Para compreendermos bem a definição de sacramento, é preciso
inserirmos o nosso consciente para os sinais que apontam e manifestam Deus em
nossa vida. É a Igreja como que uma grande pioneira em entregar para o homem,
através dos sacramentos, os canais por onde circulam as vias da salvação. Sim é
claro que entre as vias então os relacionamentos de pessoas em suas realidade
humanas, que entre si manifestam nas ações ato de amor, que por sua vez o
impulso maior para a solidariedade, o reconhecimento do outro como pessoa
importante.
“Sacramento significa exatamente essa realidade do
mundo que, sem deixar o mundo, fala de um outro mundo, o mundo humano das
vivencias profundas, dos valores inquestionáveis e do sentido plenificador da
vida. Compreender este pensar é abrir-se para a acolhida dos sacramentos da fé.
Eles radicalizam os sacramentos naturais nos quais vivemos em nossa diuturna
quotidianidade”.
Pretendemos entender o conceito de maneira não alienativa e
sim celebrativa levando o homem a conhecer e sentir a experiência do próprio
Deus que por meio do sacramento é o centro e o sujeito de toda salvação. Essa
compreensão deve, contudo ser fruto de um estudo atencioso na parte teológica
dos sacramentos, o que pretendemos de maneira simples e clara apresentar.
Primeiro é lícito que façamos menção a essa teologia
sacramental, no sentido de perceber também que os sacramentos não estão
separados
“do mistério de Cristo,
isto é, nos remetem a uma realidade ulterior”.
Porém ver-se então que temos que entender o sacramento a
partir de uma perspectiva de Igreja, entender partindo daquilo que Deus oferece
para a humanidade em seu plano de salvação. Mas para uma definição precisa
sobre o que é um sacramento dizemos que consiste numa realidade de uma grande
divergência de cultura muito presente
envolvendo Deus, o homem e a Igreja.
O que é mais expressivo para explicar sobre o conteúdo de
sacramento é nos orientarmos a partir de razões teológicas que nos farão
compreendê-lo melhor. Para isso, o autor Dionísio Boróbio nos dar algumas
pistas a cerca dessas razões:
A razão teológica que nos ajuda a compreender é crer no mesmo
Deus de Jesus Cristo e que será sempre o mesmo. Agora, o que acontece é que os
homens possuem inúmeras maneiras para sua crença neste Deus. Daí se percebe a
atuação de Deus no sacramento, isto é, Deus que vai por meio do sacramento ao
encontro do homem.
A comunidade cristã não é uma instituição,mas uma
participação na vida de Jesus, unidos a Jesus, cada membro é chamado a
testemunha-lo, colocando a comunidade em continuo crescimento. “Cristo é a vida verdadeira que comunica a
vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é, a nós que pela Igreja
permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer”(cf. LG 7 e Jo 15,1-5).
Os sacramentos têm como pedra fundamental à pessoa do próprio
Cristo. Nele a comunidade de fé se fundamenta e através da Igreja também se
renova. A partir de então é confirmada com isto a pessoa de Jesus Cristo como
origem dos sacramentos, e é aqui que entra a razão cristológica.
“Cristo, Mediador único, constituiu e sustenta
indefectivelmente sobre a terra, como organismo visível, a sua Igreja Santa,
comunidade de fé, de esperança e de caridade, e por meio dela comunica a todos
a verdade e a graça ...A estrutura social da Igreja serve ao Espírito de
Cristo, que a vivifica, para fazer progredir o seu corpo místico”( LG 8.1 e
cf.Ef 4,16).
Nunca podemos compreender os sacramentos distantes da realidade
eclesial. Agora conforme o modelo de Igreja que defendemos também expressamos o
modelo dos sacramentos. “A igreja é em Cristo como quer sacramento, isto é,
sinal e instrumento, da união intima com Deus e da unidade de todo o gênero
humano”(LG 1). É necessário observarmos bem qual a relação que existe na
Igreja como um todo (universal, local, particular e ministro); daí que podemos
falar de razão eclesiológica. A Igreja nasce do anuncio fundamental que provoca
a conversão, o crescimento da graça e uma expansão por meio do testemunho,
neste sentido nos mostra o evangelista Lucas nos At 2,4247:
“Eles eram assíduos aos ensinamento dos apóstolos e à comunhão fraterna, à fração
do pão e às orações. O temor se apoderava de todo mundo: muitos prodígios e sinais
se realizavam pelos apóstolos. Todos os que abraçavam a fé estavam unidos e
tudo partilhavam. Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o
dinheiro apurado entre todos, segundo a necesssidade de cada um. De comum
acordo, iam diariamente ao templo com assiduidade: partiam o pão em casa,
tomando o alimento com alegria e simpliscidade de coração. Louvavam a Deus e
eram favoravelmente aceitos por todo o povo. E o Senhor ajuntava cada dia à
comunidade os que encontravam a salvação”.
Cristo para cumprir a vontade do Pai inaugura na terra o reino dos céus. A igreja, isto é, o reino de Cristo já
presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus.
Cristo é a videira que comunica a vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é,
a nós que pela Igreja permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer ( cf.
Jo 15,15).
Os sacramentos são sinais de esperança e participação no que
chamamos de “liturgia celeste”. Na dimensão da razão escatológica podemos
celebrar o momento presente, mas também o que vai acontecer. E o que seria
celebrar essas duas dimensões escatológicas que significa celebrar
sacramentalmente aquilo que está na vida terrena mais ligada a vida do homem e
a Deus; e segundo, celebrar a manifestação de Deus nos sacramentos como um
sinal de esperança para a vida futura.
“O sacramento
é a expressão simbólica comunitária de uma situação fundamental humana e
social, que é assumida através da Igreja na ordem da salvação de Deus e vem a
ser pela palavra e pelo sinal sacramental, uma situação de graça”
Na razão antropológica do sacramento é cabível que as
ciências humanas façam as suas indagações a respeito de como se originam, qual
a diversificação eficácia e necessidade dos sacramentos. O ponto culminante na
razão antropológica é se perguntar qual o lugar e qual a relação do homem nos
sacramentos. Com este mesmo homem a razão antropológica do sacramento envolve e
se pergunta também sobre a sua relação com Deus e com a Igreja que é comunidade
de fé. É também numa realidade cultural que o sacramento é celebrado. Ele
permeia toda uma situação que pode ser social e eclesial, formas de expressão,
costumes. É preciso analisar que critérios se podem utilizar para celebrar o
sacramento dentro da realidade de cada cultura e cada povo. É necessário também
que a realização de qualquer sacramento esteja voltada para transformação da
pessoa dentro da razão sociocultural do sacramento.
Na vida da Igreja e em sua realidade pastoral os sacramentos
têm lugar fundamental, visto que
“a
pastoral sacramental é um momento decisivo da vida da Igreja”.
Daí que a razão pastoral dos sacramentos completa o conjunto das
razões expressadas antes. Elas fazem parte da definição do que seja o
sacramento. No entanto, o conceito de sacramento se estende ainda mais, pois
todos os sacramentos possuem uma riqueza incalculável de dimensões que seria
riquíssimo se delas tivéssemos conhecimentos para aprofundarmos melhor a
realidade do mistério pascal.
Ainda quanto ao
conceito de sacramento, é valido que façamos menção ao conteúdo dos primeiros
doze séculos da Igreja em que o sacramento era também chamado de mistérios.
Esse termo designava as diferentes realidades dos ritos sacramentais de Igreja.
No Concílio de Trento a
Igreja levou a cabo uma melhor fixação a respeito
do conceito; na sessão VII nos cânones 1-12 o Concílio afirma que o sacramento
só se aplicaria às realidades que preenchessem estes requisitos: instituição
por Cristo, estrutura da matéria e forma, eficácia
“ex opere operato”,
intenção por parte do ministro e disposições por parte do
sujeito. Pelo que vimos, o sacramento significa ainda manifestação do dom
invisível da multiforme graça de Deus, e todo sacramento expressa também aquilo
que está contido no dinamismo da historia da salvação, isto é, a presença
salvífica de Deus na historia humana.
“Entendemos por
graça esse estar ai de Deus para mim presente e atuante, como um “você” pessoal
e vivo que transforma a minha vida e salva em Cristo, dando-lhe uma nova
orientação, força e dinamismo no Espírito. Essa presença pessoal, salvadora e
agraciadora de Deus ocorre em todo homem, pressupondo-se uma abertura, a partir
da sinceridade (...), na própria distinção do cotidiano. O homem fiel, e mais
ainda o cristão batizado está consciente dessa presença autodoadora em todos os
momentos da sua vida e sabe que não precisa esperar determinados instantes ou
dirigir-se a certos lugares para viver e até mesmo expressar a alegria desse
estar “gratuito” de Deus com os homens”.
