Comentário do Evangelho
de Lc 6,36-38
26.02.2013
Um
lugar onde podemos ver e comprovar como nós não somos Misericordiosos como o
Pai, é no trânsito. Não adianta fingir que não é com a gente, todos somos
assim, olhamos para os outros condutores de veículos com extremo rigorismo, mas
quando nos olhamos ao volante, sempre amenizamos ao máximo nossas falhas.
Sempre vamos ter razões de sobra para justificar o nosso erro, cometido em uma
ultrapassagem perigosa, em um excesso de velocidade, em uma fechada que demos
no outro, ou em qualquer norma de segurança que quebramos, nós temos
necessidade e justificativa para falar ao celular no volante, mas se flagramos
o outro, dirigindo desatentamente por estar falando ao celular, rapidamente o
condenamos.
O
trânsito é só um exemplo bem concreto de que, a nossa medida com o próximo é
bem pequena e miserável. O que nos falta é exatamente aquilo que em Deus é
sempre abundantes eterna: a Misericórdia! Mas esse comportamento anticristão
não é só pessoal, mas tudo e todos que nos rodeiam na Família e na comunidade,
amenizamos os erros e pecados, abrandamos o impacto da ação ou do escândalo, se
o fato ocorreu com um filho ou filha, ou um irmão da nossa igreja, mas se for
com o Filho ou a Filha do outro, que não é parente e nem membro do nosso grupo
da Igreja, ah meu irmão, olhamos com uma lupa de aumento e apregoamos aos
quatro cantos o pecado escabroso que tal pessoa cometeu.
Misericórdia
é acolher o outro em nosso coração, e o Judeu tem um significado ainda mais
bonito, é acolher o outro em nosso útero, para dar-lhe uma vida nova com o
nosso amor, é também sermos solidários com a miséria do outro, caminhar junto,
sorrir e chorar junto e foi essa misericórdia do PAI , que Jesus manifestou por
todos nós.
Não
julgar, não condenar, perdoar, dar e acolher, são palavras chaves do evangelho,
colocadas como prática cristã em nossa relação com o próximo no dia a dia. E o
próximo são todas aquelas pessoas que passam por nós na rua, no Banco, na Feira
Livre, no ônibus, na escola, no trabalho, na política, no futebol, na torcida.
Na comunidade somos capazes de disfarçar a nossa raiva, impaciência e
intolerância com o outro, mas fora da Igreja somos quem somos, e é exatamente
nesses lugares e ambientes que nos relacionamos com as pessoas.
O
evangelho traz uma exortação final muito séria, se a nossa medida com o próximo
( com todas as pessoas com quem cruzamos em nosso dia a dia, não é só com o
irmãozinho da comunidade...) não for larga, cheia e generosa, Deus também nos
olhará com rigorismo e não vamos poder contar com a sua bondade e misericórdia
sem limites. Isso porque estamos deturpando a imagem, de Deus para o irmão.
E
fica aqui, no final da reflexão uma boa pergunta: as pessoas com quem
convivemos, acreditam em um Deus amoroso e misericordioso, ou em um Deus
intolerante e implacável? Se a resposta for negativa, é bom não nos esquecer
que essas pessoa simplesmente refletem a imagem de Deus que a ela passamos com
a nossa conduta...
Ser misericordioso como Deus
Nosso texto é parte do
"sermão da planície" (Lc 6,17-49). A perícope é a sequência do trecho
dominado pelo imperativo do amor aos inimigos (vv. 27-35). O v. 36 é, ao mesmo
tempo, afirmação de que Deus é misericordioso e convite a deixar-se configurar
por este Deus; também corresponde a Mateus 5,48: "Sede perfeitos como
vosso Pai celeste é perfeito".
A
perfeição, como dissemos antes, está centrada no amor. Essa configuração da
vida a Deus encontra sua expressão no amor aos inimigos (vv. 27.35). Os
versículos 37 e 38 ilustram como o amor aos inimigos pode ser vivido
concretamente, em conformidade com a misericórdia de Deus: ele que ama a todos
indistintamente. Trata-se de não julgar (v. 37a), de não condenar (v. 37b), de
perdoar (v. 37c) e de dar (v. 38a). É preciso ser generoso, pois quem ama é
movido pela generosidade.
A
recompensa de quem ama é o próprio amor. Dito de outro modo, nossa recompensa é
Deus, que é amor (cf. 1Jo 4,16).
O cristão tem consciência de que suas ações superam os limites das relações humanas, para desembocar no Pai. Por isso, todo gesto humano, sem exceção, tem algo a ver com Deus: deve inspirar-se nele, de quem receberá o prêmio ou o castigo.
O
eixo fundamental da vida cristã deve ser a misericórdia. O motivo é simples: a
misericórdia é o eixo fundamental do agir do Pai. E, pela misericórdia, o
cristão reproduz um modo de ser característico de Deus.
Jesus
indicou-nos algumas maneiras de expressar a misericórdia: não nos tornar juízes
do próximo, e por conseguinte, abster-nos de condená-lo; perdoar sempre, e
sermos capazes de doar nossos bens, com generosidade. A misericórdia, portanto,
consiste em colocar-se diante do próximo com a humildade de quem se sabe
servidor, e com a consciência de não ter o direito de julgá-lo e condená-lo.
Isto compete ao Pai. A pessoa misericordiosa está sempre disposta a reatar,
mediante o perdão, os laços rompidos pela inimizade.
A
contrapartida da misericórdia humana é a misericórdia divina. O Pai não julga
nem condena a quem foi capaz de ser misericordioso. Perdoa a quem foi capaz de
perdoar. E a quem soube doar, dá com superabundância.
O
cristão não pode perder de vista esta dimensão de seu agir. A falta de
misericórdia resultará fatal, no momento de seu encontro com o Pai.