Comentário baseado no evangelho de Lc
2,41-51
Em nossas comunidades
ocorre uma situação não muito diferente desse quadro que se apresenta aos olhos
de Jesus, narrado por São Marcos, onde os afortunados desfilavam de maneira
ostentosa na hora de levar a sua oferta para o lugar a elas destinado. Sem
discutir aqui a questão do valor do dízimo que ofertamos, vamos conduzir a
mesma reflexão em uma outra direção: vamos como Jesus observar com atenção a
comunidade, há nela uma verdadeira passarela onde ostentamos nossos carismas e
talentos naturais, gostamos muito de rasgação de seda, e chuva de confetes
sobre nós, e assim nossos egos são constantemente alisados e nos sentimos
sempre lisonjeados pelo que fazemos, e do modo como fazemos. É a mesma situação
que Jesus presencia no templo, onde muitos ricos depositavam grandes quantias.
De repente, no meio de
tantos talentos grandiosos de causar admiração, surge aquela viúva que devia
ser idosa, não entrou na fila da oferta de cabeça baixa, constrangida pelas
suas duas pequeninas moedinhas que carregava para ofertar, mas com consciência
de quem sabe que está dando tudo de si, colocou na cesta de coleta e voltou ao
seu lugar na assembleia. Jesus não olhou o valor, mas o modo como estava sendo ofertado.
Certamente os que
ofertavam grandes quantias eram os “Mandões” da comunidade, suas ofertas eram
como se fossem quotas de participação no empreendimento, exigiam prestação de
contas e não admitiam que se tomassem decisões sem consultá-los previamente.
Mas e a nossa viúva,
quem era ela na comunidade? Era alguém considerada? Ouviam sempre sua opinião?
Davam-lhe sempre atenção necessária? Chamavam-na para participar da reunião do
Conselho? Estamos acostumados a pensar que pessoas simplesinhas dessa maneira,
só atrapalham porque nunca têm uma opinião formada e, coitadinhas, às vezes nem
sabem falar o que pensam...
Recentemente o nosso
Arcebispo foi laureado em uma Universidade local, com o título de “Doutor em
Honoris Causa”, e no momento em que fez os agradecimentos, mandou levantar-se
uma mulher humilde que estava ali na assembleia e afirmou “Essa é minha
convidada muito especial, trata-se da minha cozinheira, e sem ela o meu
intelecto nem funcionaria direito, por isso reparto com ela esse título que vocês
me concedem”.
E nesse momento a mesa
das autoridades e toda a assembleia aplaudiu com entusiasmo aquela mulher tão
simples, que se sentiu valorizada e que, quem sabe, jamais poria os pés em uma
Universidade, a não ser para trabalhar na cozinha...
Há em nossas comunidades
irmãos e irmãs que aparentemente dão pouco, mas pelo modo como dão, superam aos
talentosos e importantes, porque se dão com toda humildade e alegria,
oferecendo o melhor de si naquilo que fazem...
O relato de Jesus no
Templo, aos doze anos, idade em que Jesus assume as obrigações legais
tornando-se "filho do preceito", é a transição dos relatos da
infância para o relato do seu batismo e de toda a sua missão. Todo o episódio
está centrado na primeira palavra de Jesus que, por sua vez, está voltada para
o futuro, e não para a sua infância: "Por que me procuráveis? Não sabíeis
que devo estar na casa de meu Pai?" (v. 49). Esta palavra confirma a
mensagem do anúncio do nascimento de Jesus: "… será chamado Filho de
Deus" (1,35), e é prelúdio das revelações do evangelho.
Maria e José não
compreenderam o que ele lhes dissera, e sua mãe "guardava todas estas
coisas no coração". Maria, como também José, terá que fazer a mesma
peregrinação pela qual se chega à compreensão do mistério da encarnação e do
nascimento de Jesus. Será preciso acompanhar o desenvolvimento do filho, passar
a vida com ele, sofrer com ele a paixão, experimentar a ruptura da morte, para
que no advento da Luz da ressurreição ela possa compreender o mistério daquele
que ela gerou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário