quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O CAMINHO DO MESTRE


DIA 23 DE FEVEREIRO - QUINTA-FEIRA

QUINTA-FEIRA DEPOIS DAS CINZAS *
(ROXO – OFÍCIO DO DIA)


Leitura (Deuterônomio 30,15-20)
Salmo responsorial 1
Evangelho (Lucas 9,22-25)

Quem se propõe a seguir Jesus, não pode escusar-se de refazer o caminho do Mestre. Este caminho tem uma dinâmica bem definida. Jesus começa recusando-se a se apegar à sua igualdade com Deus, e, por conseqüência, dispondo-se a assumir, plenamente, a condição humana. Passa pelo testemunho radical do Pai e de seu Reino, sem se importar com a opinião de quem o critica. E se consuma na morte de cruz, como desfecho natural de uma vida de total renúncia de si mesmo.
Também do seguidor de Jesus exige-se a disposição de abrir mão de seus projetos pessoais, escolhendo somente os que são compatíveis com o Reino, sem poupar-se ou estabelecer limites, quando se trata de executá-los. Põe em risco a própria salvação, quem se deixa levar pela prudência humana, e procura salvaguardar certas dimensões de sua vida, temendo colocá-las em jogo.
À imitação de Jesus, seu seguidor tem um coração desapegado, livre dos ideais mesquinhos de ganhar o mundo inteiro, ao preço da própria condenação. Esta liberdade capacita-o a trilhar o caminho de Jesus, embora tendo de enfrentar a cruz, com seu componente de rejeição e de morte.
O seguimento exige disposição e coragem para não nos determos na metade do caminho. Como seguidores do Mestre, somos desafiados a concluir, com ele e como ele, a sua mesma caminhada. 


PRIMEIRO DOMINGO DE QUARESMA Ano B


Mc 1, 12-15
“Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por Satanás”



Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto - Marcos duma forma muita resumida, Mateus e Lucas mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que estes relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra, duma maneira fundamentalista!

Uma coisa logo chama a atenção – nos três Evangelhos as tentações vêm logo após o batismo de Jesus! O batismo significava o assumir público da sua missão, como Servo de Javé. Logo após este compromisso, ele tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência de Jesus é como a nossa própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas entre o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações!!

Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora dele, durante as suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência da sua fé!

CONVERSÃO, ABRIR O CORAÇÃO A CRISTO




A Quaresma é uma oportunidade para “voltar a ser” cristãos, através de um processo constante de mudança interior e de avanço no conhecimento e no amor de Cristo. A conversão não tem lugar nunca uma vez para sempre, mas é um processo, um caminho interior de toda a nossa vida. Certamente este itinerário de conversão evangélica não pode limitar-se a um período particular do ano: é um caminho de todos os dias, que tem que abarcar toda a existência, cada dia de nossa vida.
Desde este ponto de vista, para cada cristão e para todas as comunidades eclesiais, a Quaresma é a estação espiritual propícia a que se treine com maior tenacidade a busca de Deus, abrindo o coração a Cristo.
Santo Agostinho disse em uma ocasião que nossa vida é um exercício único do desejo de aproximarmo-nos de Deus, de sermos capazes de deixar Deus entrar em nosso ser. “Toda a vida do cristão – disse – é um santo desejo”. Se isso é assim, a Quaresma nos convida ainda mais a arrancar de nossos desejos a raiz da vaidade para educar o coração no desejo, quer dizer, no amor de Deus. “Deus – diz Santo Agostinho – é tudo o que desejamos” (Cf. “Tract. in Iohn.”, 4). E esperamos que realmente comecemos a desejar a Deus e, deste modo, desejar a verdadeira vida, o amor mesmo e a verdade.
É particularmente oportuna a exortação de Jesus, referida pelo evangelista Marcos: “Convertei-vos e crede na Boa Nova” (Marcos 1, 15). O desejo sincero de Deus nos leva a rechaçar o mal e a realizar o bem. Esta conversão do coração é antes de tudo um dom gratuito de Deus, que nos criou para si e em Jesus Cristo nos redimiu: nossa felicidade consiste em permanecer Nele (Cf. João 15, 3). Por esse motivo, Ele mesmo previne com Sua graça nosso desejo e acompanha nossos esforços de conversão.
Mas, o que é em realidade converter-se? Converter-se quer dizer buscar a Deus, caminhar com Deus, seguir docilmente os ensinamentos de seu Filho, Jesus Cristo; converter-se não é um esforço para realizar-se a si mesmo, porque o ser humano não é o arquiteto do próprio destino. Nós não fizemos a nós próprios. Por isso, a autorrealização é uma contradição e é demasiado pouco para nós. Temos um destino mais alto. Poderíamos dizer que a conversão consiste precisamente em não considerar-se “criadores” de si mesmos, descobrindo deste modo a verdade, porque não somos autores de nós mesmos.
Conversão consiste em aceitar livremente e com amor que dependemos de Deus, nosso verdadeiro Criador, que dependemos do amor. Isto não é dependência, mas liberdade. Converter-se significa, portanto, não perseguir o êxito pessoal, que é algo que passa, mas, abandonando toda a segurança humana, seguir sempre com simplicidade e confiança no Senhor, para que Jesus se converta para cada um, como gostava a Beata Teresa de Calcutá de dizer, em “meu tudo em tudo”. Quem se deixa conquistar por Ele não tem medo de perder a própria vida, porque na Cruz Ele nos amou e se entregou por nós. E precisamente, ao perder, por amor, nossa vida, voltamos a encontrá-la.

