Comentário
baseado no Evangelho de Lc 17,5-10
Eis um
evangelho onde, se o leitor não prestar muita atenção, irá pensar que são dois
assuntos diferentes que Jesus está tratando. Os apóstolos lhe fazem um pedido
que nós todos sempre fazemos: Para que Deus aumente a nossa Fé! Jesus acolhe o
pedido, mas vai lhes dizer que “Se a Fé que eles tinham fosse tão pequenina
como o de um grão de mostarda, conseguiriam até arrancar uma amoreira e fazê-la
sozinha plantar-se ao mar”, ou seja, com um pouco se faz muito além do que se
pode.
Arrancar
qualquer árvore adulta, usando as próprias mãos, já requer um grande esforço,
uma amoreira mais ainda, pois sua raiz é grande e muito entrelaçada, exatamente
como suas ramagens se apresentam. Arrancá-la dando uma simples ordem verbal,
sem por as mãos, e ainda fazê-la plantar-se ao mar, ora, a amoreira teria que
afundar, atingir o solo do fundo do mar e penetrar na terra. Mesmo estando em
um contexto longe da narrativa do evangelho, do Jesus Histórico e seus
seguidores, a gente conclui que essa seria uma ação impossível humanamente
falando.
Se a
reflexão parasse por aqui a conclusão seria essa: Os apóstolos não tinham
nenhuma Fé, pois se tivessem, poderiam fazer grandes proezas, como aquela que
Jesus lhes propôs como exemplo. Se a Fé fosse isso, seria tão bom para todos
nós. Faríamos grandes proezas e não passaríamos mais nenhuma necessidade. Essa
é a Fé Mágica que muitos querem ter pois sempre diante de algo difícil de se
conseguir, não falta quem diga “Você precisa ter mais Fé”
Mas a
reflexão tem sequência quando Jesus lhes fala da relação entre servo e seu
Senhor. Mudou o assunto? Não. Jesus agora irá aprofundar o ensinamento. Os
apóstolos, embora seguidores de Jesus, ainda não tinham conseguido mudar a
mentalidade sobre o Messias e no fundo pensavam como a Comunidade Judaica,
principalmente os Fariseus e Doutores da Lei, para os quais, Deus estava á sua
inteira disposição, desde que cumprissem toda Lei de Moisés, atendendo
rigorosamente a todas as prescrições e determinações. Com uma conduta e
procedimento de um Justo, Deus era obrigado a atendê-los concedendo todas as
bênçãos e promessas feitas a Abraão e sua descendência, pois tornavam-se
merecedores.
Entre
nós, quando alguém recebe algum benefício, ou acontece algo de bom que vai lhe
trazer vantagens, principalmente financeiras e materiais, os mais próximos o
saúdam e o cumprimentam, dizendo “Olha, você merece!”. Essa mentalidade
Farisaica perpassa o tempo e o espaço, e ainda contamina nosso coração diante
de Deus, pois, quando peco mereço o castigo, quando me confesso e procuro viver
bem, na Graça de Deus, então sou merecedor das bênçãos e do Céu, que um dia
Deus me dará, porque sou realmente muito bom, como Cristão.
Fé
consistente, não é aquela que faz coisas prodigiosas, sem explicação, mas sim
aquela que consegue transformar a nossa mentalidade religiosa, e
consequentemente a nossa relação com Deus! Algo tão difícil como arrancar uma
amoreira com raiz e tudo e fazê-la plantar ao mar... Os Dons maravilhosos que o
Senhor nos concede, são todos imerecidos.
Um
coração contaminado pelo orgulho, vaidade e prepotência, nem sempre aceita o
que é de graça, porque isso seria reconhecer a superioridade de quem nos
concede, por isso os pobres e pequenos sempre foram os preferidos de Deus.
De
igual forma os que se julgam pecadores e estão afastados da comunidade, em
geral estão sempre abertos para essa experiência impar com a gratuidade do
grandioso Amor Divino, que na sua Graça nos transforma por inteiro, arrancando
de nosso coração as raízes entrelaçadas de pensamentos egoístas, que nos
impedem de nos abrir á Deus.
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