sábado, 5 de outubro de 2013

Importância da Fé


Comentário baseado no Evangelho de Lc 17,5-10



O que importa, aqui, não é o tamanho da fé, mas em que ela nos faz apoiar nossa vida e nossa vocação.
Talvez, muitos leitores do evangelho de hoje se sintam confusos pelo que aí é dito; outros tantos se deixarão levar pelo imediatamente percebido na leitura, sem aprofundar o sentido do texto. Tentemos ajudar o leitor a conhecer a mensagem que o autor quis transmitir com o seu texto.
"Aumenta a nossa fé!" (v. 5). Esta é a súplica dos apóstolos, os enviados. A fé é fundamentalmente adesão à pessoa de Jesus Cristo e, em razão dessa adesão, ela se transforma em testemunho. Tendo já sido enviados em missão (9,1-6), os apóstolos experimentaram a necessidade de uma comunhão estreita com Jesus. Sem esta relação estreita, o "sucesso" da missão fica comprometido. A fé oferece a possibilidade de fazer tudo em Deus, sem se deixar seduzir pelo prestígio, nem desanimar pelo fracasso. A fé está ligada à missão. Diante da súplica dos Doze, que também é a nossa, Jesus responde: "Se tivésseis fé, mesmo pequena como um grão de mostarda, poderíeis dizer a esta amoreira: 'Arranca-te daqui e planta-te no mar', e ela vos obedeceria" (v. 6). A fé, dizemos nós, remove montanhas! É preciso bem compreender, pois o que importa, aqui, não é o tamanho da fé, mesmo porque ela não é mensurável, mas em que ela nos faz apoiar nossa vida e nossa vocação. É a confiança no poder de Deus, na palavra de Cristo, que pode transformar a realidade tanto pessoal como social. É Deus quem age, não importa qual seja a nossa fé ou o nosso grau de confiança nele. Quando a ação do discípulo no desempenho de sua missão é feita em nome do evangelho, não há nada que seja impossível. "Para Deus tudo é possível", dirá o Anjo Gabriel a Maria (1,37). Para o discípulo apoiado na palavra de Jesus Cristo, não há nada que possa desencorajá-lo.

"Somos simples servos…" (v. 10). Muitas vezes nós traduzimos esta frase deste modo: "Somos servos inúteis!". Se o fôssemos, porque Deus nos chamaria ao seu serviço? A questão é outra. Em primeiro lugar, o apóstolo é servidor de Deus e dos homens. Antes de se assentar à mesa, no banquete do Reino de Deus, há um trabalho a ser feito, o anúncio do Reino, o testemunho de Jesus Cristo (cf. At 1,8). Em segundo lugar, a expressão "simples servos, pois fizemos o que devíamos ter feito" diz respeito à gratuidade do serviço. A recompensa do apóstolo é Deus mesmo, seu verdadeiro salário é ser admitido como operário na vinha do Senhor. Quem é enviado não tem nenhum direito sobre Deus, nem sobre seus semelhantes. A gratuidade exige não só deixar de buscar recompensa, mas renunciar ao prestígio pessoal e à segurança pessoal. Deus é a sua força e proteção.

O que é a Fé?

Comentário baseado no Evangelho de Lc 17,5-10

 

