sexta-feira, 28 de junho de 2013

COMPLETOU-SE O TEMPO...


Lucas 1,57-66.80



Nossa vida de fé é marcada por muitas promessas, a primeira delas no Batismo, quando pais e padrinhos, falando por nós prometem e se comprometem em professar uma fé viva, capaz de um testemunho autêntico diante do filho ou do afilhado, e na unção crismal prometemos acolher em nossa vida o dom do Espírito Santo e deixarmo-nos conduzir por ele.
O “amém” ao receber a Eucaristia não deixa de ser também uma promessa, de viver sempre em comunhão com Jesus, e nos sacramentos da ordem ou do Matrimônio, prometemos viver um amor total de entrega e doação à Santa Igreja, ou um ao outro, na vida conjugal. Fazemos muitas promessas diante de Deus, antes de receber o sinal sacramental e sabemos muito bem, que por causa dos nossos pecados, muitas vezes quebramos promessas sagradas, quando acontecem as separações, o abandono da comunidade ou de uma vocação religiosa.
Não é de hoje que o homem não cumpre suas promessas diante de Deus, à Bíblia está repleta de relatos onde as pessoas, e próprio povo descumpriu algo prometido diante de Deus. Entretanto, não encontramos uma só palavra ou frase, no antigo ou no novo testamento, onde afirme que Deus deixou de cumprir alguma de suas promessas, feitas para o homem.
A natividade de João Batista, único santo que no calendário da Igreja, tem comemorado o seu nascimento, se reveste de fundamental importância na história da salvação, justamente por ser um elemento divisor entre o tempo chamado das promessas, e o tempo do cumprimento das mesmas.
Há na religiosidade do povo brasileiro uma prática que a modernidade não conseguiu matar: a de fazer promessas! Todas as promessas são feitas para Deus, mas com a intercessão dos santos. A história da Salvação teve início com uma promessa, feita pelo próprio Deus. Ele prometeu através de líderes como Moisés, dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, dos profetas e demais homens e mulheres de Deus.
“Terminou para Isabel o tempo da gravidez e ela deu a luz um filho...”. Este não é um nascimento qualquer de um israelita, Lucas faz questão de salientar que se completou o tempo de gestação, o tempo de espera, e o útero de Isabel, antes estéril e incapaz de gerar vida, tocado por Deus torna-se fértil, simbolizando de repente o coração de todo um povo, cansado de sofrer, de andar por caminhos errados, por atalhos que só levavam à morte, guiados por falsos líderes, toda a esperança que este povo guardava no coração nas promessas de Deus, irrompe agora como um lençol dágua que fura a rocha e flui à flor da terra, para saciar os sedentos de esperança e de vida nova.
João Batista é a resposta de Deus aos anseios do povo, após um silêncio de quase três séculos! Inspirados por Deus, todos os profetas haviam falado deste tempo novo, para consolar e fortalecer um povo desiludido, desmotivado, esmorecido e sem esperança, certamente esses profetas foram tidos como loucos, sonhadores, fantasiosos, mas muitos guardaram no coração essas promessas, e souberam transmiti-las de geração em geração, sem deixar morrer a esperança, o próprio Zacarias, sacerdote do templo e pai de João Batista, faz parte deste povo que espera, seu nome significa “Deus se recordou”.
A sua súbita mudez, longe de ser um castigo, é prenúncio do tempo feliz que com ele irá se iniciar, e ao apresentar a criança no templo, para ser circuncidado como era costume, ele confirma o nome de “João” que significa “Aquele que anuncia” e recuperando a voz, glorifica a Deus que visitou o seu povo.
Que significado tem, para nós cristãos, a celebração do nascimento de João Batista neste 24 de Junho? Se ficarmos apenas na popularidade e nos festejos joaninos típicos desta data, iremos nos divertir muito, mas certamente não iremos aprender nenhuma lição.
O nosso povo, tanto quanto aquele povo de Israel, em meio aos sofrimentos físicos e morais, também têm guardado no coração essa esperança, de que um dia o bem supremo irá triunfar sobre as forças do mal, é verdade que conforme os dias vão passando, as vezes o desânimo vai tomando conta do coração de muitos que perderam a crença em Deus, no amor e na própria vida, são certas promessas mirabolantes que nunca se realizam, são líderes charlatães que iludem, enganam, roubam. São lideranças religiosas que não cumprem e nem honram seu papel de ministros de Deus, criando uma religião fantasiosa, que explora e cria tantas ilusões.
João vislumbra algo que ninguém tinha ainda vislumbrado: que o reino já estava no meio dos homens, na pessoa e na missão de Jesus de Nazaré. Anuncia a necessidade de uma mudança de mentalidade e de coração, para acolher este reino novo, que não se fundamenta em mentiras e fantasias, mas na Verdade que é Jesus Cristo, o Cordeiro que tira o pecado do mundo.
Olhando para a origem de João, seu nascimento e a missão de precursor do Messias, que Deus lhe confiou, podemos refletir sobre tais acontecimentos à luz do evangelho, e mais do que refletir, já está na hora de vivermos esse evangelho, que fala de um tempo novo, de um reino que já está entre nós e que consegue restituir ao coração humano toda essa Esperança que é Jesus de Nazaré, pois como João Batista, todos nós nascemos para ser os portadores e anunciadores dessa Boa Nova, ao homem descrente deste terceiro milênio.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