Papa Bento XVI

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A “sacramentalidade” que a humanidade busca em Deus



O que podemos dizer pela forma perceptivelmente que possuímos e até mesmo com um certo grau de evidência é que o homem, já nasce sem a fé, desdobrar isto leva a perceber que toda sacramentalidade está no “no criado em Cristo”(Cl 1,16) isto é com o “pecado original”, não si trata propriamente de uma perda, mas de evitar um crescimento com a graça que nos coloca numa perspectiva de uma relação íntima com Deus, como já sabemos, a religião nos apresenta um diálogo entre o Deus vivo e o homem. Pois ela supera as nossas fraquezas humanas e é somente pela graça que nos tornamos religiosos!
Toda a comunidade sacramental está presente, de maneira consciente ou não, vida de toda humanidade religiosa e esta por sua vez submete-se a Deus, que convida a participar da graça. O ser divino que está presente em nós é o “em Cristo” do nosso ser criado, é o ter nascido sem saber deste nascimento no Espírito de Cristo. Por isso, é que o batismo, o “nascer não da carne, mas do Espírito Santo” que manifesta o verdadeiro ser – o ser Filho de Deus. 
Deus tem um pessoal empenho na salvação da humanidade. A experiência religiosa que temos interiormente que nos vem pela graça, não tem uma forma visível, mas permanece, mesmo que de forma desconhecida no interior do “coração” do homem. O homem que em resposta louva ao Deus que se manifesta através de um ato de salvação ou mediante a revelação de um mistério. Deus é o sujeito e a fonte de toda a ação criadora e salvadora, tudo que Deus realiza no homem e no mundo. Deus “nos escolheu nele antes da fundação no mundo para sermos santos e irrepreensíveis sob o seu olhar, no amor. Ele nos predestinou a ser para Ele filhos adotivos por Jesus Cristo, assim o quis a sua benevolência”(Ef 1,4-5) , liberta, reuni tudo em Cristo, entrega a herança prometida (cf. Ef 1,8-12) e concede o dom do Espírito Santo:

“ouvistes a palavra da verdade, o evangelho que vos salva. Nele, ainda, crestes e fostes marcados com o sinete do Espírito  prometido, o Espírito Santo, adiantamento da nossa herança até a libertação final em que dela tomaremos posse, para o louvor da sua glória”(Ef 1,13-14)

Deus cria o homem e dirige-se a ele de pessoa para pessoa e isso nos mostra que pela relação intima e pessoal que temos com Deus nos coloca em confronto com o mundo no qual se coloca a nossa existência que nos comunica o Deus vivo, o qual o homem não consegue separar, não por seus méritos, mas pela bondade de Deus que não o abandona. 
O homem deve ter com Deus uma relação de dialogo; como aquela relação de pai para com a criança, que não tem condições de reencontrá-la por si mesmo.

