terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

1.1- Considerações preliminares sobre o conceito de sacramento.




Para compreendermos bem a definição de sacramento, é preciso inserirmos o nosso consciente para os sinais que apontam e manifestam Deus em nossa vida. É a Igreja como que uma grande pioneira em entregar para o homem, através dos sacramentos, os canais por onde circulam as vias da salvação. Sim é claro que entre as vias então os relacionamentos de pessoas em suas realidade humanas, que entre si manifestam nas ações ato de amor, que por sua vez o impulso maior para a solidariedade, o reconhecimento do outro como pessoa importante. 

“Sacramento significa exatamente essa realidade do mundo que, sem deixar o mundo, fala de um outro mundo, o mundo humano das vivencias profundas, dos valores inquestionáveis e do sentido plenificador da vida. Compreender este pensar é abrir-se para a acolhida dos sacramentos da fé. Eles radicalizam os sacramentos naturais nos quais vivemos em nossa diuturna quotidianidade”.[1]  

Pretendemos entender o conceito de maneira não alienativa e sim celebrativa levando o homem a conhecer e sentir a experiência do próprio Deus que por meio do sacramento é o centro e o sujeito de toda salvação. Essa compreensão deve, contudo ser fruto de um estudo atencioso na parte teológica dos sacramentos, o que pretendemos de maneira simples e clara apresentar.
Primeiro é lícito que façamos menção a essa teologia sacramental, no sentido de perceber também que os sacramentos não estão separados “do mistério de Cristo, isto é, nos remetem a uma realidade ulterior”[2].
Porém ver-se então que temos que entender o sacramento a partir de uma perspectiva de Igreja, entender partindo daquilo que Deus oferece para a humanidade em seu plano de salvação. Mas para uma definição precisa sobre o que é um sacramento dizemos que consiste numa realidade de uma grande divergência de cultura muito presente envolvendo Deus, o homem e a Igreja.
O que é mais expressivo para explicar sobre o conteúdo de sacramento é nos orientarmos a partir de razões teológicas que nos farão compreendê-lo melhor. Para isso, o autor Dionísio Boróbio nos dar algumas pistas a cerca dessas razões:
A razão teológica que nos ajuda a compreender é crer no mesmo Deus de Jesus Cristo e que será sempre o mesmo. Agora, o que acontece é que os homens possuem inúmeras maneiras para sua crença neste Deus. Daí se percebe a atuação de Deus no sacramento, isto é, Deus que vai por meio do sacramento ao encontro do homem.
A comunidade cristã não é uma instituição,mas uma participação na vida de Jesus, unidos a Jesus, cada membro é chamado a testemunha-lo, colocando a comunidade em continuo crescimento. “Cristo é a vida verdadeira que comunica a vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer”(cf. LG 7 e Jo 15,1-5).
Os sacramentos têm como pedra fundamental à pessoa do próprio Cristo. Nele a comunidade de fé se fundamenta e através da Igreja também se renova. A partir de então é confirmada com isto a pessoa de Jesus Cristo como origem dos sacramentos, e é aqui que entra a razão cristológica.

“Cristo, Mediador único, constituiu e sustenta indefectivelmente sobre a terra, como organismo visível, a sua Igreja Santa, comunidade de fé, de esperança e de caridade, e por meio dela comunica a todos a verdade e a graça ...A estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para fazer progredir o seu corpo místico”( LG 8.1 e cf.Ef 4,16).

Com grande esforço de renovação está a razão pneumatológica. Concernente a esta razão surge uma série de questionamentos em torno do lugar do Espírito nos sacramentos. Sim, com firmeza podemos dizer que é o espírito da luz que faz ver na realidade a presença sacramental de Deus. “Ninguém pode (conhecer) falar que Jesus é o Senhor, a não ser pelo Espírito Santo”( 1Cor 12,3).
Nunca podemos compreender os sacramentos distantes da realidade eclesial. Agora conforme o modelo de Igreja que defendemos também expressamos o modelo dos sacramentos. “A igreja é em Cristo como quer sacramento, isto é, sinal e instrumento, da união intima com Deus e da unidade de todo o gênero humano”(LG 1). É necessário observarmos bem qual a relação que existe na Igreja como um todo (universal, local, particular e ministro); daí que podemos falar de razão eclesiológica. A Igreja nasce do anuncio fundamental que provoca a conversão, o crescimento da graça e uma expansão por meio do testemunho, neste sentido nos mostra o evangelista Lucas nos At 2,4247:

“Eles eram assíduos aos ensinamento  dos apóstolos e à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. O temor se apoderava de todo mundo: muitos prodígios e sinais se realizavam pelos apóstolos. Todos os que abraçavam a fé estavam unidos e tudo partilhavam. Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro apurado entre todos, segundo a necesssidade de cada um. De comum acordo, iam diariamente ao templo com assiduidade: partiam o pão em casa, tomando o alimento com alegria e simpliscidade de coração. Louvavam a Deus e eram favoravelmente aceitos por todo o povo. E o Senhor ajuntava cada dia à comunidade os que encontravam a salvação”.