Eis um evangelho onde, se o leitor não prestar muita atenção, irá pensar que são dois assuntos diferentes que Jesus está tratando. Os apóstolos lhe fazem um pedido que nós todos sempre fazemos: Para que Deus aumente a nossa Fé! Jesus acolhe o pedido, mas vai lhes dizer que “Se a Fé que eles tinham fosse tão pequenina como o de um grão de mostarda, conseguiriam até arrancar uma amoreira e fazê-la sozinha plantar-se ao mar”, ou seja, com um pouco se faz muito além do que se pode.
Arrancar qualquer árvore adulta, usando as próprias mãos, já requer um grande esforço, uma amoreira mais ainda, pois sua raiz é grande e muito entrelaçada, exatamente como suas ramagens se apresentam. Arrancá-la dando uma simples ordem verbal, sem por as mãos, e ainda fazê-la plantar-se ao mar, ora, a amoreira teria que afundar, atingir o solo do fundo do mar e penetrar na terra. Mesmo estando em um contexto longe da narrativa do evangelho, do Jesus Histórico e seus seguidores, a gente conclui que essa seria uma ação impossível humanamente falando.
Se a reflexão parasse por aqui a conclusão seria essa: Os apóstolos não tinham nenhuma Fé, pois se tivessem, poderiam fazer grandes proezas, como aquela que Jesus lhes propôs como exemplo. Se a Fé fosse isso, seria tão bom para todos nós. Faríamos grandes proezas e não passaríamos mais nenhuma necessidade. Essa é a Fé Mágica que muitos querem ter pois sempre diante de algo difícil de se conseguir, não falta quem diga “Você precisa ter mais Fé”
Mas a reflexão tem sequência quando Jesus lhes fala da relação entre servo e seu Senhor. Mudou o assunto? Não. Jesus agora irá aprofundar o ensinamento. Os apóstolos, embora seguidores de Jesus, ainda não tinham conseguido mudar a mentalidade sobre o Messias e no fundo pensavam como a Comunidade Judaica, principalmente os Fariseus e Doutores da Lei, para os quais, Deus estava á sua inteira disposição, desde que cumprissem toda Lei de Moisés, atendendo rigorosamente a todas as prescrições e determinações. Com uma conduta e procedimento de um Justo, Deus era obrigado a atendê-los concedendo todas as bênçãos e promessas feitas a Abraão e sua descendência, pois tornavam-se merecedores.
Entre nós, quando alguém recebe algum benefício, ou acontece algo de bom que vai lhe trazer vantagens, principalmente financeiras e materiais, os mais próximos o saúdam e o cumprimentam, dizendo “Olha, você merece!”. Essa mentalidade Farisaica perpassa o tempo e o espaço, e ainda contamina nosso coração diante de Deus, pois, quando peco mereço o castigo, quando me confesso e procuro viver bem, na Graça de Deus, então sou merecedor das bênçãos e do Céu, que um dia Deus me dará, porque sou realmente muito bom, como Cristão.
Fé consistente, não é aquela que faz coisas prodigiosas, sem explicação, mas sim aquela que consegue transformar a nossa mentalidade religiosa, e consequentemente a nossa relação com Deus! Algo tão difícil como arrancar uma amoreira com raiz e tudo e fazê-la plantar ao mar... Os Dons maravilhosos que o Senhor nos concede, são todos imerecidos.
Um coração contaminado pelo orgulho, vaidade e prepotência, nem sempre aceita o que é de graça, porque isso seria reconhecer a superioridade de quem nos concede, por isso os pobres e pequenos sempre foram os preferidos de Deus.

De igual forma os que se julgam pecadores e estão afastados da comunidade, em geral estão sempre abertos para essa experiência impar com a gratuidade do grandioso Amor Divino, que na sua Graça nos transforma por inteiro, arrancando de nosso coração as raízes entrelaçadas de pensamentos egoístas, que nos impedem de nos abrir á Deus.