ANUNCIANDO A PAIXÃO



Comentário baseado no Evangelho Lc 9,18-24

A questão apresentada por Jesus aos discípulos, a respeito de sua identidade, situa-se num momento crucial de sua vida. Por um lado, as multidões não haviam compreendido bem o tipo de messianismo vivido pelo Mestre. Ele se apresentava como Messias-servo, ao passo que o povo esperava um Messias cheio de glória e majestade. Por outro lado, autoridades políticas, como Herodes, perguntavam-se: "Quem poderá ser este de quem ouço tais coisas?" O que se passava com os discípulos? Sua fé era consistente e estavam realmente preparados para subir com Jesus até Jerusalém?
A questão apresentada aos discípulos visava explicitar-lhes a fé no Messias Jesus. A resposta de Pedro, embora verdadeira, carecia de reparos. O Messias estava destinado a sofrer nas mãos dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar no terceiro dia. A causa do sofrimento estaria relacionada com seu modo de viver. Longe de buscar glórias mundanas, Jesus colocava-se ao lado dos pobres e marginalizados, vivia uma experiência de Deus muito diferente da preconizada pela religiosidade da época, anunciava um Reino de igualdade e solidariedade, muito mais exigente do que, até então, se conhecia. Sua morte decorreria de sua opção de ser solidário e servidor. Daí o Pai decidir ressuscitá-lo.
Quem quisesse segui-lo, deveria considerar atentamente este aspecto. Caso contrário, estaria nutrindo esperanças vãs.


A vida é ganha na entrega sem reservas


Comentário baseado no Evangelho Lc 9,18-24


O texto do evangelho deste domingo, conhecido como "profissão de fé de Pedro", seguido do anúncio da paixão, morte e ressurreição, é a sequência do relato da confusão de Herodes que, ouvindo falar de Jesus, não pode conhecer sua verdadeira identidade (vv. 7-9); e do relato da multiplicação dos pães em que Jesus alimenta abundantemente uma multidão de uns cinco mil homens (vv. 10-17).
A dupla pergunta posta aos discípulos revela a preocupação de Jesus de que sua missão e a sua verdadeira identidade não estejam sendo compreendidas. O autor do quarto evangelho apresenta esta preocupação de modo claro: "Vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comestes e ficastes saciados" (Jo 6,26).
Na primeira parte do texto há uma dupla pergunta: "Quem dizem as multidões que eu sou?" (v. 18), e "quem dizeis que eu sou?" (v. 20).
À resposta acerca da opinião da multidão, Jesus não faz nenhum comentário. A resposta acerca da opinião da multidão confirma a suspeita de incompreensão. Mesmo que a pessoa de Jesus suscite perguntas e provoque a opinião das pessoas, a multidão continua voltada para o passado de Israel, incapaz de perceber e reconhecer a irrupção da visita salvífica de Deus (Lc 1,68; 7,16). É a vez de os discípulos se engajarem na resposta à pergunta: "E vós, quem dizeis que eu sou?"
A resposta é mais importante para os discípulos do que para Jesus. Dela dependerá a adesão ou não ao Senhor. Pedro, como porta-voz de todos os demais, toma a iniciativa: "O Cristo de Deus" (v. 20). Isto significa: o Messias prometido e esperado, aquele que é habitado pelo Espírito Santo (cf. Lc 3,22; 4,1.18).
Jesus impede os discípulos de divulgarem o que Pedro acaba de proclamar. Isto porque será preciso esclarecer de que Messias se trata; talvez o Messias que Jesus é não seja exatamente o que os próprios discípulos pensavam ter encontrado (ver: Mc 8,32-33). Mas também é verdade que cada um deve dar a sua resposta. É neste ponto que Jesus anuncia, pela primeira vez no evangelho segundo Lucas, sua paixão, morte e ressurreição (v. 22).
Este anúncio tem consequências para os Doze como para todos os discípulos. Em primeiro lugar, eles devem se distanciar da opinião da multidão e se engajarem, na fé, na verdadeira missão de serviço, e não de poder. Em segundo lugar, o caminho de Jesus passa a ser o caminho necessário de todos os que aderem, pela fé, e livremente, à sua pessoa: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo…" (v. 23).

