o primeiro a chamar o homem”, diz-nos o Catecismo da Igreja (n. 2567).
A iniciativa é d’Ele, sim, mas a resposta cabe-nos a nós. A “oração é o encontro da sede de Deus com a nossa” (Catecismo, n. 2560). Depois de criar uns seres que pudessem conversar com Ele, Deus está sedento de que o façamos. E, da nossa parte, temos tanto que conversar com Ele! Por um ou outro dos motivos que apontamos acima, Deus fez-nos de tal maneira que, se não O procuramos, simplesmente não encontramos a nossa identidade. Isto reconforta-nos muito, porque sabemos de antemão que a nossa oração não se perderá na imensa distância que separa a criatura do Criador e, mais ainda, não será nunca inoportuna nem se chocará com a indiferença do interlocutor divino.
Mas a compreensão do que realmente seja a oração dá-se, sobretudo, pela via da experiência pessoal. “Não sabes orar? Põe-te na presença de Deus, e logo que começares a dizer: ‘Senhor, não sei fazer oração!...’, podes ter certeza de que começaste a fazê-la” (12).
Para esse aprendizado, deveríamos antes de mais nada dirigir-nos humildemente a Cristo com as mesmas palavras dos Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1). E Ele não nos deixará sem resposta. Olharemos para o seu exemplo e aprenderemos de tantas ocasiões da sua vida em que os evangelistas deixaram explicitamente registrados momentos da sua oração ao Pai.
Pensemos, por exemplo, nos seus quarenta dias de oração penitente no deserto, antes de começar a vida pública, como para nos ensinar que é na oração que se obtêm as luzes e as forças para cumprir as tarefas e a missão que Deus nos confia. Ou na sua noite de vigília antes de escolher definitivamente os doze Apóstolos, mostrando-nos assim que as escolhas que temos de fazer na vida devem ser decididas em conjunto com o Pai. Ou na oração comovida junto do túmulo de seu amigo Lázaro, antes de ressuscitá-lo, mostrando-nos que as horas duras nunca nos devem fazer perder a esperança, antes nos devem levar a dar graças antecipadas: “Pai, dou-te graças por me teres ouvido. Eu sabia que sempre me ouves” (Jo 11, 41-42). Ou na exultação do seu coração quando os Apóstolos regressam da sua primeira missão carregados de frutos: “Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25), fazendo-nos ver que também a alegria deve ser motivo para elevarmos a alma aos céus. E tantos exemplos mais!
Cristo, perfeito Deus, não tinha de retirar-se para fazer oração, porque era um só com o Pai e contemplava sem interrupção o rosto divino. No entanto, porque era ao mesmo tempo perfeito homem, experimentou a necessidade de fazê-lo, e deixou-nos exemplo disso nas circunstâncias mais diversas, as mesmas que podem acontecer na nossa vida.

A ORAÇÃO VOCAL
Há muitas maneiras de elevar a alma a Deus, de dialogar com Ele, da mesma maneira que são muito diversas as formas de nos comunicarmos com os homens: pode ser a conversa tranquila numa praça, a conversa pelo telefone ou, mais modernamente, a comunicação através do “ciberespaço”. Sendo a oração um diálogo, nada mais razoável que se revista de formas muito variadas, em função da situação pessoal, das necessidades, do tempo disponível ou do grau de intimidade com o interlocutor divino. “Há muitas maneiras de orar; infinitas, poderia dizer” 13.
Mas as inúmeras formas de orar foram agrupadas pela tradição cristã em duas principais: a oração mental e a vocal. Não se trata de coisas absolutamente diferentes, mas de duas modalidades da mesma realidade. Consideremos primeiro a oração vocal, que foi a primeira forma de orar que aprendemos, talvez dos lábios da nossa mãe.