sábado, 31 de agosto de 2013

QUEM SE EXALTA SERÁ HUMILHADO



Refletindo de Lc 14,1.7-14

Lucas ao iniciar esse evangelho, faz questão de nos dizer que o Fariseu tinha uma “Ficha Limpa”, era alguém notável, íntegro, de boa índole, uma referência para a comunidade. Por ser admirado como grande Mestre, Jesus era sempre muito solicitado para estar á mesa com eles, na casa de algum líder da comunidade. O texto nos informa que “eles” o observavam, talvez para ver se tinha boas maneiras, se seguia a risca as determinações judaicas para se tomar uma refeição, ou simplesmente porque Jesus irradiava algo de sobrenatural, e cada gesto ou palavra sua, tinham um significado profundo.
Sem se sentir o centro das atenções e sem querer ser o grande “astro” ou celebridade, Jesus também se põe a observar o modo como os convidados do Fariseu escolhiam os primeiros lugares à mesa, e que era naturalmente os mais próximos ao Dono da Casa. Não sabemos em que lugar Jesus tomou assento, mas certamente não foi no lugar mais importante, julgando-se pela sua observação...
Penso ainda, que naquela refeição, Jesus notou que os serviçais tiveram que, educadamente, tirarem de seus lugares alguns que se julgavam o máximo e que deles haviam se apossado. Imaginem o “mico” de sair de um lugar mais importante para sentar-se em outro, menos importante. Vai ver que alguém se apressou em chamar Jesus para ocupar o lugar principal ao lado do Fariseu Anfitrião. Ao ver o constrangimento desses convivas, Jesus deve ter esboçado um leve sorriso aos que estavam ali por perto.
Em nossas comunidades algo semelhante ocorre nas ações litúrgicas, principalmente quando se trata da Santa Missa. Os lugares mais próximos do Padre são os mais visados e disputados nas escalas. Aliás, Liturgia é uma das maiores vitrines da nossa Igreja, nela os Egos são alisados, e os prazeres e alegrias plenamente satisfeitos. E quando a Paróquia realiza algum evento, como um Jantar Dançante, por exemplo, as mesas mais próximas a do Padre são as mais procuradas, ás vezes até reservadas com antecedência. Há muitas disputas para cargos que “aparecem”, mas por trabalhos humildes, que ficam quase no anonimato, não há disputas ou concorrências.
Poderia se disputar, por exemplo, quem faz mais visitas aos enfermos, aos pobres, aos presos, quem se doa mais a essas classes sofridas e injustiçadas, às vezes até dentro da própria comunidade. O que isso nos mostra?
Que o Amor doação, que se faz serviço desinteressado ao outro, anda meio longe de nossas comunidades, em certas ocasiões. É nesse sentido que Jesus alerta para esse perigo em nossas comunidades, onde quem se exalta vai acabar sendo humilhado, de que jeito? No dia em que a casa cair e todos ficarem sabendo de suas reais intenções. A humilhação será grande e a pessoa, envergonhada por ser desmascarada, vai acabar sumindo da comunidade. O que Jesus exalta nesse evangelho é exatamente a gratuidade nas relações fraternas, uma ajuda, um trabalho, uma ação feita a favor do outro, e que nada espera de recompensa ou gratificação. Nessa linha que devemos compreender a exortação de não convidar pessoas importantes para almoçar em nossa casa, mas sim de pessoas que nunca poderão retribuir. Jesus não é contra a ideia de acolhermos pessoas queridas em nossa casa para uma refeição, o que ele ensina é que, a conduta de um cristão, dentro da comunidade e fora dela, deve ser pautada pelos valores do evangelho, e não pelas grandezas fantasiosas que o mundo nos propõe. No mundo o que vale é o TER, na comunidade é o SER.
A interferência do TER no SER na Vida eclesial resulta em numa comunidade de relações mercantilizadas, onde cada um busca o benefício próprio e não o Bem Comum.


segunda-feira, 26 de agosto de 2013

OPERÁRIOS DA ÚLTIMA HORA



Refletindo Mt 20,1-6


Os adversários de Jesus irritavam-se com a acolhida que ele dispensava a todos quantos eram vítimas da marginalização social e religiosa de sua época. Sua extraordinária misericórdia levava-o a fazer-se solidário das vítimas do desprezo e da arrogância. Todos, sem distinção, tinham lugar no seu coração.
A parábola do proprietário de uma plantação de uvas ilustra esta sua disposição interior. A bondade do vinhateiro levou-o a sair sucessivas vezes para contratar operários para sua plantação, de modo a não haver indivíduos ociosos na praça. Até mesmo uma hora antes de terminar o expediente diário, ele saiu à procura de desocupados para lhes dar trabalho. Surpreendente é que, na hora de acertar as contas, os da última hora receberam tanto quanto os da primeira hora. 
Isto foi motivo de protesto para estes últimos, que consideraram injustiça receber salário idêntico aos que trabalharam pouco.

O dono da vinha - imagem de Deus - age com misericórdia e bondade. E se recusa a fazer discriminações indevidas entre os seus diaristas. Uma justiça, falsamente entendida, tê-lo-ia levado a pagar aos últimos uma quantia bem inferior do que aquela paga aos primeiros. No caso de Deus, consistiria em conceder salvação abundante a uns, e relegar os demais a uma espécie de desprezo. Entretanto, como o modo divino de agir vai na direção contrária, a justiça é superada pela misericórdia. E todos são, igualmente, objetos de seu amor.

A justiça de Deus é amar sem distinção e sem medida.



Refletindo Mt 20,1-6


A parábola, em primeiro lugar, revela algo de Deus: Deus é bom. A expressão dessa bondade é que ele chama a todos para a sua vinha. O amor ou bondade de Deus não são calculados. Em todo tempo, o Senhor toma a iniciativa de chamar a todos para o seu Reino. O amor não se compra, ele é oferecido. A justiça de Deus é amar sem distinção e sem medida.
De algum modo, e em relação aos outros, todos somos operários da undécima hora. O modo de agir de Deus faz balançar nossa escala de valores: "Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence" (v. 15).

Aos olhos de Deus, o importante é ouvir o convite e aceitar os trabalhos na vinha. Este é o verdadeiro e justo salário.O amor de Deus toca as pessoas; ele não faz diferenças. O essencial é acolhê-lo.

A VINHA DO SENHOR!


Refletindo Mt 20,1-6





Quem já ficou desempregado meses a fio a espera de uma vaga, sabe o quanto esta é uma experiência triste, a reserva financeira vai se acabando, as despesas vão sendo cortadas e só se mantém o essencial, e se a vaga demora a chegar, até aquilo que é essencial, como a alimentação, por exemplo, vai começando a rarear.
Não tendo nem o essencial para dar à família, o desempregado vai aos poucos perdendo a auto-estima, começa a andar pelas ruas e praças meio sem destino, ou então, o que é pior, torna-se frequentador dos botecos da vida, onde se joga muita conversa fora e reclama da situação, tomando “umas e outras” que algum amigo oferece, um conhecido contou-me que se tornou um alcoólatra quando ficou desempregado, ficar sem fazer nada não é coisa boa, pois dizem até que “mente ociosa é oficina do capeta”.
Fiz esta introdução porque me parece ser esta a situação do pessoal da última hora, mencionado nesse evangelho, e que deviam estar bem desanimados quando foram para a praça no final de tarde, jogar conversa fora ou quem sabe, “bater um truquinho”. A colheita em uma vinha carecia de muita mão de obra e para os desempregados era uma ótima oportunidade para ganhar uns “cobres”. Nos que buscam uma oportunidade, sempre há os madrugadores, que acreditam naquele ditado “Quem madruga, Deus ajuda”, eles botam fé em seu potencial e se colocam a disposição bem cedo, para serem logo contratados.
Há os que já estão meio calejados e que dormem um pouco mais, mas às nove horas já estão na praça, à espera de quem os contrate, pois também se julgam eficientes. Não faltam aqueles que só acordam para o almoço, mas ouvindo falar que tem vaga na empreitada, preparam um “miojo”para não perder muito tempo, e vão voando para a praça, nem que seja ao Meio Dia, pois acreditam que também têm chance. A notícia corre rápida e chega até a turma do “Ainda resta uma esperança”, que também animados resolvem arriscar e vão para a praça às três horas da tarde, dando a maior sorte porque acabaram também contratados.
Mas agora, falemos dos desanimados, que já estão a tempo vivendo de JURO, “juro que vou pagar”, para não sucumbirem, assumiram dívidas com o padeiro, açougueiro, leiteiro, verdureiro, aquele dia para eles já está perdido e então vão para a praça às cinco da tarde, só para saber se há alguma novidade, e são surpreendidos pelo Dono da empreiteira, que os interroga, porque estão ali parados, sem fazer nada... Ninguém nos contratou, não temos nenhum valor, ninguém presta atenção no nosso sofrimento, ninguém nos confia um serviço, onde possamos ganhar o pão para o nosso sustento! E foi assim a ladainha de lamentações. A Turma das cinco nem acreditou, quando o Patrão mandou que fossem para a vinha, juntar-se aos outros trabalhadores. Certamente pensaram que fossem fazer Terceira turma, mas às dezoito horas em ponto, soou o apito e a jornada de trabalho acabou, trabalharam só uma hora, não ia dar nem para o leite e o filãozinho... Pensaram os trabalhadores. Então veio a surpresa agradável, foram os primeirões a receber e ganharam uma moeda de prata, que dava para fazer a compra do mês e ainda pagar umas contas, imaginem a alegria desses trabalhadores de última hora.
O clima era de festa e alegria quando a turma dos Madrugadores, profissionais competentes, que deram duro o dia inteiro, desde o nascer do sol, armou o maior barraco e chamaram o sindicato, pois não acharam certo receber apenas uma moeda de prata, tinham plena certeza de que iriam receber muito mais, pois se julgavam merecedores, mas o Patrão os lembrou sobre o contrato assinado: o pagamento da diária seria uma moeda de prata.
Na religião de Israel e no cristianismo de hoje, acontece a mesma coisa, o título de cristãos e o fato de ser membro de uma igreja, faz com que as pessoas sintam-se privilegiadas diante de Deus, merecedores de sua graça, do seu amor, das suas bênçãos e de todos os seus favores, se a pessoa atua em alguma pastoral ou movimento, então aumenta a obrigatoriedade de Deus atender. Infelizmente é essa a imagem que muitos fazem de Deus, que sempre surpreende os que buscam conhecê-lo melhor.
Na parábola em questão, contratou pessoas sem nenhum valor, e que, entretanto, apesar de terem chegado muito depois dos Madrugadores, foram alvos da mesma atenção e receberam o mesmo tratamento. Na verdade, ao invés de sermos a imagem e semelhança de Deus, muitas vezes projetamos Nele a nossa imagem e semelhança, para que seja bom com quem mereça, que trate as pessoas a partir dos seus merecimentos, o que na lógica humana é muito justo.
Porém, o amor e a justiça de Deus vai sempre buscar os últimos, os renegados, o que não tem mais nenhuma chance diante da sociedade “perfeita” ou da religião padrão, os que não têm o que fazer porque ainda não acharam um sentido para suas vidas. Os desprezados, tratados com frieza e que nunca são levados a sério.