"Encontra-se o homem perante Deus numa relação de Tu e eu, numa relação de diálogo. O homem perdeu essa relação viva com, esta relação de criança com o Pai, não podendo reencontrá-la por si mesmo. é o que a vida neste mundo faz compreender".[1]

É em Israel que se dá a primeira etapa da Igreja onde é apresentado o fruto da intervenção da misericórdia de Deus, a preanunciação do que São Paulo empregará a Igreja de Cristo, escrevendo que:

“Cristo amou os seus e se entregou por ela, a fim de purificá-la com o banho da água e santificá-la pela palavra[2], para apresentar a si mesmo a Igreja, gloriosa, sem mancha nem ruga, ou coisa semelhante, mas santa e irrepreensível" (Ef 5,25-27).

Pelo batismo o próprio Cristo purifica a sua noiva, isto é, a Igreja para apresentá-la a si mesmo. A parte central da revelação de Deus nos é apresentada no Antigo Testamento: “Eu serei o teu Deus e tu serás meu povo".[3]
Espírito Santo. O Espírito Santo sempre é o mesmo e único, amor absoluto e intranscendível.



[1] Leonardo Boff - Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. P.15
[2] É por meio da Palavra proclamada que o batismo ganha o seu valor e também é claro pela profissão de fé do batizado. Toda a originalidade do sacramento está na palavra de Deus. Cf. Mc 16,15s.
[3] Êx 6,7; Lev 26,12; Dt 26,17-18;29,12-13;Jr 7,23;11,4;24;31,33;Ez11,20;14,11;37,27; Os1,9.

1.1- Considerações preliminares sobre o conceito de sacramento.




Para compreendermos bem a definição de sacramento, é preciso inserirmos o nosso consciente para os sinais que apontam e manifestam Deus em nossa vida. É a Igreja como que uma grande pioneira em entregar para o homem, através dos sacramentos, os canais por onde circulam as vias da salvação. Sim é claro que entre as vias então os relacionamentos de pessoas em suas realidade humanas, que entre si manifestam nas ações ato de amor, que por sua vez o impulso maior para a solidariedade, o reconhecimento do outro como pessoa importante. 

“Sacramento significa exatamente essa realidade do mundo que, sem deixar o mundo, fala de um outro mundo, o mundo humano das vivencias profundas, dos valores inquestionáveis e do sentido plenificador da vida. Compreender este pensar é abrir-se para a acolhida dos sacramentos da fé. Eles radicalizam os sacramentos naturais nos quais vivemos em nossa diuturna quotidianidade”.[1]  

Pretendemos entender o conceito de maneira não alienativa e sim celebrativa levando o homem a conhecer e sentir a experiência do próprio Deus que por meio do sacramento é o centro e o sujeito de toda salvação. Essa compreensão deve, contudo ser fruto de um estudo atencioso na parte teológica dos sacramentos, o que pretendemos de maneira simples e clara apresentar.
Primeiro é lícito que façamos menção a essa teologia sacramental, no sentido de perceber também que os sacramentos não estão separados “do mistério de Cristo, isto é, nos remetem a uma realidade ulterior”[2].
Porém ver-se então que temos que entender o sacramento a partir de uma perspectiva de Igreja, entender partindo daquilo que Deus oferece para a humanidade em seu plano de salvação. Mas para uma definição precisa sobre o que é um sacramento dizemos que consiste numa realidade de uma grande divergência de cultura muito presente envolvendo Deus, o homem e a Igreja.
O que é mais expressivo para explicar sobre o conteúdo de sacramento é nos orientarmos a partir de razões teológicas que nos farão compreendê-lo melhor. Para isso, o autor Dionísio Boróbio nos dar algumas pistas a cerca dessas razões:
A razão teológica que nos ajuda a compreender é crer no mesmo Deus de Jesus Cristo e que será sempre o mesmo. Agora, o que acontece é que os homens possuem inúmeras maneiras para sua crença neste Deus. Daí se percebe a atuação de Deus no sacramento, isto é, Deus que vai por meio do sacramento ao encontro do homem.
A comunidade cristã não é uma instituição,mas uma participação na vida de Jesus, unidos a Jesus, cada membro é chamado a testemunha-lo, colocando a comunidade em continuo crescimento. “Cristo é a vida verdadeira que comunica a vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer”(cf. LG 7 e Jo 15,1-5).
Os sacramentos têm como pedra fundamental à pessoa do próprio Cristo. Nele a comunidade de fé se fundamenta e através da Igreja também se renova. A partir de então é confirmada com isto a pessoa de Jesus Cristo como origem dos sacramentos, e é aqui que entra a razão cristológica.

