quinta-feira, 2 de maio de 2013

A Glória e o Amor


      

Comentário baseado no Evangelho de Jo 13,31-35

Podemos trocar neste evangelho, a palavra Glória por Sucesso, que significa ser bem sucedido em algum empreendimento humano, obtendo o reconhecimento de todos, recebendo as honras e os elogios, por ter sido o melhor, por ter sido um vencedor. É assim em uma carreira profissional ou política, é assim no mundo das artes, da ciência ou do esporte, onde o mais ágil, o mais forte, o mais bem dotado, sempre vence. Uma vitória traz algo muito buscado por todos que é o poder, e quem o alcança tem as pessoas á sua disposição, que irão manifestar sempre o apoio, em uma clara submissão ao seu ídolo. É a glória! Como exclamam felizes, os que a alcançaram. O ídolo se torna uma referência, uma marca, um estilo de vida que irá servir de modelo a todos.
Alimenta-se assim uma verdadeira veneração do Ego do vencedor, que pensa sempre em si mesmo, em seus interesses, em suas conveniências, que planeja e arquiteta sempre o que lhe favorece e lhe faz bem, ou em outras palavras; que tem um “mundo” girando ao seu redor. Em um sistema egoísta que favorece um só ou alguns felizardos, basta olharmos o modelo econômico corrompido pelo neoliberalismo, e que mantém na ponta da pirâmide quem chegou lá, por merecimento ou por mecanismos escusos porque sendo assim, cada irmão ou irmã torna-se um concorrente que deve e precisa ser eliminado, quando se busca o sucesso e a fama. O sistema nos faz pensar e agir desta forma e assim, simples adversários são transformados em inimigos!
Entretanto, a glória para Deus é o oposto do que é para os homens, porque não tem como fundamento o egoísmo, mas sim a solidariedade e um modo de amar que o homem nunca tinha visto ou experimentado antes. Um amor verdadeiro quer construir, renovar, ajudar o outro a crescer, quer a vida e o bem do próximo, quer vê-lo livre para tomar decisões sábias, para conquistar seus ideais, construir sua própria vida e fazer a própria história. Mas tudo isso poderá ter um preço muito alto, que nem sempre estamos dispostos a pagar, pois o sistema nos convence de que, qualquer investimento deverá sempre ser feito para nós mesmos e não para os outros, pois é perigoso ajudar as pessoas a crescerem em dignidade, amanhã elas poderão ser mais um concorrente.
Esse modo de pensar e de viver é sempre perigoso, pois pode representar a perda até da própria vida, é melhor pensar e viver como todos os outros, pois somos condicionados a vencer, ninguém quer perder, ninguém quer a derrota, ninguém deseja o fracasso. Não vale a pena dar a vida pelos outros, ninguém irá reconhecer!
Pois essa é a glória para Deus, quando pensamos e agimos diferente do mundo, por causa do evangelho, Deus é glorificado, porque pensamos e agimos exatamente como o Filho Jesus. Por essa razão que neste evangelho, exatamente quando começa a delinear-se um aparente fracasso do ideal do reino, proposto por Jesus, com a traição de Judas, o Mestre anuncia que o Filho do Homem foi glorificado e que Deus foi glorificado nele. Ao ser glorificado pelo Filho, que não pensa e não age conforme o sistema marcado pelo pecado do egoísmo, mas sim pelos valores do Reino, o Pai o glorificará quando chegar a sua hora, a hora da cruz, que será aparente fracasso para os homens, mas a gloria para Jesus, provavelmente é este o sentido do ensinamento que ele faz aos seus discípulos na citação “quem perder a sua vida por causa de mim, irá ganhá-la”.
Mas como percorrer um itinerário tão desafiador, que vai na contra mão do sistema opressor e explorador? Onde poderá o discípulo encontrar força para seguir o Mestre e trilhar esse mesmo caminho? Na segunda parte deste evangelho Jesus deixa\aos discípulos o seu legado e o seu testamento, que é dado na forma de um mandamento novo “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”. Esse amor é muito mais que um sentimento, muito mais que uma virtude, esse amor é o próprio Deus, que tem a força renovadora, única capaz de transformar a tudo e a todos, dando-nos um novo céu e uma nova terra, levando o homem a seu destino glorioso junto a ele. Quem ama como Cristo nos amou, e não tem medo de perder, já antecipa em sua vida um pouco deste novo céu e desta nova terra! Que nossas comunidades sejam assim! Amém. (V Domingo da Páscoa Evangelho João 13,31 -33.. 34-35)

Corações Perturbados



João 14,1-6



No evangelho de João estamos diante de um Jesus que fala muito, os discursos ocupam a maior parte, é sempre bom lembrar que os escritos Joaninos situam-se mais ou menos nos anos 90, quase final do primeiro século, marcado por intensa perseguição aos cristãos.
O quadro que se apresenta é de insegurança e perturbação, certamente o grupo dos discípulos também viveu essa mesma experiência nos dias que antecederam a paixão e morte do Senhor, no coração dos pobres e simples, os ensinamentos de Jesus eram bem acolhidos, mas nas Lideranças Religiosas, ao contrário, a rejeição e a incredulidade eram evidentes.
As comunidades do final do primeiro século também estão inseguras, todos se perguntam que destino terá o Cristianismo iniciado pelos discípulos de Jesus, como sobreviver em um ambiente tão hostil ao evangelho, onde os cristãos são considerados membros de uma seita perigosa ao sistema.
Os cristãos têm consciência da missão que fora confiada á igreja, pelo próprio Senhor, mas por outro lado sentem-se impotentes e nada podem fazer para reverter o quadro.
Nossas comunidades cristãs neste terceiro milênio, embora em outro contexto vivem o mesmo drama, o que fazer diante de um mundo cada vez mais hostil ás coisas de Deus Pai ? Como agir em uma sociedade que ainda não conhece de fato a Jesus Cristo, seu Reino e seu evangelho. Filipe não conhecia o Pai, e hoje em nossas comunidades, muitos também não conhecem a Deus, fazendo dele uma imagem distorcida.
Muitos vivem em comunidade, recebem um Batismo, tem contato com Deus nos Sacramentos, ouvem a Deus na Palavra, comungam Deus na Eucaristia, mas não sabem ao certo quem é Deus, e essa fé em Jesus nem sempre os faz ser, pensar e agir diferente. Crêem em Jesus mas não o aceitam como Senhor de suas Vidas, aliás, nem admitem que ele interfira em suas vidas, é a chamada Religião onde as pessoas se "sentem bem", sem qualquer compromisso com a moral ou ética, Tomé não conseguia ligar Fé e Vida, sua relação com Deus se fundamentava em revelações e manifestações grandiosas através do messianismo de Jesus. Ele não consegue pensar em um Reino que irá acontecer em definitivo,algo que só Jesus sabe o caminho, e que vai muito além de qualquer Reino terreno, por isso irá dizer a Jesus "Senhor, mostra-nos o caminho" . "Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida".
O caminho é bem conhecido, não podemos dar a mesma desculpa de Tomé "Senhor, não sabemos para onde vais"! Não sabemos o que fazer, ou que estilo de vida adotar enquanto cristãos. Essa é uma desculpa esfarrapada demais, o nosso caminho é o mesmo de Jesus, é o caminho do serviço, percorrido sempre com amor e entusiasmo, ainda que diante de nós, tenhamos muitas vezes as cruzes dos fracassos, o tormento das nossas limitações.
A Fé no Pai que se revelou em Jesus, aquele a quem seguimos, sempre nos reanima as forças, nos faz olhar á frente e seguirmos adiante, para uma Vida além de tudo o que hoje vemos, sentimos e somos. Esse lugar que já está reservado ao homem de Fé, é ao lado de Deus, para isso Ele nos fez e nisso consiste a Salvação... Ele já está a disposição, ainda nesta vida, para quem se dispuser a Ser Discípulo Fiel de Jesus.



“Não se perturbe o vosso coração”


O discurso do capítulo 14 de João é a sequência do relato da última ceia, em que Jesus lavou os pés dos discípulos e predisse a traição de Judas Iscariotes (13,1-30). Trata-se de um longo discurso de despedida que começa em 13,31 e vai até 14,31. O discurso é interrompido pelas intervenções dos discípulos (vv. 5 [Tomé], 8 [Filipe] e 22 [Judas]), que fazem avançar o discurso. O discurso visa encorajar os discípulos para que não desanimem diante da paixão e morte de Jesus; os versículos 1 e 27 mostram isso: “Não se perturbe o vosso coração”. De fato, o medo, a perturbação, a frustração são ameaças à unidade. O medo dispersa, leva a abandonar os passos, projetos.
À exceção de Maria, mãe de Jesus, Maria Madalena, Maria de Cléofas e o discípulo que Jesus amava (19,25-27), os outros fugiram.
No entanto, só há um meio de vencer o medo, pela fé: “Credes em Deus, crede também em mim” (v. 1). É a fé que permite não esmorecer; é a fé que possibilita manter viva a palavra do Senhor em nós. Somente a fé pode fazer compreender que a partida de Jesus não é abandono. Os discípulos são convidados a fazer uma verdadeira Páscoa: do medo à fé; da perturbação à paz. O que é prometido (cf. v. 3) deve sustentar esse êxodo.
O discípulo do Ressuscitado vê-se confrontado com duas situações que, se mal compreendidas, poderão ser causa de perturbação. Por um lado, tem diante de si um projeto, cujas exigências e conseqüências são preocupantes: pautar a própria vida pelo ideal do Reino, num mundo hostil e refratário ao amor, tem um preço a ser pago. Por outro lado, o discípulo pergunta-se pelo fim de tudo isto, pela meta para onde caminha. O sentido da caminhada e o ânimo com que ela é feita, dependem de uma certa lucidez. Caso contrário, o discípulo deixar-se-á vencer pelo desânimo.
Jesus tomou a iniciativa de tranqüilizar os discípulos, apelando para a fé: "Assim como vocês acreditam em Deus, acreditem também em mim". Suas palavras elucidavam as dúvidas que povoavam o coração deles. Acolhidas na fé, essas palavras surtiriam o efeito tranqüilizador desejado.
Para os discípulos, abriu-se uma perspectiva de comunhão escatológica com o Pai. Simbolicamente, Jesus referiu-se à casa com muitas moradas. O vocábulo casa evoca afeto, convivência, intimidade. As muitas moradas significam a disposição do Pai para acolher a todos, sem exceção. Quem chegar na casa do Pai, será recebido por ele. 
Esse lugar de acolhida será preparado por Jesus, o qual precederá os seus discípulos. Com uma tal certeza, pode-se deixar de lado todo receio. Basta seguir o caminho aberto por Jesus.

terça-feira, 30 de abril de 2013

A ESTRADA CERTA





Hoje é algo bastante comum o uso de pequenos aparelhos receptores GPS nos carros. Se você está procurando por uma casa numa cidade estranha basta dar ao computador o endereço, e um mapa com o caminho que você deve tomar aparecerá na tela. Usando este Sistema Global de Posicionamento (Global Positioning System) junto com uma gigante base de dados de mapas e informações, este dispositivo pode lhe dizer que ruas você deve pegar para chegar onde quiser.

Não seria maravilhoso ter algo assim para nos ajudar nas importantes questões da vida?
“Estou procurando a felicidade, que estrada devo pegar?”.
“Eu preciso de um amigo de verdade, um companheiro, alguém para amar. Onde devo procurar?”.
“Estou perdido e não tenho ideia como vim parar nesta estrada que parece me levar a lugar nenhum. O que posso fazer?”.