Cristo para cumprir a vontade do Pai  inaugura na terra o reino dos céus. A igreja, isto é, o reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Cristo é a videira que comunica a vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer ( cf. Jo 15,15).
Os sacramentos são sinais de esperança e participação no que chamamos de “liturgia celeste”. Na dimensão da razão escatológica podemos celebrar o momento presente, mas também o que vai acontecer. E o que seria celebrar essas duas dimensões escatológicas que significa celebrar sacramentalmente aquilo que está na vida terrena mais ligada a vida do homem e a Deus; e segundo, celebrar a manifestação de Deus nos sacramentos como um sinal de esperança para a vida futura.
 “O sacramento é a expressão simbólica comunitária de uma situação fundamental humana e social, que é assumida através da Igreja na ordem da salvação de Deus e vem a ser pela palavra e pelo sinal sacramental, uma situação de graça”[3]

Na razão antropológica do sacramento é cabível que as ciências humanas façam as suas indagações a respeito de como se originam, qual a diversificação eficácia e necessidade dos sacramentos. O ponto culminante na razão antropológica é se perguntar qual o lugar e qual a relação do homem nos sacramentos. Com este mesmo homem a razão antropológica do sacramento envolve e se pergunta também sobre a sua relação com Deus e com a Igreja que é comunidade de fé. É também numa realidade cultural que o sacramento é celebrado. Ele permeia toda uma situação que pode ser social e eclesial, formas de expressão, costumes. É preciso analisar que critérios se podem utilizar para celebrar o sacramento dentro da realidade de cada cultura e cada povo. É necessário também que a realização de qualquer sacramento esteja voltada para transformação da pessoa dentro da razão sociocultural do sacramento.
Na vida da Igreja e em sua realidade pastoral os sacramentos têm lugar fundamental, visto que “a pastoral sacramental é um momento decisivo da vida da Igreja”[4]. Daí que a razão pastoral dos sacramentos completa o conjunto das razões expressadas antes. Elas fazem parte da definição do que seja o sacramento. No entanto, o conceito de sacramento se estende ainda mais, pois todos os sacramentos possuem uma riqueza incalculável de dimensões que seria riquíssimo se delas tivéssemos conhecimentos para aprofundarmos melhor a realidade do mistério pascal.
 Ainda quanto ao conceito de sacramento, é valido que façamos menção ao conteúdo dos primeiros doze séculos da Igreja em que o sacramento era também chamado de mistérios. Esse termo designava as diferentes realidades dos ritos sacramentais de Igreja. No Concílio de Trento a Igreja levou a cabo uma melhor fixação a respeito do conceito; na sessão VII nos cânones 1-12 o Concílio afirma que o sacramento só se aplicaria às realidades que preenchessem estes requisitos: instituição por Cristo, estrutura da matéria e forma, eficácia “ex opere operato”[5], intenção por parte do ministro e disposições por parte do sujeito. Pelo que vimos, o sacramento significa ainda manifestação do dom invisível da multiforme graça de Deus, e todo sacramento expressa também aquilo que está contido no dinamismo da historia da salvação, isto é, a presença salvífica de Deus na historia humana.

Entendemos por graça esse estar ai de Deus para mim presente e atuante, como um “você” pessoal e vivo que transforma a minha vida e salva em Cristo, dando-lhe uma nova orientação, força e dinamismo no Espírito. Essa presença pessoal, salvadora e agraciadora de Deus ocorre em todo homem, pressupondo-se uma abertura, a partir da sinceridade (...), na própria distinção do cotidiano. O homem fiel, e mais ainda o cristão batizado está consciente dessa presença autodoadora em todos os momentos da sua vida e sabe que não precisa esperar determinados instantes ou dirigir-se a certos lugares para viver e até mesmo expressar a alegria desse estar “gratuito” de Deus com os homens.[6]