“Cristo, Mediador único, constituiu e sustenta indefectivelmente sobre a terra, como organismo visível, a sua Igreja Santa, comunidade de fé, de esperança e de caridade, e por meio dela comunica a todos a verdade e a graça ...A estrutura social da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para fazer progredir o seu corpo místico”( LG 8.1 e cf.Ef 4,16).

Com grande esforço de renovação está a razão pneumatológica. Concernente a esta razão surge uma série de questionamentos em torno do lugar do Espírito nos sacramentos. Sim, com firmeza podemos dizer que é o espírito da luz que faz ver na realidade a presença sacramental de Deus. “Ninguém pode (conhecer) falar que Jesus é o Senhor, a não ser pelo Espírito Santo”( 1Cor 12,3).
Nunca podemos compreender os sacramentos distantes da realidade eclesial. Agora conforme o modelo de Igreja que defendemos também expressamos o modelo dos sacramentos. “A igreja é em Cristo como quer sacramento, isto é, sinal e instrumento, da união intima com Deus e da unidade de todo o gênero humano”(LG 1). É necessário observarmos bem qual a relação que existe na Igreja como um todo (universal, local, particular e ministro); daí que podemos falar de razão eclesiológica. A Igreja nasce do anuncio fundamental que provoca a conversão, o crescimento da graça e uma expansão por meio do testemunho, neste sentido nos mostra o evangelista Lucas nos At 2,4247:

“Eles eram assíduos aos ensinamento  dos apóstolos e à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. O temor se apoderava de todo mundo: muitos prodígios e sinais se realizavam pelos apóstolos. Todos os que abraçavam a fé estavam unidos e tudo partilhavam. Vendiam as suas propriedades e os seus bens para repartir o dinheiro apurado entre todos, segundo a necesssidade de cada um. De comum acordo, iam diariamente ao templo com assiduidade: partiam o pão em casa, tomando o alimento com alegria e simpliscidade de coração. Louvavam a Deus e eram favoravelmente aceitos por todo o povo. E o Senhor ajuntava cada dia à comunidade os que encontravam a salvação”.

Cristo para cumprir a vontade do Pai  inaugura na terra o reino dos céus. A igreja, isto é, o reino de Cristo já presente em mistério, cresce visivelmente no mundo pelo poder de Deus. Cristo é a videira que comunica a vida e a fecundidade aos sacramentos, isto é, a nós que pela Igreja permanecemos nele e sem o qual nada podemos fazer ( cf. Jo 15,15).
Os sacramentos são sinais de esperança e participação no que chamamos de “liturgia celeste”. Na dimensão da razão escatológica podemos celebrar o momento presente, mas também o que vai acontecer. E o que seria celebrar essas duas dimensões escatológicas que significa celebrar sacramentalmente aquilo que está na vida terrena mais ligada a vida do homem e a Deus; e segundo, celebrar a manifestação de Deus nos sacramentos como um sinal de esperança para a vida futura.
 “O sacramento é a expressão simbólica comunitária de uma situação fundamental humana e social, que é assumida através da Igreja na ordem da salvação de Deus e vem a ser pela palavra e pelo sinal sacramental, uma situação de graça”[3]