Três jovens foram fazer um passeio velejando. A princípio, o dia era ensolarado e convidativo, mas ao poucos o vento começou a soprar com força e não demorou a formar-se uma tempestade. Empurrados pela correnteza, acabaram por encontrar-se em alto mar. A situação foi-se tornando mais e mais difícil, e corriam o perigo de morrer afogados. Quando estavam quase sem esperanças, um dos três disse:
– Vamos rezar.
E começou o Pai-Nosso... Mas de repente calou-se e pôs-se a chorar:
– Eu já não sei o Pai-Nosso!
Um outro, que mantinha a sua fé mais em dia, serenou-o e continuou a oração até o fim. A tempestade durou mais algum tempo, mas depois acalmou-se e os três conseguiram retornar sãos e salvos.
Este episódio verídico mostra-nos diversas coisas: a eficácia da oração, a conveniência de memorizarmos as orações tradicionais e a ligação bastante direta que há entre a fé e as orações vocais. Por isso, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica que “a oração vocal é um dado indispensável da vida cristã” (n. 2701).
Por ela, oramos também com o nosso corpo. Assim o diz a Epístola aos Hebreus: “Ofereçamos sem cessar a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hb 13, 15). Pelo som da nossa própria voz, as palavras, quando serenamente pronunciadas, contribuem eficazmente para estimular a nossa devoção.
Por outro lado, a oração vocal é simples e ágil, e por isso aplica-se a uma infinidade de situações diversas. Não é difícil que conheçamos orações ou trechos de orações, muitas vezes breves jaculatórias, que exprimam a Deus os nossos sentimentos de ação de graças ou de arrependimento, os nossos pedidos de ajuda, a nossa fé, aceitação e confiança.
Não sem uma certa ponta de humor, alguém comparava a oração vocal aos sanduíches, que prescindem de talheres e pratos e podem, por conseguinte, ser levados de um lado para outro e comidos em qualquer parte. Pode-se rezar o terço no ônibus ou no metrô, pode-se dizer uma Ave-Maria ao fechar uma porta, recitar o “Santo Anjo” ao atravessar a rua...
Deve-se, no entanto, evitar dois extremos nessas nossas orações. O primeiro deles é o perigo de menosprezá-las e considerá-las de “segunda categoria”, como se fosse “pouco autêntico” utilizar orações compostas por outras pessoas para expressar os nossos sentimentos pessoais. Ninguém julga “pouco autêntico” que um namorado leia um poema de Castro Alves à sua amada ou lhe cante uma conhecida canção de amor. Assim também com Deus.
No outro extremo, está o risco de bitolar-se, de perder a espontaneidade na expressão dos afetos e necessidades a Deus. Como contava alguém de um casal que voltava das compras; ao passarem diante da igreja paroquial, a mulher sugeriu: “Vamos entrar e rezar um pouco?”. Mas o marido respondeu-lhe: “Agora? Impossível! Não trouxemos o nosso livro de orações...”. Não se deve permitir que a oração vocal produza uma “dependência”, quando, na realidade, deve ser um auxílio para o diálogo com Deus.
Referindo-se à catequese das crianças, o Catecismo diz que “a memorização das orações fundamentais oferece um apoio indispensável à vida de oração, mas importa grandemente saborear o seu sentido” (n. 2688). Devemos estar sempre agradecidos aos nossos pais que, quando éramos pequenos, nos ajudaram a aprender de cor as orações básicas; mas o correr do tempo e o amadurecimento da nossa personalidade reclamam que saibamos repeti-las com consciência e tirar fruto pessoal daquilo que a princípio talvez apenas pronunciássemos como uma cantilena incompreensível.
Devagar – Repara no que dizes, quem o diz e a quem – porque esse falar às pressas, sem lugar para a reflexão, é ruído, chacoalhar de latas. E te direi, com Santa Teresa, que a isso não chamo oração, por muito que mexas os lábios” (14). Não basta apenas o ruído de um “chacoalhar de latas”: é preciso que se ponha a cabeça no significado das palavras e o coração no seu conteúdo. Diz Santa Teresa de Ávila que conheceu pessoas a quem Deus, durante a simples recitação de um Pai-Nosso, elevava a um estado de oração verdadeiramente místico. E eram pessoas muito pouco instruídas.
Devemos estar preparados, no entanto, para as distrações nesta forma de oração, pois são consequência inevitável da nossa fragilidade.