E quando descobrimos que Deus os ama tanto quanto a nós, que nos julgamos “justos” em vez de fazermos com eles uma grande festa, manifestando alegria, agimos como o irmão mais velho do Filho Pródigo: derrubamos o beiço e nos recusamos a entrar na casa do Pai, isso é, a vivermos na comunhão com Deus, ao lado dos trabalhadores da última hora, sonhamos com um céu especial e nos frustramos ao ver que o coração de Deus, cheio de misericórdia, manifestada em Jesus, há lugar para todos os homens.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A decisão de amar por toda a vida, não pode ser revogada.


Refletindo Mt 19,3-12

     Eis aqui um evangelho que seria melhor tirar do Novo Testamento, pois falar sobre ele e a verdade que proclama, é arranjar encrenca até em família. Como é que vamos falar desse evangelho em família se temos um filho ou uma filha, um sobrinho ou neto, que está nesta situação? Na própria comunidade, já vi pregadores da Palavra tentarem amenizar a pregação, para não ofender casais em segunda união, levando estes ao desanimo na Fé. Para a pós-modernidade esse ensinamento evangélico é uma velharia do passado, pois hoje em dia não dá mais para se falar em adultério.
Prestemos atenção nessa palavra tão pesada “Adultério”, que significa coisa “Falsa” ou que foi adulterada, mudada, como os ladrões de veículos fazem com o número do chassi, tentam assim, fazer com que o veículo roubado passe por outro e não mais aquele original em sua numeração saída da fábrica.
Com dinheiro falso é também essa atitude, não ficamos escandalizados quando compramos algo e o caixa examina a nota de cem ou cinquenta na nossa frente, para certificar-se de que ela não é falsa. Também na compra de peças para veículos ou outro equipamento, exigimos originais, porque sabemos que têm qualidade, não são imitação, não foram adulteradas.
Mas quando tratamos das coisas de Deus, e principalmente desse ensinamento sobre a vida conjugal dos que se uniram um dia na Igreja, deixamos de lado nosso rigorismo e exigências, e começamos a achar que tanto faz casar-se na igreja ou não e uma vez casados a separação é sempre uma possibilidade, e a união com outra pessoa também é coisa normalíssima em nossos dias. A confusão e o desconhecimento são tão grandes nessa área, (com certeza culpa da nossa própria igreja) que amasiados ou divorciados procuram os Ministros Ordinários do Matrimônio, para pedir uma bênção, às vezes em um salão durante a festa. E tem mais ainda, quando o caso acontece com a filha ou o filho da vizinha, logo alardeamos que se trata de um adultério, quando, porém, é com o nosso filho ou filha, daí não é adultério, pois temos uma justificativa.
Claro que Bênção também significa compromisso, mas para a maioria é um modo de envolver o Divino em nossos interesses humanos, e se ter dele a necessária proteção ou ter “sorte” no casamento, como me dizia um amigo, nessa situação, e que queria que eu fosse ministrar a bênção para ele e a sua Terceira esposa... Esse descompromisso total que têm marcado a vida conjugal de tantos casais, mesmo os cristãos, nada mais é do que influência do Neo-ateísmo que impera em nossa sociedade, onde se crê em Deus, mas Ele não tem nada a ver com minha vida da qual faço o que quiser...
Sacramento do matrimonio é uma Graça Santificante e Operante, que eleva o amor humano dando a este a mesma força e grandeza do amor Divino. No altar, homem e mulher dizem o SIM não para um amor sentimental ou somente do Eros, mas trata-se de uma decisão sagrada, manifestada naquele sim e que significa “Sei das minhas fraquezas, mas diante de Deus e da Igreja, tomo a decisão de amar para sempre, até a morte esta pessoa que Deus colocou na minha vida, confiando que só conseguirei isso com a Graça de Deus que vou agora receber”.
O SIM dos noivos supõe exatamente isso, daí que neste evangelho, Jesus manifesta o desejo e a vontade, de que este projeto original, iniciado para o casal precisamente no dia do casamento, seja mantido até o fim. Quando ocorre o contrário, e a união com uma segunda pessoa quebra e rompe este vínculo, esta união foi adulterada, falsificada e nem por isso Deus manda do céu a sua Ira na vida do casal. E então, perante a Santa Igreja, que acolheu a decisão dos nubentes no dia do casamento, a comunhão de vida do casal já não existe, e como a Igreja não pode voltar atrás em sua decisão, ela precisa sinalizar que a ruptura aconteceu e por isso, casais em segunda união são orientados a não receberem a Eucaristia, que é a expressão mais alta e por Excelência, da nossa comunhão com Deus, uma vez que, recebendo-a, não podem vivê-la na vida conjugal de maneira autêntica, já que a pessoa com quem se vive, não é aquela que diante de Deus e da Igreja decidiu amar para sempre.