Na razão antropológica do sacramento é cabível que as ciências humanas façam as suas indagações a respeito de como se originam, qual a diversificação eficácia e necessidade dos sacramentos. O ponto culminante na razão antropológica é se perguntar qual o lugar e qual a relação do homem nos sacramentos. Com este mesmo homem a razão antropológica do sacramento envolve e se pergunta também sobre a sua relação com Deus e com a Igreja que é comunidade de fé. É também numa realidade cultural que o sacramento é celebrado. Ele permeia toda uma situação que pode ser social e eclesial, formas de expressão, costumes. É preciso analisar que critérios se podem utilizar para celebrar o sacramento dentro da realidade de cada cultura e cada povo. É necessário também que a realização de qualquer sacramento esteja voltada para transformação da pessoa dentro da razão sociocultural do sacramento.
Na vida da Igreja e em sua realidade pastoral os sacramentos têm lugar fundamental, visto que “a pastoral sacramental é um momento decisivo da vida da Igreja”[4]. Daí que a razão pastoral dos sacramentos completa o conjunto das razões expressadas antes. Elas fazem parte da definição do que seja o sacramento. No entanto, o conceito de sacramento se estende ainda mais, pois todos os sacramentos possuem uma riqueza incalculável de dimensões que seria riquíssimo se delas tivéssemos conhecimentos para aprofundarmos melhor a realidade do mistério pascal.
 Ainda quanto ao conceito de sacramento, é valido que façamos menção ao conteúdo dos primeiros doze séculos da Igreja em que o sacramento era também chamado de mistérios. Esse termo designava as diferentes realidades dos ritos sacramentais de Igreja. No Concílio de Trento a Igreja levou a cabo uma melhor fixação a respeito do conceito; na sessão VII nos cânones 1-12 o Concílio afirma que o sacramento só se aplicaria às realidades que preenchessem estes requisitos: instituição por Cristo, estrutura da matéria e forma, eficácia “ex opere operato”[5], intenção por parte do ministro e disposições por parte do sujeito. Pelo que vimos, o sacramento significa ainda manifestação do dom invisível da multiforme graça de Deus, e todo sacramento expressa também aquilo que está contido no dinamismo da historia da salvação, isto é, a presença salvífica de Deus na historia humana.

Entendemos por graça esse estar ai de Deus para mim presente e atuante, como um “você” pessoal e vivo que transforma a minha vida e salva em Cristo, dando-lhe uma nova orientação, força e dinamismo no Espírito. Essa presença pessoal, salvadora e agraciadora de Deus ocorre em todo homem, pressupondo-se uma abertura, a partir da sinceridade (...), na própria distinção do cotidiano. O homem fiel, e mais ainda o cristão batizado está consciente dessa presença autodoadora em todos os momentos da sua vida e sabe que não precisa esperar determinados instantes ou dirigir-se a certos lugares para viver e até mesmo expressar a alegria desse estar “gratuito” de Deus com os homens.[6]

Com isso, a historia toda vai se transformando em lugar do encontro e da experiência com Deus a partir de Jesus Cristo, sacramento original, que torna possível o amor e a graça de Deus. Nisto acontece o diálogo entre Deus, o homem e o mundo.
Para expressar melhor o conceito deste ponto sobre sacramento, queremos falar agora do sacramento como palavra e do sacramento como sinal-simbolo. Pois na palavra, se manifesta a eficácia salvadora de Cristo através da palavra da Igreja e no sinal se encontra uma “A tradição da Igreja é unânime em reconhecê-lo ao definir o sacramento a partir de sua visualização externa do dom interno de graça”.[7] È por meio do acolhimento da Palavra de Deus que as pessoas tomam atitudes de conversão e formam comunidade.“Demos graças a Deus sem cessar: Quando recebeste a palavra de Deus que vos fazíamos ouvir, a acolhestes, não como palavra humana, mas como e realmente palavra de Deus”(1Ts 2,13). Por meio da escuta da Palavra de Deus é que vem a fé para aquele que crerem. Pois “a fé vem da pregação, e a pregação é o anuncio da Palavra de Cristo”(Rm 10,17b). Ora, vale ressaltar que a pregação da Palavra refere- se a Cristo e que, a fé provém do ouvir, o ouvir, porém, da palavra/causa de Cristo.
O sacramento como palavra: antes de falar mais precisamente do sacramento como sinal, é obvio que recordemos algo que acontecia no passado. É que de um lado havia uma grande preocupação com a palavra e a fé e isso entre católicos e protestantes. Cristo é presença real através de sua palavra que se torna carne, também no sacramento. O sacramento é o que é porque já a palavra de Deus o é: sacramental, presença real do amor de Deus por nós nele.
Neste sentido, Karl Rahner nos ajuda a compreender que