Conta-se que, em certa ocasião, um camponês se vangloriava diante de São Bernardo de nunca se distrair ao rezar. O santo, profundo conhecedor da natureza humana, disse-lhe:
– Meu amigo, vamos fazer um trato. Se você conseguir rezar um só Pai-Nosso sem se distrair, dou-lhe o cavalo em que estou montado.
Animado com o desafio, o camponês iniciou prontamente o seu Pai-Nosso. Mal tinha começado, interrompeu a oração e disse:
– Com os arreios e a sela também?
Ficou sem cavalo, sem arreios e sem sela...

Isto não significa que não devamos esforçar-nos por melhorar o nível da atenção com que rezamos as nossas orações vocais. Se as recitamos maquinal ou apressadamente – como pode acontecer com as orações da manhã e da noite –, de pouco servem. “Se você não está atento, como quer que Deus esteja?”, dizia alguém, muito sensatamente.
De qualquer forma, ainda que as nossas orações vocais não nos saiam tão redondas como gostaríamos, nem por isso devemos omiti-las. Só Deus sabe quantas graças vem concedendo ao longo dos séculos, como fruto dos Pai-Nossos, das Ave-Marias, dos Glórias e de tantas outras orações vocais que o povo cristão elevou até Ele.

Um bispo perguntou certa vez ao Papa Pio XII, por ocasião de uma audiência:
– Santidade, o senhor dorme bem à noite?
O Papa, um tanto surpreendido, respondeu:
– Sim. Mas por que me pergunta isso?
E o bispo completou:
– Olhe, Santo Padre, quando eu era pequeno, tínhamos uma empregada que, ao pôr-nos na cama, nos fazia rezar para que o Papa tivesse um sono tranquilo. Desde aquela época, tenho-o feito sempre e, na verdade, estava curioso por saber se dava resultado...

Os frutos da oração vocal ultrapassam em muito o nosso conhecimento, e certamente haveremos de assombrar-nos quando descobrirmos toda a sua eficácia ao chegarmos à outra vida.

A ORAÇÃO MENTAL
Toda a oração é, de certa forma, oração mental. A própria oração vocal só é oração porque é mental, pela concentração interior que exige. Mas, em sentido mais estrito, costuma-se chamar oração mental àquela que é feita exclusivamente com a mente, sem intervenção de palavras ou de orações compostas previamente por outros.
Segundo a definição clássica de Santa Teresa, “oração mental, a meu ver, não é outra coisa senão tratar intimamente com Aquele que nos ama, e estar muitas vezes conversando a sós com Ele” (15). Não se pode expressar melhor o clima em que se deve desenrolar a oração mental.
Os autores antigos costumam distinguir vários níveis nessa oração sem palavras: desde a simples consideração intelectual de uma verdade de fé, a que normalmente se chama meditação, até a alta contemplação dos místicos, em que, como diz São João da Cruz, “a alma se compraz em permanecer a sós com Deus, fixando n’Ele a sua atenção, sem qualquer consideração particular” (16). Mas, em qualquer dos seus níveis, a oração mental supõe a interrupção dos afazeres quotidianos para dedicar um certo tempo diário exclusivamente a esse encontro com Deus no silêncio e na intimidade do coração.
Em que se ocupa esse tempo? Numa conversa simples em que se procura a aproximação com Deus e, a partir daí, se busca o convívio e se estreita a amizade. Não há que imaginar nada de complicado. Como se chega à amizade nas relações humanas? Não é pela conversa informal em que, aos poucos, se vão descobrindo afinidades, e daí nasce a simpatia, e depois o bem-querer? Com Deus é o mesmo, porque o coração humano é um só e o mesmo, quer tratemos com os homens, quer tratemos com Deus. Não temos outro coração para Deus.
Para dizer tudo desde já, um bom modelo para a nossa oração mental é o diálogo que os Apóstolos mantinham com Jesus Cristo. Aquilo que eles lhe diziam de viva voz, sem nenhum constrangimento, sem atitudes rebuscadas, devemos nós dizer-lho com o coração. Os discípulos contavam ao Senhor os acontecimentos do seu dia a dia, pediam-lhe conselhos, desabafavam com Ele nas horas amargas, comunicavam-lhe as boas notícias e as alegrias. E o Senhor os ia instruindo, respondendo-lhes e revelando-lhes os seus mais profundos mistérios. Hoje, como ontem e sempre, o Senhor quer manter conosco esse convívio de amizade, quer ouvir-nos e quer falar-nos, tal como àqueles Doze.

