Comentário
baseado no Evangelho de Lc 17,5-10
O que importa, aqui, não é o tamanho da fé, mas em que ela nos faz apoiar nossa vida e nossa vocação.
Talvez,
muitos leitores do evangelho de hoje se sintam confusos pelo que aí é dito;
outros tantos se deixarão levar pelo imediatamente percebido na leitura, sem
aprofundar o sentido do texto. Tentemos ajudar o leitor a conhecer a mensagem
que o autor quis transmitir com o seu texto.
"Aumenta
a nossa fé!" (v. 5). Esta é a súplica dos apóstolos, os enviados. A fé é
fundamentalmente adesão à pessoa de Jesus Cristo e, em razão dessa adesão, ela
se transforma em testemunho. Tendo já sido enviados em missão (9,1-6), os
apóstolos experimentaram a necessidade de uma comunhão estreita com Jesus. Sem
esta relação estreita, o "sucesso" da missão fica comprometido. A fé
oferece a possibilidade de fazer tudo em Deus, sem se deixar seduzir pelo
prestígio, nem desanimar pelo fracasso. A fé está ligada à missão. Diante da
súplica dos Doze, que também é a nossa, Jesus responde: "Se tivésseis fé,
mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira:
'Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria" (v. 6). A fé,
dizemos nós, remove montanhas! É preciso bem compreender, pois o que importa,
aqui, não é o tamanho da fé, mesmo porque ela não é mensurável, mas em que ela
nos faz apoiar nossa vida e nossa vocação. É a confiança no poder de Deus, na
palavra de Cristo, que pode transformar a realidade tanto pessoal como social.
É Deus quem age, não importa qual seja a nossa fé ou o nosso grau de confiança
nele. Quando a ação do discípulo no desempenho de sua missão é feita em nome do
evangelho, não há nada que seja impossível. "Para Deus tudo é
possível", dirá o Anjo Gabriel a Maria (1,37). Para o discípulo apoiado na
palavra de Jesus Cristo, não há nada que possa desencorajá-lo.
"Somos
simples servos…" (v. 10). Muitas vezes nós traduzimos esta frase deste
modo: "Somos servos inúteis!". Se o fôssemos, porque Deus nos
chamaria ao seu serviço? A questão é outra. Em primeiro lugar, o apóstolo é
servidor de Deus e dos homens. Antes de se assentar à mesa, no banquete do
Reino de Deus, há um trabalho a ser feito, o anúncio do Reino, o testemunho de
Jesus Cristo (cf. At 1,8). Em segundo lugar, a expressão "simples servos,
pois fizemos o que devíamos ter feito" diz respeito à gratuidade do
serviço. A recompensa do apóstolo é Deus mesmo, seu verdadeiro salário é ser
admitido como operário na vinha do Senhor. Quem é enviado não tem nenhum
direito sobre Deus, nem sobre seus semelhantes. A gratuidade exige não só
deixar de buscar recompensa, mas renunciar ao prestígio pessoal e à segurança
pessoal. Deus é a sua força e proteção.