E se foi um casamento errado, celebrado diante de Deus em cima de mentiras e falsidades, compete ao Tribunal Eclesiástico verificar cada caso, dando as pessoas envolvidas o direito de recomeçar a sua vida conjugal.






"por causa da dureza do vosso coração"



Refletindo Mt 19,3-12

A perícope sobre o divórcio, em Mateus, está construída sobre a de Marcos 10,1-12. Tanto num como noutro evangelista, o tom é de controvérsia: trata-se de "pôr Jesus à prova" (Mt 19,3; Mc 10,2).
Como Deuteronômio 24,1-4 não especificava claramente por que motivo o marido poderia dar à sua esposa uma carta de divórcio, deixava espaço para interpretações diferentes e divergentes. Jesus defende com clareza a indissolubilidade do matrimônio, recorrendo ao projeto original de Deus (Mt 19,4-6; Gn 1,27; 2,24; 5,2). O projeto original de Deus impede o repúdio: "... o que Deus uniu, o homem não separe" (v. 6).

À pergunta do porquê da prescrição de Moisés, Jesus responde: "por causa da dureza do vosso coração" (v. 8), isto é, da incapacidade de compreender e pôr em prática os mandamentos de Deus, da resistência de amar verdadeiramente. Uma única exceção é feita por Jesus: em caso de "união ilícita" (v 9), ou seja, em casos de consanguinidade, por exemplo (ver: Lv 18).


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SUPERANDO UMA MENTALIDADE


Refletindo Mt 19,3-12

Jesus recusou-se a pactuar com a mentalidade de certas correntes rabínicas de sua época, no tocante à indissolubilidade do matrimônio. O modo superficial como colocavam o problema levava-os a se desviarem do projeto original de Deus.
A introdução do divórcio, na Lei mosaica, era uma forma de concessão divina à dureza de coração do povo. "No começo não foi assim." Isto é, o divórcio não estava, originalmente, nos planos de Deus. Se a humanidade fosse menos obstinada e mesquinha, seria desnecessário prever o direito de o homem repudiar sua mulher.
No projeto divino, o matrimônio corresponderia a uma união tão profunda entre os esposos, a ponto de se tornarem uma só carne. A comunhão, assim pensada, exclui qualquer possibilidade de separação. Esta corresponderia a privar o corpo humano de um de seus membros. O esposo separado da esposa e, vice-versa, seria, pois, um corpo mutilado.

O discípulo do Reino sabe precaver-se da mentalidade divorcista leviana, esforçando-se por comungar com o pensar de Deus. E se recusa a agir como os fariseus, preocupados em conhecer os motivos pelos quais o marido pode repudiar sua mulher. O casal cristão, pelo contrário, interessa-se por conhecer aquilo que pode uni-lo mais ainda, de forma a consolidar a união realizada por Deus. E nada poderá separá-lo.


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O MILAGRE EUCARÍSTICO DE SENA, ITÁLIA