O QUE NÃO É ORAÇÃO MENTAL
E já que descrevemos em linhas gerais o que é a oração mental, é muito conveniente esclarecermos o que não o é. O próprio Catecismo da Igreja Católica achou necessário alertar para o perigo das conceituações errôneas que se podem formar a este respeito (n. 2726).
Efetivamente, não é raro ouvirmos amigos nossos que dizem: “Comecei a fazer tai-chi-chuan no Parque da Água Branca, aos domingos de manhã, e mudei completamente; agora estou em harmonia comigo mesmo. Essas coisas orientais ligam-nos de verdade com a Energia Cósmica”. Ou outro, que acaba de fazer o curso do Silva Mind Control ou leu algum livro sobre “o fascinante poder da mente”: “Cara, é tão legal quando a gente entra em Alfa e sintoniza em Deus!”...
Muito em voga, ocasionalmente até em ambientes católicos, estão as “técnicas corporais” de oração, normalmente de inspiração oriental, como o Hare-Krishna. Entre elas, as mais difundidas são a ioga e a “meditação transcendental”, que propõem uma série de posturas (por exemplo, a conhecida “flor-de-lótus”, com as pernas cruzadas sob o tronco), exercícios respiratórios e a repetição de mantras (frases ou palavras de caráter sagrado ou quase-sagrado, “capazes de unificar energias habitualmente dispersas e opostas”).
A finalidade dessas técnicas é – segundo dizem – concentrar progressivamente o indivíduo em si mesmo até atingir o vazio interior. Por meio delas, a pessoa deve desprender-se progressivamente de todas as coisas exteriores, bem como de todos os seus vínculos com elas: os desejos, os medos, o amor e o ódio. Uma vez atingido esse estágio interior de completo esvaziamento, o “eu”, “centelha da divindade cósmica encarcerada na matéria”, estaria preparado para ingressar no nirvana, para desfazer-se como uma gota no oceano cósmico do Absoluto.
Este tipo de exercícios, embora os seus praticantes nem sempre tenham plena consciência disso, traz a marca do hinduísmo e do budismo. Já o cristão sabe que o mundo não é um cárcere do qual se deva fugir, mas uma obra de Deus que vale a pena amar e admirar; sabe que nenhum de nós é um “fragmento perdido de Deus” destinado a dissolver-se depois da morte, a perder a individualidade numa espécie de “sopa cósmica”; é uma criatura de Deus, essencialmente distinta do seu Criador, mas chamada a relacionar-se amorosamente com Ele por toda a eternidade, de tu a tu, sem pe rder a sua personalidade própria. E, portanto, sabe que a oração mental não é nenhum processo de esvaziamento interior, mas sim um cumular-se de Deus, de Cristo.
O Papa João Paulo II, referindo-se a Santa Teresa, afirmava que ela “rejeitava os livros que propunham a contemplação como um vago engolfar-se na divindade ou como um ‘não pensar em nada’, vendo nisso o perigo de a pessoa se debruçar sobre si mesma, de afastar-se de Cristo, do qual nos ‘vêm todos os bens’. Daí o seu grito: ‘Afastar-se de Cristo..., não o posso sofrer’. Esse grito é válido também nos nossos dias, contra algumas técnicas de oração que não se inspiram no Evangelho e que praticamente tendem a prescindir de Cristo, em favor de um vazio mental que não tem sentido dentro do cristianismo” (17).
Outras correntes, mais inspiradas em certas psicologias de cunho ocidental ou sincrético, tendem a confundir a oração com uma simples operação psicológica. Usam as mesmas “técnicas” que descrevemos anteriormente, mas com a finalidade de produzir estados interiores especiais. A ideia, na sua vertente mais mística, é “sintonizar com o comprimento de onda de Deus”, o “Alfa perene”, a fim de “conectar-se com o seu manancial inesgotável de paz infinita, amor e sabedoria sem fim” – como se Deus fosse a antena de uma emissora de TV... Ou então, na sua vertente mais prática, “liberar as imensas energias mentais que você traz dentro de si, e que lhe possibilitariam fazer qualquer coisa, até tele-transportar-se para outros planetas”... Sem comentários.
De certa forma, essas técnicas de oração são semelhantes, em ponto maior, às pequenas superstições que alguns cultivam, confundindo atitudes e palavras rituais – como pôr uma fita do Senhor do Bonfim no espelho do carro ou acender uma vela a Nossa Senhora Aparecida exclusivamente na hora das dificuldades econômicas ou de saúde – com a verdadeira oração. Por trás desses “mecanismos” todos, grandes e pequenos, está a intenção de manipular Deus, de obrigá-Lo a fazer a nossa vontade, a pretensão de servir-se d’Ele ao invés de servi-Lo. E, como diz a canção, “isso não é amor”. Pode ser vaidade, mercenarismo, cegueira orgulhosa ou simples burrice, conforme o caso; mas não é oração.
Não há problema em que um católico pratique, se lhe interessar, tai-chi-chuan, ou ioga, ou exercícios de respiração, na medida em que essas coisas podem realmente produzir um certo efeito de relaxamento muscular, de bem-estar interior ou de catarse que livra das tensões da vida. O que não pode é esquecer que seria uma solene estupidez ver nisso mais do que uma simples forma de ginástica ou de higiene mental.

