Comentário baseado no
Evangelho de Mt 13,16-17
Quando conversamos com alguém sobre algum assunto muito importante, mas notamos que o ouvinte está “longe” da conversa, distraído, olhando para os lados, preocupado com outras coisas, lógico que não sentimos vontade de continuar, e assim logo encerramos o assunto ou transformamos a conversa em uma futilidade, que não requer tanta atenção do outro.
Na celebração de
casamentos ás vezes enquanto o Padre ou o Diácono capricha na homilia, os
noivos estão dando risinhos entre si, ou olhando para a cara de algum padrinho
engraçado, ou olhando a da minha ou o noivinho, ou o que é ainda pior, fazendo
pose para uma foto. Como diz o caboclo, “dá uma réiva”, e daí a gente logo
conclui e perde a vontade de continuar com a reflexão, pois os principais
interessados, que são os próprios celebrantes, estão distraídos, a palavra é
apenas um ruído, um barulho que não passa dos ouvidos.
Para fazer esse desabafo
no evangelho de hoje, Jesus deve ter passado essa experiência inúmeras vezes
diante da multidão, ele ali falando com entusiasmo do Reino Novo, falando e
revelando o Pai, e o povaréu nem aí com o “peixe”, parece que só se ligavam
quando Jesus fazia algum milagre, daí a coisa fervia, pois milagre não exige
compromisso da parte de quem o recebe.
Temos em nossas vidas
pessoas com quem conversamos todo dia, mas algumas nos são especiais, e com
essas a conversa passa do mero formalismo para um colóquio, algo mais profundo.
As multidões sempre seguiram Jesus, no meio delas haviam pessoas que viam em
Jesus alguém especial, interessavam-se em ouvi-lo, prestando toda atenção,
porque suas palavras traziam esperança, fortalecimento, coragem e conforto, e
com isso trazia também a vontade de pensar diferente e construir um mundo novo.
Não era apenas uma mensagem bonita que deleitava os ouvidos, mas era algo que
entrava dentro do coração, no centro da vida, provocando mudanças...
Mas havia também os
“avoados”, os interessados em buscar em Jesus alguma vantagem, esses até o
aplaudiam e o admiravam, mas não estavam interessados em mudanças radicais de
vida, ouviam as pregações, entravam por um ouvido e saia pelo outro. Jesus era
só mais um pregador entre outros, muito bom, falando com sabedoria, mas era só
mais um. Assim é que o homem da pós-modernidade vê o cristianismo, como mais
uma religião entre centenas de milagres, como uma Filosofia de Vida, entre
tantas outras, muito boa, sólida, consistente, tradicional, mas é só mais
uma...
Os Discípulos foram
escolhidos do meio da multidão, o Senhor viu neles, muito mais do que ouvidos
atentos, mas corações abertos, sedentos de esperança e uma total
disponibilidade para segui-lo. Não são homens especiais e superdotados de algum
poder sobrenatural, mas para eles Jesus não é apenas mais um, é o Único e
absoluto. Com eles Jesus inicia o Novo Povo de Deus, os homens e mulheres da
Nova Aliança, haverá entre Jesus e eles um forte elo como havia no Código da
Aliança entre Deus e Israel “Eu serei o Vosso Deus e Vós sereis meu Povo” em
uma relação única e particular.
Por isso Jesus os trata
de modo especial e os introduz pedagogicamente ao conhecimento sobre os
mistérios do Reino dos Céus, que não é revelado a multidão. Hoje esses
discípulos estão nas nossas comunidades cristãs, são todos os batizados que se
abriram á Graça de Deus, que foram capazes de se encantarem com Jesus e seu
evangelho, e se colocam sempre disponíveis para construir esse Reino que é
Eterno. Jesus não fala mais em parábolas, ele é o Logus do Pai, a sua Palavra
encarnada no meio de nós, ele se entrega totalmente na Eucaristia em cada celebração.
Ai de nós se o ouvirmos
de má vontade, sem nenhuma disposição interior para o segui-lo, ai de nós se
não o acolhermos com o coração aberto... Melhor seria nem ser batizado e não
ter se apossado do nome de Cristão.
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