A cruz passa a fazer parte da vida do discípulo. É a forma de superar todo egoísmo que fecha a pessoa sobre si mesma. Paradoxalmente, a vida é ganha na entrega sem reservas: "... quem quiser salvar sua vida a perderá, e quem perder sua vida por causa de mim a salvará" (v. 24).


Quem sou eu para vocês?


Comentário baseado no Evangelho Lc 9,18-24

Quando vamos à celebração da Palavra ou da santa Missa, quando recebemos algum sacramento, quando vivemos o nosso dia a dia, rezando em alguns momentos, trabalhando ou estudando, dirigindo no transito, conectados a internet, assistindo TV, em um estádio de futebol, em uma chácara ou na piscina, na praia ou no campo, nos desafios do trabalho pastoral ou no exercício de um ministério, será que a nossa conduta é coerente com aquilo que pensamos de Jesus?
Jesus não está preocupado com a sua imagem, ou conceito ou o discurso que se faz dele, mas quer saber qual a importância dele em nossa vida, nas decisões do dia a dia, em certas atitudes que somos obrigados a tomar, na vida em família, na comunidade, no trabalho ou na escola, quando estamos alegres ou tristes, quando estamos atarefados e com mil preocupações á cabeça, ou quando estamos tranquilos e em paz, quando estamos endividados ou quando pagamos todas as nossas contas, é aí que precisamos definir quem é ele em nossa vida, o que ele representa, ou a diferença que faz, crer ou não crer, viver a Fé ou ignorá-la, assumir ou não assumir o Batismo, ser igreja ou não ser de nada...
Ir sempre, vestir a camisa, ou ir de vez em quando e manter um pé atrás, sempre desconfiados com essa Igreja de Cristo, conduzida por homens. Note-se que a indagação é feita ao grupo e que podemos interpretar assim: qual é o Jesus de nossas comunidades e paróquias? Pois é aí que somos Igreja.
O discurso que se faz sobre Jesus é sempre muito bonito, certos pregadores conseguem arrancar lágrimas dos seus ouvintes. Mas... e depois... .o que muda ou o que fica? Na verdade, nesse 12º Domingo do tempo comum, estamos diante de dois modelos distintos, o Jesus da Pós Modernidade, que é um Jesus bem light, liberal, bem açucarado, sem muitas exigências, um Jesus que “pega leve” e vai minimizando ou relativizando a Lei do Senhor e os valores do evangelho, o caráter doutrinário em questões polêmicas como: pena de morte, aborto, do adultério e todas essas coisas que nos incomodam.
Um Jesus bem aprumado, olhos azuis, loiro, dois metros de altura, de um Jesus que pede uma conversão, que não precisa ser tão radical. Um Jesus que vira e mexe, faz algum milagre, chamando unicamente para si, a responsabilidade de fazer as mudanças acontecerem, se a coisa não anda e está emperrada, chama Jesus e está resolvido. Esse Jesus da Pós Modernidade faz um sucesso tremendo, lota templos, estoura a audiência, agrega multidões e acima de tudo, ajuda a encher os cofres dos espertalhões da Fé, que juram serem os emissários de Deus, podendo garantir ainda nesta vida, um cantinho no céu para os que forem fiéis seguidores desse “Jesus” idealizado pela Pós-modernidade.
O Jesus que se apresenta diante dos discípulos e diante de todos nós, neste evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, não é um Jesus de muito sucesso. Principalmente por que fala em sofrimento, padecimento, rejeição e morte, uma catástrofe para a Pós Modernidade, quem vai querer seguir um Jesus assim? Nós mesmos, que somos cristãos de “carteirinha”, quantas vezes, diante de um sofrimento iminente, não rezamos, pedindo para que Deus afaste de nós tal dissabor... Não é mesmo? Sofrimento e pós-modernidade, são palavras que não combinam.
E no final do evangelho, o que já era ruim, ficou ainda pior: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo, tome a sua cruz de cada dia e siga-me, pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la, mas quem sacrificar a sua vida, por causa de mim, irá salva-la”. Com um discurso assim, as Igrejas irão esvaziar-se, e Jesus vai ficar falando sozinho, porque renúncia e desapego, também não combinam de forma alguma, com a pós-modernidade, que nos ensina a sempre ganhar, nunca perder!
Será que não existe aí uma alternativa? Um modo mais brando de se viver a Fé e frequentar a comunidade, sem que haja necessidade de encarar uma “cruz” no meio do caminho? Infelizmente nas palavras de Jesus não há atenuantes, ou aceitamos viver esses ensinamentos, ou então desistimos, tiramos o time de campo, enquanto ainda é tempo, mesmo porque, o Reino é uma proposta... “Se alguém quiser...”.
Ninguém precisa casar na igreja, batizar-se, fazer catequese, ser confirmado na Fé, confessar-se, receber a Eucaristia, receber o Sacramento da Ordem, ou a unção que nos fortalece na enfermidade, enfim, ninguém é obrigado a crer no Senhor Jesus e ser discípulo, e nem por isso Deus irá deixar de amar, aquele que assim agir. Trata-se de uma proposta, para quem quiser desinstalar o sistema em sua vida, contaminado pelo hacker do pecado, e reiniciar o processo, agora configurado com o homem novo Jesus Cristo, o primogênito de toda criatura.
Uma proposta revolucionária para homens e mulheres ousados, dispostos a transformar o mundo com o seu testemunho, porque tem forças suficientes na graça de Deus, mastigando os “freios” da pós-modernidade, libertando-se do cabresto e trilhando um caminho novo, fazendo uma história nova, exatamente nas pegadas de Jesus de Nazaré, Aquele que vai á frente das comunidades, mostrando a plenitude que aguarda todos os que vivem pela Fé, sem medo de Ser Feliz, passando pela “morte” que leva á Vida.