Com isso, a historia toda vai se transformando em lugar do
encontro e da experiência com Deus a partir de Jesus Cristo, sacramento
original, que torna possível o amor e a graça de Deus. Nisto acontece o diálogo
entre Deus, o homem e o mundo.
Para expressar melhor o conceito deste ponto sobre sacramento,
queremos falar agora do sacramento como palavra e do sacramento como
sinal-simbolo. Pois na palavra, se manifesta a eficácia salvadora de Cristo
através da palavra da Igreja e no sinal se encontra uma
“A tradição da Igreja é unânime em reconhecê-lo ao definir o sacramento
a partir de sua visualização externa do dom interno de graça”.
È por meio do acolhimento da Palavra de Deus que as pessoas tomam atitudes de
conversão e formam comunidade.“Demos
graças a Deus sem cessar: Quando recebeste a palavra de Deus que vos fazíamos
ouvir, a acolhestes, não como palavra humana, mas como e realmente palavra de
Deus”(1Ts 2,13). Por meio da escuta da Palavra de Deus é que vem a
fé para aquele que crerem. Pois
“a fé vem da pregação, e a pregação é o
anuncio da Palavra de Cristo”(Rm 10,17b). Ora, vale ressaltar que a
pregação da Palavra refere- se a Cristo e que, a
fé
provém do ouvir, o ouvir, porém, da palavra/causa de Cristo.
O sacramento como palavra: antes de falar mais precisamente
do sacramento como sinal, é obvio que recordemos algo que acontecia no passado.
É que de um lado havia uma grande preocupação com a palavra e a fé e isso entre
católicos e protestantes. Cristo é presença real através de sua palavra que se
torna carne, também no sacramento. O sacramento é o que é porque já a palavra
de Deus o é: sacramental, presença real do amor de Deus por nós nele.
Neste sentido, Karl Rahner nos ajuda a compreender que
“de qualquer maneira que
seja anunciada fielmente como palavra de salvação, e pressupondo-se a disponibilidade
fundamental de acolhida, essa palavra tem um caráter de exibição, comunica o
que anuncia, realiza o que diz, é eficaz. Mas o alto grau de eficácia é
atingido na palavra sacramental, isto é, na palavra que a Igreja pronuncia
quando realiza um sacramento”.
Do que vimos podemos dizer que na palavra encontramos o que
poderíamos chamar de conteúdo da salvação. É através da Palavra. A Palavra
possui uma eficácia capaz de evangelizar o homem que por si só não conhece a
verdade senão somente por meio da palavra de Cristo acolhida na fé, a palavra
comunica no sacramento a graça e o amor de Deus. A palavra produz a ação e a
mostra a força da palavra, a força do ato criador de Deus. E assim como podemos perceber Palavra divina é a essência constitutiva para
o sacramento.
O sacramento como sinal: o sacramento como sinal vem nos
mostrar como Deus realizou as suas maravilhas. Jesus Cristo é o próprio sinal
visível do Pai quando afirma: “quem
me vê, vê o Pai” (Jô 14,9). O sacramento como sinal não é visto também
somente através de elementos materiais, mas daquilo que está expresso numa
palavra ou numa ação e tudo isso deve ser acolhido na liberdade e na fé de cada
cristão. Na linguagem tridentina: a “matéria”, visalização da palavra, cuja
verdade porém, só a fé que “vê”.
Antropologicamente falando
“o homem precisa de sinais e símbolos porque é simbolicamente; precisa de
sacramentos porque é sacramentalmente”.
O ser humano é um ser sacramental;
no nível religioso, exprime
suas relações com Deus num conjunto de sinais e símbolos. Na verdade, Deus
utiliza-os quando quer se comunicar com o ser humano. Contudo, notamos que o
sacramento se refere a um sinal sensível no qual transparece e atua uma
realidade invisível, divina o que poderíamos dizer: o mistério de nossa fé.
O Concílio Vaticano II recuperou o sentido antigo do
sacramento, equivalente a mistério. O Concílio foi como que abriu as
perspectivas e fala de toda a Igreja como sacramento, sinal e instrumento da
unidade de todo gênero humano em Cristo. Deste modo, atividades e sua simples
presença, é de alguma forma sacramento, sinal sensível que aponta para o
mistério de Deus, o mistério de todo ser humano e da humanidade como um todo
revelado em Jesus
Cristo.