Comentário baseado em Mc 1, 29-39
Gosto muito de ouvir
histórias de pessoas que montaram um pequeno negócio, e após muito esforço
foram bem sucedidas, tornando-se gestores de grandes empresas, agindo sempre
com ética e honestidade.
O bom empreendedor é
sempre ousado e pensa “grande”, tendo uma visão audaciosa do futuro, atitude
muitas vezes até criticada e questionada pelos acomodados que pensam “pequeno”.
porque têm medo de arriscar. Se o empreendedorismo é fator dos mais importantes
no desenvolvimento de uma nação, de uma empresa ou de qualquer negócio, no
reino de Deus não poderia ser diferente, porém, é preciso ter os pés no chão,
trabalhando a cada dia com vistas à grandiosidade que se vislumbra, pois o
homem de fé, mais do que ser otimista, já vai construindo no hoje da história,
o reino de Deus alicerçado pelo próprio Cristo.
No evangelho de hoje
podemos perceber nitidamente essa diferença no modo de pensar e agir,
entre Jesus e os seus discípulos. Enquanto o mestre pensa em algo grandioso,
querendo expandir o projeto recém-iniciado, os discípulos estão seguros de que
já alcançaram o sucesso e demonstram grande interesse em montar ali, na casa de
Simão, uma “Tenda dos Milagres”, pois o carisma de Jesus já tinha atraído uma
grande e imensa clientela, ao curar os enfermos e expulsar os demônios, por
isso aonde ele ia, a multidão maravilhada com os sinais prodigiosos, o seguia.
Há nesta fé da magia,
a perspectiva de um negócio altamente lucrativo em todos os sentidos, pois
Jesus tem o perfil do Messias esperado, poderia ser ele o salvador da pátria,
capaz de dar a grande virada na história de Israel, e um populismo assim, era
tudo que eles queriam para concretizar a libertação com que sonhavam.
Não conseguiam
vislumbrar em Jesus algo além dos seus ideais humanos, que também eram
importantes e tinham o seu valor, mas Jesus não veio para ser o Rei dos
Milagreiros, nem para ser um libertador político, pensar assim é pensar
“pequeno”, ter uma fé com essa expectativa de um Cristo prodigioso, que
interfere com seu poder na vida das pessoas, quando essas fazem por merecer,
realizando milagres e curas inexplicáveis, é menosprezar toda a obra da
Salvação, é fazer da Igreja uma simples tenda dos milagres, é abusar de certos
carismas recebidos, explorando assim a boa fé das pessoas, e Cristianismo não é
isso.
Curas de enfermidades
o Cristo as realizou ontem, e realiza também hoje, mas estas são simples sinais
de algo maior, de um empreendimento mais arrojado, com o qual todos têm de se
comprometer, acreditar, deixar de ser um torcedor para entrar em campo e “suar
a camisa” por aquilo em que se acredita. E como é que podemos, com nossas
limitações e fraquezas, sermos parceiros de Deus nesse projeto tão arrojado,
que plenifica e ao mesmo tempo transcende, qualquer empreendimento humano?
O evangelho responde
em seu início, logo que Jesus sai da sinagoga e vai á casa de Simão, onde os
discípulos correm para lhe falar que a sogra de Pedro estava acamada e com
muita febre. Era uma pessoa debilitada, entregue ao desânimo, que muitas vezes
chega à vida de alguém, que doença seria essa? O comodismo e o desânimo, o
egocentrismo, a indiferença na relação com as pessoas, nas comunidades cristãs
há pessoas assim, que precisam de ajuda, para cair na realidade. Jesus não diz
uma só palavra, mas apenas estende a mão e a ajuda a levantar-se do seu leito.
Como é bom quando sentimos que o outro nos estende a mão, em um grandioso gesto
de ajuda...
Como é bom agarrar
com firmeza a mão amiga, que nos permite levantar e dar a volta por cima,
diante de tantas situações difíceis da nossa vida.
Amor que se traduz em
gestos de solidariedade, um toque de mão que transmite segurança, afeto, ânimo
e esperança, sem muito ritual pomposo, sem êxtases arrebatadores. Como
resultado desse gesto de ajuda, a mulher se levanta a febre a deixa e agora se põe
a servir a comunidade. É na oração íntima com Deus Pai, que Jesus de Nazaré
fortalece a sua missão, cumprindo a vontade daquele que o enviou, pois sem a
oração, a nossa igreja seria apenas um Posto de atendimento de serviço
religioso ou balcão de Sacramentos.
É na oração que
acontece este colóquio com o Pai, aonde vai se descortinando para nós a
plenitude do Reino, que humildemente vamos construindo com gestos simples como
o de Jesus, capaz de erguer as pessoas que estão ao nosso lado.
Os discípulos, encantados
com o carisma e o Poder do mestre, querem urgentemente abrir um “pequeno
negócio”, um salãozinho de fundo de quintal, onde eles teriam naturalmente o
monopólio sobre Jesus e seus milagres, mas o Mestre pensa grande, ele não veio
para que as pessoas o buscassem, mas para ir ao encontro delas, curando de suas
enfermidades e as libertando dos males físicos e espirituais, como um sinal da
libertação plena.
É esse o Cristo que
devemos anunciar como Igreja missionária, pois qualquer outra imagem diferente
da que nos apresenta o evangelho, seria apenas uma caricatura grotesca, uma
cópia falsificada de um mero “Salvador da pátria”, desses que vez ou outra, o
povo gosta de aclamar como Rei...
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