“de qualquer maneira que seja anunciada fielmente como palavra de salvação, e pressupondo-se a disponibilidade fundamental de acolhida, essa palavra tem um caráter de exibição, comunica o que anuncia, realiza o que diz, é eficaz. Mas o alto grau de eficácia é atingido na palavra sacramental, isto é, na palavra que a Igreja pronuncia quando realiza um sacramento”[8].

Do que vimos podemos dizer que na palavra encontramos o que poderíamos chamar de conteúdo da salvação. É através da Palavra. A Palavra possui uma eficácia capaz de evangelizar o homem que por si só não conhece a verdade senão somente por meio da palavra de Cristo acolhida na fé, a palavra comunica no sacramento a graça e o amor de Deus. A palavra produz a ação e a mostra a força da palavra, a força do ato criador de Deus. E assim como podemos perceber  Palavra divina é a essência constitutiva para o sacramento.
O sacramento como sinal: o sacramento como sinal vem nos mostrar como Deus realizou as suas maravilhas. Jesus Cristo é o próprio sinal visível do Pai quando afirma: “quem me vê, vê o Pai” (Jô 14,9). O sacramento como sinal não é visto também somente através de elementos materiais, mas daquilo que está expresso numa palavra ou numa ação e tudo isso deve ser acolhido na liberdade e na fé de cada cristão. Na linguagem tridentina: a “matéria”, visalização da palavra, cuja verdade porém, só a fé que “vê”.
Antropologicamente falando “o homem precisa de sinais e símbolos porque é simbolicamente; precisa de sacramentos porque é sacramentalmente”[9]. O ser humano é um ser sacramental; no nível religioso, exprime suas relações com Deus num conjunto de sinais e símbolos. Na verdade, Deus utiliza-os quando quer se comunicar com o ser humano. Contudo, notamos que o sacramento se refere a um sinal sensível no qual transparece e atua uma realidade invisível, divina o que poderíamos dizer: o mistério de nossa fé.
O Concílio Vaticano II recuperou o sentido antigo do sacramento, equivalente a mistério. O Concílio foi como que abriu as perspectivas e fala de toda a Igreja como sacramento, sinal e instrumento da unidade de todo gênero humano em Cristo. Deste modo, atividades e sua simples presença, é de alguma forma sacramento, sinal sensível que aponta para o mistério de Deus, o mistério de todo ser humano e da humanidade como um todo revelado em Jesus Cristo.




[1] Leonardo Boff, Os sacramentos da vida e a vida dos sacramentos. p 20
[2] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 287
[3] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta P. 315
[4] BORÓBIO, Dionísio . A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta  p. 290
[5] Esta expressão significa: Realizada, operada, ou feita da própria obra.
[6] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 389 e 390
[7] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 317
[8]BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 314
[9] BORÓBIO, Dionísio. A celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamenta p. 320

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O USO DA PALAVRA HOMEM FISICO