Deixo para as comunidades cristãs, essa pergunta que sempre me faço: Que Jesus é o nosso? Será que podemos anunciá-lo com toda firmeza e convicção, ou como Pedro, ouviremos dele um solene “cala a boca?” (12º Domingo do Tempo Comum – Lc 9, 18-24)

Onde por o coração?



Comentário baseado no Evangelho de Mt 6, 19-23.

O ser humano é posto diante de uma escolha decisiva e irrenunciável: onde pôr o coração, isto é, em que engajar toda a vida? Não há meio termo: "... onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração" (v. 21).
Trata-se de desapegar-se de tesouros ilusórios. Cada coração, cada pessoa, possui um tesouro. Cada ser humano liga a sua vida a um valor que move sua ação e decisões. Os bens da terra são postos em oposição aos bens celestes (vv. 19.20), mas o que importa é o engajamento do coração. Ao cristão importa juntar tesouros no céu (cf. v. 20).
O que é passageiro é só aparência; é preciso pôr a vida naquilo que não passa. Olho é uma fonte de desejo (vv. 22-23). Será luz e, portanto, iluminará a vida do ser humano à medida que o desejo for bom, isto é, por tudo aquilo que for "do céu". Mas, se o olho desejar o mal, ele conduzirá às trevas, outro nome do pecado: "Olhar altivo, coração orgulhoso, a lâmpada dos ímpios não é senão pecado" (Pr 21,4).
A parábola do tesouro imperecível está calcada numa idéia corrente no judaísmo, segundo a qual existe um tesouro celeste, não sujeito à corrupção. Imaginava-se que as boas obras acumulavam crédito, a ser resgatado no dia do juízo final. Por isso, no AT, o velho Tobias aconselhou seu filho a dar esmolas, segundo suas posses. Na abundância, deveria ser generoso com os pobres. Na carência, deveria partilhar do seu pouco. A motivação dada era a seguinte: "Assim acumulas em teu favor um precioso tesouro para o dia da necessidade".
O discípulo do Reino ajunta um tesouro no céu, mediante suas boas obras. No contexto do Sermão da Montanha, estas correspondem ao conjunto de atitudes e comportamentos compatíveis com os ensinamentos precedentes - Bem-aventuranças e Antíteses -, e com o que seguirá. O discípulo encontra, neste Sermão, as pautas de ação correspondentes à vontade do Pai, para as quais está reservada a devida recompensa.
Deixar-se guiar por outros parâmetros é pura insensatez. Seria semelhante a ajuntar tesouros efêmeros, fáceis de serem destruídos e roubados.
O mais sensato é optar pelos ensinamentos de Jesus e deixar-se guiar por eles, pois são portadores de recompensa e podem garantir a vida eterna, junto do Pai. Fora das palavras de Jesus, só existe frustração.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Simplicidade e Humildade...