A diferença que há entre essas atitudes voltadas para dentro, para uma mesquinha e egocêntrica busca de si mesmo, e a verdadeira oração, que nos abre para além de nós mesmos, para o verdadeiro Deus, aparece de maneira muito viva no relato de uma escritora russa contemporânea, Tatjana Goritschewa.
Convertida ao cristianismo aos vinte e seis anos de idade, essa autora fundou em Leningrado o primeiro movimento feminino cristão, ajudou a organizar palestras e aulas sobre o cristianismo em toda a antiga URSS e chegou a publicar dois jornais clandestinos; depois de ter sido presa e submetida a interrogatórios, foi exilada em 1980.
Descrevendo-nos a trajetória da sua conversão, conta-nos Tatjana que, revoltada com a ideologia marxista e ateia dominante, se refugiou com avidez na ioga quando se difundiram na União Soviética os misticismos orientais. Segundo lhe tinham dito os gurus, “por meio de uns exercícios e de um saber oculto acerca de ‘poderes astrais e mentais’, poderia alcançar certeira e conscientemente a categoria de um super-homem”. Mas o resultado foi apenas uma sensação de profunda e universal angústia e depressão. Vejamos como ela mesma relata o momento crucial da sua vida:
“Cansada e sem vontade, ia fazendo as minhas sessões com os mantras. É preciso que se saiba que, até aquele momento, eu nunca tinha pronunciado uma só oração; mais ainda, nem mesmo conhecia uma única oração. Descobri, porém, que um dos meus manuais de ioga sugeria que se usasse uma oração cristã, o Pai-Nosso, como mantra. [...] Comecei, pois, a recitá-lo como se costuma fazer na ioga, sem imprimir ênfase às palavras, repetindo-as de maneira automática. Murmurei assim o Pai-Nosso umas seis vezes, quando de repente me dei conta do que estava dizendo, e num instante me vi completamente transformada. Compreendi – não com a minha ridícula inteligência, mas com todo o meu ser – que Ele existia. Ele, o Deus vivo, o Deus pessoal, que me amava a mim e a todas as criaturas, que tinha criado o mundo, que se tinha feito homem, o Deus crucificado e ressuscitado” (18).