Encontrar a estrada certa na vida é algo difícil para todos nós.
Um artigo no jornal falava de um rapaz morto na penitenciária. Ele foi espancado até morrer. Ele tinha apenas 24 anos e segundo seus familiares “ele tinha caído na turma errada” doze anos antes. Delitos repetidos de posse de drogas e roubo de carros fizeram com que ele recebesse uma pesada pena. Seu avô disse: “Ele não era bom para ele mesmo, mas era uma pessoa muito legal para os outros, amoroso, prestativo. Parecia que ele não conseguia ajudar a si mesmo. Ele começou sua juventude com o pé esquerdo.”
Será que ele teria tomado esta estrada se soubesse onde ela iria levá-lo? Será que eu ou você seguiríamos um caminho que leva à destruição?
Duas vezes no livro de Provérbios nós lemos: “Há caminho que parece reto ao homem; seu fim, porém, é o caminho da morte.” (Pr 14, 12; 16, 25)
Neste mesmo livro encontramos instruções para encontrar o caminho para a vida: “É o caminho da sabedoria que te mostro, é pela senda da retidão que eu te guiarei.” (Pr 4, 11)

Você aceita esta palavra de seu Pai amoroso que enviou seu Filho Jesus como “o caminho, a verdade e a vida”?
Você alcança sabedoria, confiança e liberdade quando você busca primeiro a Deus e segue suas instruções no caminho da sabedoria que o conduz a uma vida que vale a pena ser vivida.
Por qual estrada você tem andado? Lembre-se que a estrada certa não te leva a uma rua sem saída.

Hedy Silvado

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Coragem, Não Temais!


Comentário do Evangelho Jo 6,16-21



O evangelho tem como contexto a situação das comunidades no primeiro século do cristianismo e que refletem também os primeiros tempos dos discípulos após a ascensão do Senhor. O medo e a insegurança deles era por causa do acontecimento que desencadeou toda aquela caminhada, a vida de Jesus de Nazaré, seus ensinamentos, suas obras prodigiosas, mas que no final resultaram em fracasso com a morte na cruz. Se antes, caminhando com ele, a história acabou tão mal, agora o risco de um novo fracasso era ainda maior pois Jesus não estava mais com eles...
Os cristãos do primeiro século olhavam á sua volta e não viam nenhuma perspectiva de que o cristianismo fosse dar certo, de um lado o Império Romano, a cultura grega que exaltava o conhecimento, de outro o Judaísmo e suas raízes. Que futuro teria a comunidade dos seguidores de Jesus de Nazaré?
Hoje se sabe que o cristianismo está entre as maiores religiões do mundo, mas a sociedade não reflete essa realidade, ao contrário, parece que tudo contraria o evangelho e os cristãos vêem as forças dom mal se fazerem presentes até nas comunidades. Divisões, discórdias, escândalos, cristãos que desistem de viver a Fé e fracassam em sua caminhada. A impressão é que as forças do mal imperam na humanidade e querem engolir a Igreja.
O que pode um frágil barquinho a mercê de ventos fortes e ondas gigantes? O que pode a Igreja de Cristo fazer para mudar os rumos da humanidade? O Evangelho terá poder e força suficiente para reverter esse quadro de tenebrosa escuridão que nossos olhos contemplam?
São inquietações que afligem o coração de todos os discípulos. Entretanto, quando parece que a barca vai a deriva, os homens e mulheres de Fé vislumbram, nos momentos mais críticos, algo que supera todo mal, Jesus acompanha a barca, e tem sob os pés as Forças do Mal, isso é, há bem lá na frente um porto seguro onde a Barca vai chegar. Quando pensamos nessa realidade nova, perceptível á luz da Fé, sentimos medo mais o Senhor nos tranqüiliza "Coragem, sou eu, não temais".
Jesus é o Senhor da História, não é alguém que influenciou a história no passado e que agora deve ser sempre lembrado por seu exemplo, como fazemos com nossos homens ilustres, Jesus está vivo, está vivendo com a Igreja cada momento de sua história, está atento e atuante nas comunidades cristãs, aponta novos rumos e direção a ser seguido, para se chegar à outra margem...
E as comunidades de João, com sua Fé e testemunho de Vida, passou incólume pelas Forças Tenebrosas do Mal e chegou até nós, com o mesmo evangelho, o mesmo anúncio. Essa é a prova inequívoca da presença de Jesus em nossa Igreja, são dois milênios de caminhada. O mar não é sereno, nem nunca será, mas as ondas revoltas e a ventania nada pode contra a Igreja, porque Jesus navega conosco...