Comentário baseado no evangelho de Lc 2,41-51


Em nossas comunidades ocorre uma situação não muito diferente desse quadro que se apresenta aos olhos de Jesus, narrado por São Marcos, onde os afortunados desfilavam de maneira ostentosa na hora de levar a sua oferta para o lugar a elas destinado. Sem discutir aqui a questão do valor do dízimo que ofertamos, vamos conduzir a mesma reflexão em uma outra direção: vamos como Jesus observar com atenção a comunidade, há nela uma verdadeira passarela onde ostentamos nossos carismas e talentos naturais, gostamos muito de rasgação de seda, e chuva de confetes sobre nós, e assim nossos egos são constantemente alisados e nos sentimos sempre lisonjeados pelo que fazemos, e do modo como fazemos. É a mesma situação que Jesus presencia no templo, onde muitos ricos depositavam grandes quantias.
De repente, no meio de tantos talentos grandiosos de causar admiração, surge aquela viúva que devia ser idosa, não entrou na fila da oferta de cabeça baixa, constrangida pelas suas duas pequeninas moedinhas que carregava para ofertar, mas com consciência de quem sabe que está dando tudo de si, colocou na cesta de coleta e voltou ao seu lugar na assembleia. Jesus não olhou o valor, mas o modo como estava sendo ofertado.
Certamente os que ofertavam grandes quantias eram os “Mandões” da comunidade, suas ofertas eram como se fossem quotas de participação no empreendimento, exigiam prestação de contas e não admitiam que se tomassem decisões sem consultá-los previamente.
Mas e a nossa viúva, quem era ela na comunidade? Era alguém considerada? Ouviam sempre sua opinião? Davam-lhe sempre atenção necessária? Chamavam-na para participar da reunião do Conselho? Estamos acostumados a pensar que pessoas simplesinhas dessa maneira, só atrapalham porque nunca têm uma opinião formada e, coitadinhas, às vezes nem sabem falar o que pensam...
Recentemente o nosso Arcebispo foi laureado em uma Universidade local, com o título de “Doutor em Honoris Causa”, e no momento em que fez os agradecimentos, mandou levantar-se uma mulher humilde que estava ali na assembleia e afirmou “Essa é minha convidada muito especial, trata-se da minha cozinheira, e sem ela o meu intelecto nem funcionaria direito, por isso reparto com ela esse título que vocês me concedem”.
E nesse momento a mesa das autoridades e toda a assembleia aplaudiu com entusiasmo aquela mulher tão simples, que se sentiu valorizada e que, quem sabe, jamais poria os pés em uma Universidade, a não ser para trabalhar na cozinha...
Há em nossas comunidades irmãos e irmãs que aparentemente dão pouco, mas pelo modo como dão, superam aos talentosos e importantes, porque se dão com toda humildade e alegria, oferecendo o melhor de si naquilo que fazem...
O relato de Jesus no Templo, aos doze anos, idade em que Jesus assume as obrigações legais tornando-se "filho do preceito", é a transição dos relatos da infância para o relato do seu batismo e de toda a sua missão. Todo o episódio está centrado na primeira palavra de Jesus que, por sua vez, está voltada para o futuro, e não para a sua infância: "Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?" (v. 49). Esta palavra confirma a mensagem do anúncio do nascimento de Jesus: "… será chamado Filho de Deus" (1,35), e é prelúdio das revelações do evangelho.
Maria e José não compreenderam o que ele lhes dissera, e sua mãe "guardava todas estas coisas no coração". Maria, como também José, terá que fazer a mesma peregrinação pela qual se chega à compreensão do mistério da encarnação e do nascimento de Jesus. Será preciso acompanhar o desenvolvimento do filho, passar a vida com ele, sofrer com ele a paixão, experimentar a ruptura da morte, para que no advento da Luz da ressurreição ela possa compreender o mistério daquele que ela gerou.