Há séculos, algumas Hóstias Consagradas estão milagrosamente conservadas intactas na Basílica de São Francisco, em Sena (ou Siena), Itália. Entre os documentos mais importantes que descrevem o Milagre, está um diário escrito por Macchi no ano de 1730. Nele se narra que no dia 14 de agosto de 1730, ladrões conseguiram entrar na Igreja de São Francisco e roubar a píxide (vaso litúrgico em que se guardam as Hóstias ou Partículas Consagradas) que continha 351 Partículas Consagradas. Depois de três dias, em 17 de agosto, na caixinha da esmola do Santuário de Santa Maria, em Provengano, no meio do pó, encontraram as 351 Hóstias intactas. Todo o povo correu para festejar a recuperação das santas Hóstias que foram imediatamente levadas, numa solene procissão, à Igreja de São Francisco. Incrivelmente, com o passar dos anos, as Partículas não apresentaram nenhum sinal de alteração.
O Arcebispo Tibério Borghese mandou lacrar em uma lata, por uma década, algumas hóstias não consagradas. Uma comissão científica encarregada de avaliar o caso, ao abrir o recipiente, encontrou vermes e fragmentos deteriorados. Mais de uma vez, homens ilustres as examinaram com todos os recursos científicos e as conclusões foram sempre as mesmas: “As Sagradas Partículas estão ainda frescas, intactas, fisicamente incorruptas, quimicamente puras e não apresentam sinais de início de corrupção”. No ano de 1914, o Papa São Pio X autorizou uma análise da qual participaram professores de bromatologia, higiene, química e farmacologia, entre os quais estava também o célebre professor Siro Grimaldi.
A conclusão final do relatório dizia: “As partículas de Sena são um clássico exemplo de perfeita conservação de partículas de pão ázimo (...) do ano de 1730, e constituem um fenômeno singular, (...) que inverte as leis naturais da conservação da matéria orgânica. (...) É estranho, é surpreendente, é anormal: as leis da natureza se inverteram, o vidrou virou sede de mofo e o pão ázimo ficou mais refratário que o cristal (!) (...). É um fato único nas publicações científicas”.

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Outras análises foram realizadas no ano de 1922, quando as Partículas foram transferidas a um cilindro feito de puro cristal extraído das rochas. Novamente foram analisadas cientificamente no ano de 1950 e em 1951, sendo comprovadas as características supranaturais do fenômeno. O fato contradiz todas as leis físicas e biológicas. O cientista Enrico Medi manifestou-se da seguinte forma: “Esta intervenção direta de Deus é o Milagre... Milagre no sentido estrito da palavra, realizado e mantido milagrosamente pelos séculos, dando testemunho da Presença permanente de Cristo no Sacramento Eucarístico”.
O Papa João Paulo II, no dia 14 de setembro de 1980, realizou uma visita pastoral a Sena, e diante das prodigiosas Hóstias, declarou: “É a Presença!”.
O Milagre permanente das Santíssimas Partículas é custodiado na Capela Piccolomini durante o verão e na Capela Martinozzi durante o inverno. Muitas são as iniciativas dos cidadãos de Sena em honra das Santas Hóstias: a homenagem dos bairros, os presentes das crianças da Primeira Comunhão, a Solene Procissão na Festa de Corpus Christi, o Serenário Eucarístico no final do mês de setembro, a Jornada de Adoração Eucarística no dia 17 de cada mês, em memória da recuperação das Hóstias no dia 17 de agosto de 1730.
Como aos santos Apóstolos se apresentou na forma de homem, assim se apresenta a nós no Pão Consagrado. E como eles (que com os olhos do corpo só podiam ver a carne), contemplando-o com os olhos da fé, acreditaram que era Deus, assim nós também, vendo com os olhos do corpo o Pão e o Vinho, acreditamos que o Santíssimo Corpo e Sangue estão Presentes, Vivos e Verdadeiros, na Eucaristia. Deste modo o Senhor está sempre presente no meio dos seus fiéis, como Ele mesmo prometeu quando disse: ‘Lembrem-se de que eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos’ (Mt 28, 20).” (S. Francisco de Assis)

Fonte: NASINI, Gino. O Milagre e os Milagres Eucarísticos. São Paulo: Loyola / Palavra & Prece, 2011, pp. 30-31.



Um abraço:

Pe. Luiz Gilderlane





quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O que pedir?