Com algumas variantes, o relato também é comum aos evangelhos sinóticos (Mt 14,22-34; Mc 6,45-51; Lc 8,22-25). À exceção de Lucas, nos outros dois sinóticos, como em João, o episódio de Jesus caminhando sobre o mar também segue o relato da multiplicação dos pães. Os elementos simbólicos presentes no texto são o meio de transmitir a mensagem. No universo simbólico, mar e noite apontam para a realidade da morte. O mar, na verdade um lago duzentos metros abaixo do nível do mar, era agitado pelo vento, que formava ondas. Jesus ainda não estava com eles; Jesus é visto por eles caminhando sobre as águas.
Em Jó 9,8, nós lemos: “... ele sozinho estende o céu e caminha sobre o dorso das águas”. Jesus manifesta seu poder divino caminhando sobre as águas. Ele, que é a luz do mundo (Jo 8,12), ilumina a vida dos discípulos, para arrancá-los do medo que imobiliza e distorce a visão: “Sou eu. Não tenhais medo” (6,20). A afirmação de Jesus nos remete ao livro do Êxodo 3,14: “Assim dirás aos israelitas: ‘Eu sou’ me enviou a vós”. O relato pode ser caracterizado como sendo uma epifania em que é revelada a divindade de Jesus.


O processo de reconhecimento de Jesus Ressuscitado foi acontecendo em meio a fadigas e dificuldades que a comunidade encontrava em seu caminho de fé. Ao professar a fé no Ressuscitado, os cristãos viam-se questionados de várias formas. O fato mesmo de fazer a salvação depender de quem fora crucificado deixara-os em crise.
Segundo a mentalidade da época, quem morria na cruz, era tido como um amaldiçoado por Deus. Com Jesus teria sido diferente? Ou será que, de fato, Deus o resgatara da morte, restituindo-lhe a vida, de modo a estar sempre junto dos seus? Essas e outras dúvidas persistiam na comunidade de fé, exigindo uma resposta.
A experiência no lago, por ocasião de uma travessia, revela a situação da comunidade. A escuridão da noite, a força do vento e a agitação do mar impediam os discípulos de perceber Jesus se aproximando. Sua figura perdia-se na nebulosidade. Os discípulos tiveram certa dificuldade para superar a situação. Por sua vez, o Mestre os exortou a não temer, pois ele mesmo estava ali, junto deles. "Sou eu; não tenham medo!"- assegurou-lhes, chamando-os à realidade. A certeza desta presença descortinou-lhes um novo horizonte de segurança e de tranqüilidade.
A comunidade de fé reconhece o Ressuscitado, em meio às adversidades da vida. Importa não se deixar abater, pois ele está no meio de nós.