Deus não desiste de ninguém que ele criou à sua imagem



Comentário baseado no evangelho de Lc 15,3-7.



A festa do Sagrado Coração de Jesus é a festa do amor de Deus, manifestado em Jesus Cristo, por toda a humanidade. Que o Senhor faça o nosso coração semelhante ao Seu: compassivo, cheio de misericórdia.
O capítulo 15 do evangelho segundo Lucas é composto de uma sucessão de três parábolas de misericórdia. As parábolas são a resposta de Jesus à murmuração dos escribas e fariseus: "Este homem recebe os pecadores e come com eles!". Na tradição bíblica, Deus é o pastor (Sl 23[22]) que procura a ovelha que se perdeu: "Procurarei as ovelhas perdidas, recolherei as desgarradas, curarei as feridas e as doentes…" (Ez 34,16). Deus não desiste de ninguém que ele criou à sua imagem: deixando em segurança as outras ovelhas, ele vai atrás da que se perdeu até encontrá-la (cf. v. 4).
Já no capítulo quinto, Jesus respondeu a questão semelhante: "... os sãos não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas os pecadores para que se convertam" (5,31-32). A alegria de Deus é a conversão dos seres humanos. Portanto, a atitude de Jesus de acolher bem os pecadores está fundamentada no modo como Deus age. A parábola é ocasião de afirmar, como nos capítulos 5,31-31 e 19,10, a missão de Jesus.
A morte de cruz foi, na vida de Jesus, a expressão consumada de seu amor pela humanidade pecadora e de sua fidelidade ao Pai. Ela resumiu seu projeto de serviço ao Reino de Deus e comprovou que sua vida estava totalmente centrada no Pai.
A cena do coração de Jesus, transpassado pela lança com o conseqüente jorrar de água e sangue, foi carregada de simbolismo sacramental. Do coração de Jesus, brotava a água do Batismo, que purificaria o cristão do pecado e refaria seu relacionamento com Deus. Pelo Batismo, o cristão se converteria ao amor e ao perdão, redescobriria a importância da comunhão fraterna e passaria a fazer parte do povo novo, salvo por Jesus. O sangue jorrado do coração de Jesus simbolizava a Eucaristia, em que sua paixão e morte seriam revividas como memorial, recordando, sem cessar, a presença de seu sacrifício redentor, na história humana.

O coração transpassado não correspondeu à pura constatação de que Jesus, realmente, tinha chegado ao fim. Pelo contrário, a abundância de água e sangue apontavam para a inauguração de tempos novos. Do coração aberto nasceria a Igreja, cuja missão seria levar adiante a obra redentora de Jesus e manter viva sua memória na consciência da humanidade, mediante um testemunho de vida modelado em Jesus. Seu coração seria um apelo aos cristãos para viverem o amor e manifestarem sua fidelidade ao Pai, até o extremo.





quinta-feira, 6 de junho de 2013

MARIA, NOSSA REFERÊNCIA!