Em outubro de 1989, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta dirigida aos bispos e a todo o povo cristão acerca da meditação cristã. O parágrafo final desse documento compendia e sintetiza esplendidamente tudo o que acabamos de ver:
“O amor de Deus, único objeto da contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode apoderar por meio de algum método ou técnica; pelo contrário, devemos ter sempre o olhar fixo em Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até nós” (19).

Luiz Fernando Cintra

NOTAS
(1) Santa Teresa, cit. em J. Daujat, Viver o cristianismo, Aster, Lisboa, pág. 63;
(2) Santo Afonso Maria de Ligório, citado em B. Baur, A vida espiritual, 2ª ed., Prumo, Lisboa, 1985, págs. 138-9;
(3) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 238;
(4) cf. Josemaría Escrivá, Forja, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 1003;
(5) São Tomás de Aquino, cit. em Santo Afonso M. de Ligório, A oração, I, 8;
(6) Santo Cura d´Ars, cit. em Liturgia das horas. Ofício de leituras, Paulus, pág. 1494;
(7) Santa Teresa de Lisieux, Ms. autobiogr., C25r;
(8) Santo Afonso Maria de Ligório, Como conversar contínua e familiarmente com Deus, em Obras ascéticas, BAC, vol. I, págs. 316-7;
(9) Forja, n. 76;
(10) cit. em Cardeal Newman, Apologia pro vita sua, Paulus, São Paulo, 1964, pág. 53;
(11) São João Damasceno, De fide orthodoxa, 3, 24; PG 94, 1089D;
(12) Josemaría Escrivá, Caminho, 8ª ed., Quadrante, São Paulo, 1995, n. 90;
(13) Amigos de Deus, n. 243;
(14) Caminho, n. 85;
(15) Santa Teresa, Vida, 8, 2;
(16) cit. em J. Daujat, Viver o cristianismo, pág. 86;
(17) João Paulo II, Homilia em Ávila, 1-XI-1982;
(18) Tatjana Goritschewa, Von Gott zu reden ist gefährlich, Herder, Freiburg, 1984, págs. 26-7;
(19) Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a meditação cristã, n. 31; para todo este tema, cf. D. Estêvão Bettencourt, O.S.B., Pergunte e responderemos, n. 335, abril de 1990, págs. 156-67



CRISE DA CONFISSÃO OU CRISE DO PERDÃO?





Não me assusta a palavra “crise”. É verdade que hoje há menos “confissões”, mas não há menos necessidade de perdão e de reconciliação. As mudanças rápidas e profundas inevitavelmente teriam de provocar a queda de costumes e formas de práticas religiosas e sacramentais. Não se trata de perder ou ganhar, nem de estar ou não na moda. Na vida espiritual e sacramental existe algo que nunca anda ao sabor da moda: a misericórdia e o imenso amor de Deus pela humanidade frágil e pecadora. O homem sempre precisou de se confessar, desabafar, aconselhar, conversar, desculpabilizar-se e ser absolvido. Apesar da cantiga dizer que “nem às paredes confesso”, o certo é que o comunicar e abrir-se ao outro é sempre uma terapêutica saudável e uma fonte de libertação.
Em termos de celebração do sacramento estamos muito melhor que antes. Basta lembrar os esquemas que o Ritual da Penitência nos apresenta. Não deixo, no entanto, de lamentar que, umas vezes por vontade das pessoas e outras vezes por negligência dos sacerdotes, se “façam confissões” muito mal feitas nas causas e nas formas. E, quando as coisas não são bem feitas, acabam por atraiçoar o verdadeiro sentido do sacramento.
O auge da confissão teve muito a ver com costumes que hoje não “agarram” nem perduram. Por exemplo: ninguém comungava sem se confessar; as devoções de indulgências, primeiros sábados, peregrinações e novenas não se faziam sem a confissão; a consciência opressora de ver pecado e perigo em tudo o que fosse matéria de sexualidade levava à confissão frequente; a direção espiritual realizava-se quase exclusivamente no confessionário... A tudo isto acrescente-se que hoje já não se olha para o sacerdote como o “faz de tudo”, ou seja, consultor, psicólogo, psicanalista, advogado...
Nas várias leituras e interpretações deste fenômeno, cada qual poderá levar a água ao seu moinho. Pode-se evocar a perda de consciência do pecado, a falta de moralidade, a figura do padre, a ideia de Deus “juiz”, o esquecimento de Deus, a secularização, as atitudes alternativas, a presença do homem-sacerdote, a falta de exigência, etc. As formas, as estruturas, as imagens mudam, mas a fé e a bondade de Deus não mudam. O homem pode ser infiel, mas Deus permanece fiel.
Aqui não me interessam as questões laterais da confissão. Tanto me faz que a forma adotada seja a antiga ou a moderna, a individual ou a comunitária, feita no confessionário ou noutro lugar. O que me importa é dizer que este sacramento tem o valor que sempre teve. Embora realizado na pós-modernidade e na globalização, o “coração de Deus” e os sinais visíveis do Seu amor, embora mutáveis, são sempre manifestação de misericórdia e perdão.
O sacramento do perdão é uma bem-aventurança produzida pela conversão e pela experiência de uma vida reconciliada. O sacramento não pode ser um ato celebrativo isolado; deve ser enquadrado numa dinâmica de vida. O sacramento não pode ser celebração de nada; deve celebrar algo que está a acontecer na vida da pessoa. O sacramento ou exprime algo real ou não significa nada. Torna-se necessário restabelecer o contato entre a experiência de vida e a celebração dos sacramentos. O que está hoje em crise é a capacidade e a educação de relacionar os ritos e os símbolos religiosos com experiências profundas que lhes deem sentido.
A experiência humana que provoca a conversão é a fé. A fé é o acontecimento da experiência do encontro com Deus. Perante o pecado que é não-fé, rotura, desencontro, alheamento, voltar as costas, a fé é reconciliação, reencontro, presença. “Se a fé é o fundamento da penitência, é preciso orientar-se para uma penitência apoiada na fé. A penitência que não é causada pela fé, não serve para nada” (Anônimo do sec. XII).
O fim último da penitência consiste em amar intensamente a Deus. O amor é a primeira experiência vital do convertido. “Eu quero amor, misericórdia, e não sacrifícios” (Os 6, 4.6). A prova de que Deus nos ama está em que, sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu pelos nossos pecados (Rm 5, 8). Converter-se é aceitar o amor que Deus nos tem. A experiência do amor de Deus capacita para amar e aceitar os outros. “Se não souberes amar-te a ti mesmo, não poderás amar verdadeiramente o outro” (Santo Agostinho). O amor de Deus que acolhe o pecador suscita o amor a si mesmo; vale a pena aceitar-se apesar destruído, miserável e desgraçado. Deus enviou o seu Filho para salvar, e não para condenar; para ir ao encontro dos que estão doentes e não dos sãos.
O amor que Deus oferece no encontro com o homem é a fonte da esperança e da confiança. A conversão é um movimento que reconhece o pecado próprio, mas em vez do desespero surge a esperança. Abrem-se novos horizontes e perspectivas à luz do perdão e da graça.
Pessoalmente passei pela crise das formas e rituais da confissão. Hoje confesso-me porque creio no amor misericordioso do Pai e porque sinto na esperança a vocação de ser uma nova criatura, redimida e renovada pelo perdão.
Julgo que há uma catequese e pregação nova a fazer. A realidade teologal é fundamental para que exista experiência cristã de renovação. As formas e os rituais, tal como as épocas do tempo, mudam e transformam-se; a essência, a experiência e a necessidade do perdão permanecem sempre, como a vontade de Deus em nos salvar.