Para Rousseau o selvagem não precisava do outro para viver. Vive pois, na sua individualidade, só que o uso da linguagem veio tentar quebrar os limites existentes entre a individualidade e a relação com seus semelhantes.
Rousseau mostra que seria fazer uma má comparação entre, família contemporânea e família natural, em relação ao uso da palavra quando afirma:
“Que as línguas nasceram no comércio doméstico dos pais (...). Seria cometer a falta daqueles que, raciocinando sobre o estado de natureza, 2 transportam para ele as idéias pertencentes à sociedade e vêem sempre a família reunida numa mesma
2 Para Rousseau estado de natureza significa um estado individual de um homem não educado, como também pode ser considerado um estado hipotético antes da organização social.
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habitação e seus membros guardando entre si união tão intima (...) nesse estado primitivo, não tendo nem casa, nem cabanas, nem propriedade de qualquer espécie, cada um se abrigava em qualquer lugar e, freqüentemente, por uma única noite”. (ROUSSEAU, 1983:247).
Tendo em vista que a família natural usufruía toda a natureza para viver, sem que tivesse algo em comum que unissem aos seus semelhantes. Já na família da sociedade civil há um objetivo comum que faz com que os seus semelhantes se unam e vivam em partilha e diálogo.
A natureza acolhe muito bem o selvagem sem que fosse preciso que este procure refugio em outro lugar, e muito menos se comunicar. Como a criação humana é incompleta, mesmo no estado puro de natureza, eles também são incompletos. Quando crianças “Tendo o filho todas as suas necessidades para exprimir e, conseqüentemente, mais coisas para dizer à mãe do que esta ao filho, deveu (sic) fazer os maiores esforços de invenção e a língua empregada por ele devera ser, em grande parte, obra sua”. (ROUSSEAU,1983: 247). Precisam de ajuda tanto da natureza, como também de sua mãe para sua subsistência, logo, não sabem andar e muito menos procurar comida.
Rousseau supõe agora como necessária o uso da palavra e como se estabelecer. Assim conclui que o homem selvagem teve um desafio enorme para poder desenvolver esta arte da comunicação, tendo em vista, que nunca fez um esforço qualquer para se ouvir um som articulado e o que poderia ser isso. Logo o homem selvagem tem seus sentidos mais bem desenvolvidos do que seu intelecto. “Se os homens tiveram necessidade da palavra para aprender a pensar, tiveram muito mais necessidade ainda de saber pensar para encontrar a arte da palavra”. (ROUSSEAU,1983: 247).
Sem saber como surgiu o som da voz, sem ter um objeto sensível para estimular o uso do pensar e do falar, percebemos que a natureza teve uma grande parcela de contribuição no desenvolvimento desta arte, como já dissemos antes que o selvagem tem os sentidos mais desenvolvidos que o
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intelecto, assim Rousseau pressupõe que “a primeira linguagem do homem (...) é o grito da natureza3” (ROUSSEAU,1983:248) quando este se encontra em situações constrangedoras de perigo e de dor. A comunicação segundo Rousseau era feita a partir de gestos e imitação4 e mesmo assim ficava a desejar, por que os gestos só falavam das coisas presentes e muitas vezes o que um gesto dizia a um, não era a mesma coisa que dizia ao outro, ou seja, não havia uma comunicação exata a partir de gestos, eram inteligíveis, mas foi um grande passo da comunicação, para quem não expressava nada. Os gestos mostra que são capazes de comunica-se e que tudo ficaria mais fácil.
“Exprimiram, pois, os objetos visíveis e móveis graças a gestos, e aqueles que atingem a audição, graças a sons imitativos; mas, como o gesto só indica os objetos presentes ou fáceis de serem descritos e as ações visíveis, como o gesto não é de uso universal, porquanto a obscuridade ou a interposição de um corpo o torna inútil” (ROUSSEAU,1983: 248).
Assim vendo que a comunicação a partir de gestos era inútil e percebendo a necessidade da melhor comunicação resolveram substitui-la pela articulação da voz, ou seja, o uso da palavra, que mesmo na dificuldade obtiveram e de forma unânime o consentimento, a aceitação de todos. Mesmo assim tinham dificuldade na comunicação, onde uma coisa tinha uma nomenclatura, para outro objeto da mesma espécie tinha outra nomenclatura. “Cada objeto, a princípio, recebeu um nome particular, sem levar em consideração os gêneros e as espécies, que esses primeiros instituidores não estavam em condições de distinguir”. (ROUSSEAU,1983: 248).
3 Este grito do qual Rousseau se refere é grito do instinto humano, suas ansiedade, e a verdadeira vontade de ser livre sem depende de ninguém.
4 Imaginavam os primitivos que fosse mais fácil, pois, estes eram hábeis. Só não imaginavam que pudessem confundir a comunicação.
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Rousseau mostra que a idéia é abstrata5 e para se concluir na linguagem 6 temos que ter uma experiência com o real, ou seja, com o natural. É preciso que o nosso sentido tenha contato com a coisa para termos idéia do que é, e assim verbalizá-la.
“Toda idéia geral é puramente intelectual (...) tentai traça-vos a imagem de uma árvore em geral e jamais conseguireis; mesmo que não o queirais, será preciso vê-la pequena ou grande (...) se dependesse de vós nela não ver senão o que encontra em todas as árvores, essa imagem já não se pareceria com uma árvore”. (ROUSSEAU,1983: 249).
Assim sem conhecermos o que é a nomenclatura, o dicionário ficou muito grande, pois, uma só coisa tinha vários sentidos, logo cada selvagem denominava uma coisa de acordo com a sua experiência, seu modo de vida e a maneira de manipula-la.