A multidão segue Jesus por causa dos sinais em favor dos doentes


Comentário baseado no Evangelho de Jo 6,1-15




O relato da multiplicação dos pães, nós o encontramos também na tradição sinótica (Mt 14,13-21; Mc 6,30-44; Lc 9,10-17). A multidão segue Jesus por causa dos sinais que ele realizava em favor dos doentes. O sinal, por sua própria natureza, é ambíguo; precisa sempre ser interpretado, pois remete a outra realidade, diferente daquela imediatamente percebida. Jesus denunciará a cegueira da multidão e o equívoco a que está imersa: “… vós me procurais não por terdes visto sinais, mas porque comestes pão e vos saciastes” (v. 26).
A multiplicação dos pães levou a multidão a considerar Jesus como o verdadeiro profeta, aquele que todos esperavam, desde longa data. O fato de ter alimentado uma imensa multidão, contando apenas com cinco pães de cevada e dois peixes, revelou-se como sinal inequívoco da messianidade de Jesus. Daí o desejo do povo de fazê-lo rei, na esperança de que todos os seus problemas fossem resolvidos da mesma forma eficiente e rápida, que acabavam de presenciar. Foi grande a expectativa criada em torno dele.
Todavia, Jesus não se deixou levar por tal raciocínio demasiado pragmático. O povo não havia entendido o sentido do milagre, uma vez que o consideravam apenas sob o aspecto material de superação da fome pela abundância de pão. O objetivo visado por Jesus era bem outro: ensinar a todos que a partilha fraterna é um sinal irrefutável da presença do Reino, acontecendo na história humana. Por outras palavras: a partilha é um imperativo na vida de quem aderiu ao Reino, fazendo dele o centro de sua vida. Ou seja, o milagre dependeu da postura interna de cada pessoa, e não somente da iniciativa de Jesus.
O Mestre é o verdadeiro profeta não porque multiplicou os pães de forma prodigiosa, à revelia das pessoas, e sim, porque abriu o coração humano para o amor, muito bem expresso na partilha dos bens.

sábado, 6 de abril de 2013

A ALEGRE NOTÍCIA



Comentário do Evangelho de Mc 16,9-15

O encontro de Jesus ressuscitado com Maria Madalena fez dela uma anunciadora da ressurreição. Foi esta a alegre notícia que ela comunicou aos discípulos, e, sem dúvida, a todos os que encontrou, depois, ao longo de sua existência. A partir desta experiência, sua vida deu uma guinada. Ela já não era mais a mesma.
No entanto, o contato com os discípulos foi decepcionante. A Boa Nova que lhes trouxe, não pareceu suficiente para arrancá-los da tristeza e do pranto, e fazê-los abrir-se para a fé. Pelo contrário, continuaram incrédulos! Talvez não tenham sido capazes de superar o preconceito contra as pessoas do sexo feminino, cujo testemunho, naquela época, não era aceito. Não se dava credibilidade às palavras de uma mulher.
A reação dos discípulos não deve ter bloqueado o entusiasmo de Maria Madalena. Outras aparições do Ressuscitado confirmariam suas palavras: o Senhor estava vivo, e sua presença se fazia real na vida de quem o encontrava.
Da mesma forma, os discípulos, aos quais Jesus aparecera enquanto se dirigiam para o campo, tinham ido, às pressas, contar o fato aos demais. E também se debateram com a incredulidade dos companheiros.
Independentemente da reação dos ouvintes, quem experimentou a presença do Ressuscitado é impelido a anunciar a todo mundo esta experiência transformadora.

Jesus chama atenção para a falta de fé



Comentário do Evangelho de Mc 16,9-15



É preciso ler mais adiante do que a liturgia de hoje nos oferece. Originalmente, o evangelho de Marcos terminava em 16,8. Ainda que Mc 16,9-20 seja o fim deste evangelho na sua forma canônica, a ausência destes versículos em manuscritos importantes e a análise do vocabulário, entre outros, levam os especialistas a afirmar que estes versículos, antes de ser inseridos no segundo evangelho, tiveram uma existência independente. Trata-se de uma perícope composta a partir de outros textos do Novo Testamento, sobretudo, Lucas, Atos e o capítulo 20 de João.
Como o evangelho de Marcos não possui um relato sequer das aparições, o autor da inserção do trecho quis, servindo-se dos textos supramencionados, fazer um resumo dos relatos das aparições do Senhor, com a missão dada aos Onze e o relato da ascensão do Ressuscitado.
A falta de fé dos discípulos (vv. 11.13), criticada por Jesus (14b), é um tema importante da perícope, e é atribuída à dureza de coração (cf. 14b). A fé no Ressuscitado é dom oferecido do testemunho: “Ele os criticou… porque não tinham acreditado naqueles que o tinham visto ressuscitado” (v. 14c).