comentário do Evangelho Lc 9, 28-36 24.02.2013
Esse
relato da transfiguração está presente, com pequenas variantes, nos três
primeiros evangelhos. O modelo para o relato de Lucas é o de Marcos. Do ponto
de vista literário, o relato é uma prolepse dos acontecimentos de Jerusalém:
". conversavam sobre a saída deste mundo que Jesus iria consumar em Jerusalém"
(v. 31), isto é, a paixão, morte e ressurreição. Na montanha, lugar de encontro
com Deus, Pedro, Tiago e João são admitidos na oração de Jesus e podem
contemplar, na glória, Jesus juntamente com Moisés e Elias; ambos aparecem
"revestidos de glória" (v. 31), o que sugere a promessa da
ressurreição.
O
que faz com que o rosto de Jesus seja transfigurado, na sua oração, é que ele
mantém a sua face voltada para o Pai. É a comunhão com o Pai que transfigura e
revela o mistério do Filho. A visão da glória de Jesus (cf. v. 32) faz com que
Pedro tome a iniciativa de fazer a proposta de construir três tendas (cf. v.
33). Mas a sua sugestão cai no vazio, pois é Deus que os envolve na nuvem, ou
seja, os faz participar da intimidade divina.
O
medo que eles sentem corresponde à entrada na presença de Deus; eles sabem que
ver Deus é morrer (Jz 6,23; 13,22; Ex 33,20). Na verdade, diz o evangelista,
Pedro "nem sabia o que estava dizendo" (v. 33). O que Pedro não
compreende é que a verdadeira tenda, o lugar da presença de Deus, é Jesus. Aos
discípulos cabe, então, descer da montanha e acompanhar Jesus na sua subida
para Jerusalém. O leitor do evangelho, prevenido pelo relato para não sucumbir
ante o "escândalo" da paixão e morte de Jesus, é convidado a percorrer
o mesmo caminho, encorajado pela antecipação da experiência pascal.
A
voz que sai da nuvem e interpreta o acontecimento (v. 35) retoma a voz por
ocasião do batismo (3,22; Is 42,1); a diferença que dessa vez a declaração do
Pai se abre aos discípulos: Jesus é um profeta poderoso em gestos e palavras -
trata-se de escutá-lo. A transfiguração não se oferece à visão, mas à fé que
faz ver. Pedro, Tiago e João foram testemunhas oculares (Lc 1,1-4), mas
"ficaram calados e, naqueles dias, a ninguém contaram nada do que tinham
visto" (v. 36).
Será
preciso esperar a realização de tudo o que foi sugerido pelo relato para,
então, eles poderem, impulsionados pelo Espírito do Ressuscitado, dar o seu
testemunho, pois será impossível deixar de falar sobre o que viram e ouviram (cf.
At 4,20).
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