O HOMEM FÍSICO



Rousseau apresenta o homem selvagem como um bom selvagem, ou seja, menos educado e sendo corporalmente igual a cada um de nós, que tem os mesmos sentimentos, vontades e desejos. Só que quando estudado mais de perto, a partir dos relatos dos viajantes, se percebe que esse ser é um verdadeiro animal no qual depende de tudo da natureza, essa que o acolhe, sustenta-lhe, na alimentação e abrigo não deixa faltar-lhe nada e estar sempre ao seu dispor. Todas as ações do selvagem são controladas pela natureza, pois sem ela, ele não sobreviveria; o seu agir, modo de portar-se, costumes e necessidades estão envoltos a natureza
“Eu o suporei conformado em todos os tempos como vejo hoje: andando sobre dois pés, utilizando suas mãos como o fazemos com as nossas, levando seu olhar a toda a natureza e medindo com os olhos a vasta extensão do céu. Despojado esse ser (...) considerando-o, numa palavra, tal como deve ter saído das mãos da natureza, vejo um animal menos forte do que uns, menos ágil do que outros, mas, em conjunto, organizado de modo mais vantajoso do que os demais” (ROUSSEAU,1983:238).
O homem selvagem foi ensinado pela natureza a sobreviver a todos e quaisquer desafios e assim conquistar o seu alimento, adquirindo desta forma uma estrutura robusta1 que amedronta algumas feras, no caso menos forte do que ele, adquiriu também uma agilidade em subir em árvore. Mas se a fera for mais forte do que ele, este foge para floresta na qual tem uma harmonia, de uma forma tão veloz, que não se imagina um homem qualquer. O homem selvagem
1 Torna-se robusto em relação ao homem civil porque a natureza exige deles muito esforço físico para sobreviver na floresta, enquanto o homem civil tem a industria que faz todo o trabalho pesado para ele.
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não conhece armas, mas tem coragem para lutar e conseguir aquilo o que quer, só com a ajuda do próprio corpo e de pedras. Assim afirma Rousseau que: “Nenhum animal guerreia naturalmente com o homem a não ser no caso de sua própria defesa ou de uma fome estrema”.(ROUSSEAU,1983: 240).
Rousseau acrescenta que o homem selvagem não precisa da medicina dos homens civis, pois não conhecem muitas doenças que vem da sociedade, tais como tuberculose, cólera e outras. O homem selvagem é sadio ao viver de acordo com a natureza, sua alimentação não contém toxinas, vive ao ar livre, “eles quase não conhecem outras doenças senão as feridas e a velhice”. (ROUSSEAU,1983: 241) E destas a natureza sabe muito bem como cuidar.
O homem selvagem sacia-se por completo na natureza a partir do seu instinto. Portanto não podemos dizer que os selvagens são mãos ou violentos, pois suas ações são oriundas do instinto. Assim os “os selvagens não são maus precisamente porque não sabem o que é ser bons” (ROUSSEAU, 1983: 252). Todos os seus desejos têm a ver com as suas necessidades físicas e dessas somente a natureza resolve, e nesta o selvagem confia.