Lucas 1,39-56
Muitas vezes me perguntei, o que teria Maria ido fazer na casa de sua parenta Isabel, cujo caminho montanhoso era íngreme e distanciava mais ou menos 40 km de sua casa. Ela não foi sozinha, provavelmente acompanhou alguma caravana que seguia para aqueles lados, pois sozinha seria muito arriscado. A catequese Lucana nos dá a entender que Maria foi para servi-la, preocupada com a situação delicada da sua parenta, avançada em anos. Mas prestemos muita atenção na conversa dessas suas mulheres, nesse roteiro catequético muito bem preparado e magistralmente produzido por Lucas.
O que teria a ver essa visita com a História da Salvação, e por que Lucas registrou em seu evangelho essa conversa entre Maria e Isabel?  Isabel, estéril e avançada em anos, como nos diz o texto, é o resumo da História do Povo de Israel, que havia feito uma grande caminhada na História, animados pelas promessas de Deus, mas até aquele momento nada de especial tinham visto e mesmo os profetas, que eram os porta-vozes de Deus, havia 300 anos que Deus não suscitava profetas no meio do povo. Os mais céticos achavam que Deus havia se esquecido do seu Povo e não faltava os mais incrédulos ainda que diziam ser tudo aquilo das Promessas Divinas uma grande lorota. Podemos dizer que nesse encontro de Maria e Isabel, Deus tomou a pena de novo para começar a reescrever a História, com o final do tempo das promessas e a chegada dos templos da Plenitude.
Maria é uma menina, que vai ser a primeira Discípula de Jesus, a primeira Cristã, a primeira Mulher do Povo da Nova Aliança. É a portadora do Germe Divino que Deus havia prometido. Podemos dizer que essa passagem é o epílogo de todo Antigo Testamento, e ao mesmo tempo o início do Novo. De um ventre seco e do seio de uma Virgem, de maneira prodigiosa  Deus interfere com o seu Espírito e a Fertilidade supera a esterilidade, o Possível Divino suplanta o impossível Humano.
Na resposta de Isabel ao Shalom desejado por Maria, quando chegou a sua casa, encontramos o Antigo Testamento, que exulta com o Novo. No vente de Isabel, João Batista, o último dos profetas do Antigo Testamento, manifesta alegria pela presença do Salvador.  Aquela que acreditou nas promessas é Bendita, porque agora, não só vai vê-las ser realizadas, mas terá o privilégio de participar delas. Quase nada poderia a pobre serva fazer, para que se cumprissem as Promessas Messiânicas feitas a seu Povo.  Quem era ela afinal? Apenas uma adolescente, moradora de um vilarejo montanhoso chamado Nazaré. Dela nada poderia se esperar...
Também de nossas comunidades, principalmente as mais simples e pequenas, não se pode exigir nenhum grande empreendimento que mude os destinos da Humanidade. Mas é precisamente aí que Deus mora, plantando o Germe Divino, fazendo a Encarnação acontecer de Novo, trazendo uma grande e inexplicável alegria á nossa alma. Nos pequenos e nos simples, que confiam e esperam, tudo se renova e recomeça, a cada momento, a cada dia.
O relato da visita de Maria à prima Isabel é a conclusão dos relatos das duas anunciações (Lc 1,5-25.26-38). Assim como a gravidez de Isabel é objeto de revelação a Maria, do mesmo modo a de Maria é objeto de revelação a Isabel. A revelação de Isabel vem do fato de a criança pular em seu ventre: “Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou de alegria em seu ventre, e ela ficou repleta do Espírito Santo” (v. 41). A Isabel, pela graça do Espírito Santo, é dado conhecer não somente que Maria está grávida, mas que o menino é o Messias: “Como mereço que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (v. 43). Pulando de alegria no ventre de Isabel, João começa a realizar sua missão de precursor.
A cada uma das mães Lucas atribui um cântico. A Isabel, o do v. 42: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre”. A Maria, o Magnificat (vv. 46-55), um hino de louvor a Deus, composto com um mosaico de referências bíblicas.

A fé eclesial, contemplando Maria a partir do Mistério Pascal de Jesus, professa que ela, no término de sua caminha terrestre, foi elevada ao céu. A Igreja fala em assunção, ou seja, Maria foi assumida por Deus e colocada na glória celeste. Trata-se da ação de Deus fazendo grandes coisas na vida da mãe do Salvador. Não uma ação isolada, e sim, o ápice de uma sucessão de graças na vida de quem foi cheia de graça.
A assunção de Maria brotou da Ressurreição de Jesus. É como se Maria tivesse seguido o caminho novo de acesso ao Pai, aberto pelo Filho Jesus. Deus, de certo modo, antecipou em Maria o que haveria de ser o destino de toda a humanidade. A Ressurreição de Jesus foi penhor de ressurreição para todo ser humano. Em Maria, isto já se fez realidade. 

A assunção situa-se no contexto da fé de Maria. Ela havia proclamado que Deus exalta os humildes e destrói a segurança dos soberbos. Sua vida caracterizou-se pela humildade e pelo espírito de serviço. Ela se sabia serva humilde do Senhor, transcorrendo sua vida no escondimento. A condição de mãe do Messias não a tornou orgulhosa e cheia de si. A Maria exaltada na assunção foi a mulher humilde e servidora. Deus levou para junto de si a mulher cuja vida transcorrera em total comunhão com ele. A assunção, por conseguinte, consistiu na radicalização de uma experiência constante na vida de Maria.





Padre Luiz Gilderlane

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se alguem quizer conversar sobre esses assuntos....