SERVIR POR AMOR




Num mosteiro vivia um monge perfeito. Observava o silêncio, jejuava, era pontual em tudo. Todos diziam que, ao morrer, ele iria para o céu, com sapato e tudo.
Um dia, já velhinho, ele achou que era chegado o momento de partir e foi escalando a alta montanha, até chegar às portas do céu. Bateu, bateu e nada. A porta não se abriu. Ficou decepcionado.
Resolveu voltar ao mosteiro e fez mais um ano de jejum, oração, silêncio... No final do ano, estava tão fraco de jejuar que quase não conseguiu subir aquela ladeira até as portas do céu. Bateu, bateu e nada. 
Nosso monge ficou muito triste. “Eu fiz tudo para me salvar”, dizia. “O que será que falta ainda?”.
Pensou, pensou e, de repente, lembrou-se de que o último monge que havia chegado ao mosteiro falara que hoje quem não prega o Evangelho, não pode mais se salvar.
Imediatamente, voltou para a terra e pegou o primeiro navio que partia para a África. No primeiro porto, já desceu e começou a pregar. Mas era um país muçulmano e mandaram-no de volta para o navio. Ele não desanimou e acabou encontrando um povo mais acolhedor para quem começou a pregar. Trabalhava e falava com tanto entusiasmo que, ao final de um ano, quase todos haviam aderido ao Cristianismo.
Voltou ao paraíso e, com todo o ardor missionário, bateu na porta. Voltou a bater e nada. Aquela porta parecia mesmo emperrada.
“Mas fiz tudo certo e preguei o Evangelho. O que falta para me salvar?”.
Sentou, pensou, pensou e lembrou que um dia, lá nas missões, alguém lhe falara que havia mais uma coisa nova na Igreja: “Quem não trabalha para os pobres, não se salva mais”.
Ele voltou para a terra e inscreveu-se como voluntário num grande hospital. Foi cuidar daqueles que estão nas enfermarias, os mais pobres, dos pobrezinhos que ficam ali jogados. Dia e noite, esteve aí, acudindo a um, falando com o outro, consolando um terceiro. 
Passado mais um ano, resolveu voltar a subir aquela ladeira. Estava tão cansado que quase não conseguiu chegar. Mas havia feito a última coisa que lhe faltava para se salvar. Bateu, bateu e nada. Reuniu todas as forças. Bateu, bateu e nada.
Só uma coisa faltava.
Sentou numa pedra, muito triste. Pensou, pensou e não conseguia encontrar resposta. “Eu fiz tudo para me salvar. Acho que até fiz mais do era preciso. Eu tinha que me salvar!”.
De repente olhou para o lado e viu uma criança brincando. A criança olhou para ele, sorriu e perguntou:
- Quer brincar comigo?
Então ele esqueceu tudo, inclusive a sua salvação eterna e foi brincar com ela.
Logo a seguir, escutou um barulho. Olhou para o lado e viu que a porta estava se abrindo.
Pela primeira vez, estava fazendo algo gratuitamente, por amor, sem pensar na recompensa, sem pensar na sua salvação eterna. E a porta abriu-se.

A.D.

Eu não quero amontoar méritos para o céu. Quero trabalhar somente pelo Vosso amor; quero ser Vossa alegria e consolar o Vosso Sagrado Coração.” (Sta. Teresinha do Menino Jesus)