Com isso, a historia toda vai se transformando em lugar do encontro e da experiência com Deus a partir de Jesus Cristo, sacramento original, que torna possível o amor e a graça de Deus. Nisto acontece o diálogo entre Deus, o homem e o mundo.
Para expressar melhor o conceito deste ponto sobre sacramento, queremos falar agora do sacramento como palavra e do sacramento como sinal-simbolo. Pois na palavra, se manifesta a eficácia salvadora de Cristo através da palavra da Igreja e no sinal se encontra uma “A tradição da Igreja é unânime em reconhecê-lo ao definir o sacramento a partir de sua visualização externa do dom interno de graça”.[7] È por meio do acolhimento da Palavra de Deus que as pessoas tomam atitudes de conversão e formam comunidade.“Demos graças a Deus sem cessar: Quando recebeste a palavra de Deus que vos fazíamos ouvir, a acolhestes, não como palavra humana, mas como e realmente palavra de Deus”(1Ts 2,13). Por meio da escuta da Palavra de Deus é que vem a fé para aquele que crerem. Pois “a fé vem da pregação, e a pregação é o anuncio da Palavra de Cristo”(Rm 10,17b). Ora, vale ressaltar que a pregação da Palavra refere- se a Cristo e que, a fé provém do ouvir, o ouvir, porém, da palavra/causa de Cristo.
O sacramento como palavra: antes de falar mais precisamente do sacramento como sinal, é obvio que recordemos algo que acontecia no passado. É que de um lado havia uma grande preocupação com a palavra e a fé e isso entre católicos e protestantes. Cristo é presença real através de sua palavra que se torna carne, também no sacramento. O sacramento é o que é porque já a palavra de Deus o é: sacramental, presença real do amor de Deus por nós nele.
Neste sentido, Karl Rahner nos ajuda a compreender que

“de qualquer maneira que seja anunciada fielmente como palavra de salvação, e pressupondo-se a disponibilidade fundamental de acolhida, essa palavra tem um caráter de exibição, comunica o que anuncia, realiza o que diz, é eficaz. Mas o alto grau de eficácia é atingido na palavra sacramental, isto é, na palavra que a Igreja pronuncia quando realiza um sacramento”[8].

Do que vimos podemos dizer que na palavra encontramos o que poderíamos chamar de conteúdo da salvação. É através da Palavra. A Palavra possui uma eficácia capaz de evangelizar o homem que por si só não conhece a verdade senão somente por meio da palavra de Cristo acolhida na fé, a palavra comunica no sacramento a graça e o amor de Deus. A palavra produz a ação e a mostra a força da palavra, a força do ato criador de Deus. E assim como podemos perceber  Palavra divina é a essência constitutiva para o sacramento.
O sacramento como sinal: o sacramento como sinal vem nos mostrar como Deus realizou as suas maravilhas. Jesus Cristo é o próprio sinal visível do Pai quando afirma: “quem me vê, vê o Pai” (Jô 14,9). O sacramento como sinal não é visto também somente através de elementos materiais, mas daquilo que está expresso numa palavra ou numa ação e tudo isso deve ser acolhido na liberdade e na fé de cada cristão. Na linguagem tridentina: a “matéria”, visalização da palavra, cuja verdade porém, só a fé que “vê”.
Antropologicamente falando “o homem precisa de sinais e símbolos porque é simbolicamente; precisa de sacramentos porque é sacramentalmente”[9]. O ser humano é um ser sacramental; no nível religioso, exprime suas relações com Deus num conjunto de sinais e símbolos. Na verdade, Deus utiliza-os quando quer se comunicar com o ser humano. Contudo, notamos que o sacramento se refere a um sinal sensível no qual transparece e atua uma realidade invisível, divina o que poderíamos dizer: o mistério de nossa fé.
O Concílio Vaticano II recuperou o sentido antigo do sacramento, equivalente a mistério. O Concílio foi como que abriu as perspectivas e fala de toda a Igreja como sacramento, sinal e instrumento da unidade de todo gênero humano em Cristo. Deste modo, atividades e sua simples presença, é de alguma forma sacramento, sinal sensível que aponta para o mistério de Deus, o mistério de todo ser humano e da humanidade como um todo revelado em Jesus Cristo.




[1] Leonardo Boff, Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. p 20
[2] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 287
[3] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta P. 315
[4] BORÓBIO, Dionísio . A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta  p. 290
[5] Esta expressão significa: Realizada, operada, ou feita da própria obra.
[6] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 389 e 390
[7] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 317
[8]BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 314
[9] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 320

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