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Deus continua a chegar após uma longa espera de séculos, após os obscuros sinais presentes nas outras religiões, sobretudo após a preparação mais imediata da Aliança com Israel. No seu livro “O Mistério do Advento”, Daniélou afirma: “O cristianismo é a eterna juventude do mundo”. Já no início do seu pontificado, Bento XVI reafirmava que a Igreja tem e transmite a juventude de Cristo, que é “eternamente jovem”. Com efeito, o acontecimento de Cristo vence a morte a partir do interior dela mesma, penetrando-a para matá-la definitivamente e abrir-nos – desde já – à Vida que não morre.
Com Cristo chega a “plenitude dos tempos”. Com Cristo – escreveu João Paulo II na sua carta sobre o advento do Terceiro milênio – “a eternidade entrou no tempo”. É verdade. Aquele que está com Cristo já não pode envelhecer. O seu corpo desgasta-se, como é natural, mas o seu espírito é eternamente jovem, com a juventude de Deus. E isso até o momento em que essa Juventude o ressuscitará dentre os mortos para a Vida que nunca morre.
Hoje, parece que é mais fácil crer na reencarnação que na ressurreição. Segundo João Paulo II, isso demonstra que “o homem não quer resignar-se a uma morte irrevogável. Está convencido da sua própria natureza essencialmente espiritual e imortal”. E, contudo, a grandiosidade não reside na possibilidade de ter muitas vidas; no fim das contas, isso lhe tiraria a responsabilidade. A grandiosidade está no fato de que mesmo a menor das realidades pode transformar-se, por amor e para sempre, em algo eterno, que não passa, que entra no “hoje” de Deus. Por isso Gustave Thibon dizia: “Tudo o que não é eternidade recuperada, é tempo perdido”.
A história inteira é – para usar a metáfora de Daniélou – o tempo de que dispomos para amadurecer um cacho que é precisamente a cidade de Deus. E Daniélou aplica isso às religiões pagãs, ao judaísmo: todas as pessoas estão chamadas a abrir-se ao “vinho novo” do cristianismo. É necessário que cada um se abra ao “vinho novo da graça” que continua a fazer os “odres velhos arrebentar”, porque nos leva a “sair de nós mesmos – nós que sempre nos colocamos numa espécie de conformismo – e avançar para uma nova etapa”.
Por isso é preciso despertar. Renunciar à atitude de dobrar-se sobre si mesmo, sobre o próprio envelhecimento. Só há dois caminhos: ou a vida voltada para si mesmo, que leva à morte; ou o caminho até a vida de Deus que leva ao crescimento, à “plenitude do tempo”.
É essa vida de Deus que grita agora como uma mãe, como uma apaixonada, à alma que reluta em despertar. Está chegando o dia para ti, alma chamada por Deus, está chegando o dia para ti, mundo em sombras; está chegando o dia para ti, conjunto dos cristãos que deveis dar testemunho da vossa unidade diante do mundo; está chagando, cristão, o tempo da tua coerência; está chegando, para ti, seja quem fores, a ocasião de pedir perdão e recomeçar.
Nesta linha dos seus Hinos à Igreja, Gertrud von Le Fort imagina que a Igreja diz à sua alma: “Quero acender luzes, alma; quero acender a alegria em todos os confins da tua humanidade”; e espicaça a alma humana – a de cada um de nós que deve despertar no Advento e abrir-se a Deus sempre de novo – invocando Maria: “Saúdo-te, Tu que trazes o Senhor no teu ventre!”.
Ramiro Pellitero, Professor no Instituto Superior de Ciências Religiosas da Universidade de Navarra.
Deus te abençoe!
Pe. Luiz Gilderlane.
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