Lc 11, 1-13


No texto do evangelho deste domingo é enquadrado à menção do "pedido": no v. 1, "um dos discípulos pediu-lhe: 'Senhor, ensina-nos a orar…?"; no v. 13 é Jesus quem diz: "… quanto mais o Pai do céu saberá dar o Espírito Santo aos que lhe pedirem!". O "pedido" é o tema principal de nossa perícope. Qual deve, então, ser o pedido que caracteriza a súplica do discípulo? Pedido e promessa visam ao Espírito Santo. Não é, aqui, o espaço de fazermos um comentário sobre o Pai-Nosso.
Basta simplesmente dizer que, o que nos permite entrar no dinamismo da relação filial entre Jesus e o Pai, é o Espírito Santo, que o Pai dará.
Segue à oração do Pai-Nosso, que é a oração do Senhor e da comunidade que ele reúne, uma parábola (vv. 5-8) e sua interpelação para o discípulo (vv. 9-12). O que pedir? O que Deus oferece?
É preciso mover a vontade e pedir insistentemente (cf. vv. 8-9), sem desanimar.
A súplica é exercício de humildade e confiança. Mas o que pedir? O Pai-Nosso ilustra: pão, perdão, não ceder às tentações. Pedir não só para o indivíduo, mas para todos. Mas não é só, ou não é tudo, pois a vida do ser humano não se reduz ao imediato. Deus nos oferece gratuitamente o Espírito Santo (v. 13); Jesus sugere que nós o supliquemos ao Pai. É o Espírito Santo, Deus em nós, que ilumina nossa vida para que possamos discernir as soluções dos dramas humanos. É o Espírito Santo que nos permite entrar na intimidade divina.
O traço mais característico do Pai, transmitido nos Evangelhos, é a misericórdia. Por isso, ao ensinar os discípulos a rezar, Jesus revela-lhes o rosto misericordioso do Pai, e os exorta a contar sempre com ele. Um dado fundamental: é preciso ser perseverante, quando se trata de recorrer ao Pai. Só ele conhece o momento oportuno de atender a quem lhe pede ajuda. Contudo, ninguém perde por esperar.
A argumentação de Jesus funda-se na insuperável misericórdia divina. Se nenhum pai humano, por pior que seja, responderia à súplica de um filho, dando-lhe algo nocivo, quanto mais o Pai celeste. Sua bondade infinita responde generosamente a quem lhe suplica. E ninguém fica decepcionado, pois é garantida a sua intervenção em favor de seus filhos.

A oração do Pai-Nosso é o resumo de tudo de que há de bom e que o discípulo pode desejar obter do Pai. Para rezá-lo, o orante deverá despojar-se de suas ambições pessoais e sintonizar-se com a misericórdia divina. Por isso, seu desejo é ver santificado o nome do Pai celeste, e concretizado seu Reino, na história humana. Seus anseios abrem-se para as relações interpessoais e se manifestam na esperança de ver o pão ser partilhado entre todos, os pecados, perdoados, e o ser humano, livre das insídias do Maligno. Só um coração misericordioso, à imitação do Pai, poderá nutrir tais desejos!

A Oração do Senhor...


Lc 11, 1-13


A qualidade da nossa oração depende muito da visão e do conceito que temos de Deus e nesse sentido, o “Pai Nosso” introduz algo novo na oração: Deus, cujo nome até então era até proibido de se pronunciar, é agora chamado de PAI porque Jesus tornou possível essa intimidade entre o Homem e Deus ao nos dar o seu espírito que em nós clama ao PAI. A oração ensinada pelo próprio Cristo não evoca a imagem de um Deus distante, ao contrário, esse céu, lugar da morada de Deus, desceu até os homens em Jesus Cristo, pois céu significa comunhão plena com Deus, que só foi possível porque o verbo Divino se fez homem.
Dessa invocação inicial emanam todas as demais e assim, o nome de Deus é santificado quando damos testemunho dessa santidade que se realiza e acontece somente na perfeição do amor, Deus não precisa de nenhum elogio, aplauso ou louvor, mas ele é glorificado precisamente no testemunho autêntico do evangelho de Cristo, e que consiste em ser solidário com quem sofre ter compaixão dos pobres, perdoar quem nos ofende, ser paciente com todos, essas são algumas formas de se santificar e glorificar o santo nome de Deus. Certamente fazemos isso de maneira ritualista em nossas liturgias, mas é preciso que esse louvor não fique só em nossos lábios, mas esteja em nosso coração, que desta forma, batendo no mesmo ritmo do coração misericordioso de Cristo, esteja realmente perto de Deus.
O reino de Deus precisa ser construído, ele não cai do céu, e essa construção requer em nosso dia a dia, muita paciência, mansidão e perseverança, portanto, desejar que esse Reino venha até nós, é em primeiro lugar ter total disponibilidade para acolhê-lo em nossa vida e em nosso coração. Mas há um ponto chave de toda oração, que aqui é realçado pelo Senhor “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Muitas vezes entendemos como oração poderosa, aquela que consegue convencer Deus, para que ele nos socorra e nos favoreça em tudo o que pedimos, sempre de acordo com nossas conveniências e interesses. A nossa oração fica muito pobre quando se limita a apresentar a Deus o nosso mesquinho projeto humano, pedindo para ele realiza-lo exatamente dessa forma, que nos agrade e satisfaça.
Deus para muitos não passa de um super-herói a quem se recorre quando se chega ao limite. A verdadeira oração é também uma escuta em uma abertura total á vontade Divina á nosso respeito. Neste evangelho Jesus ensina que temos que ser insistentes naquilo que pedimos que o Senhor nos dê o pão de cada dia, a vida e suas múltiplas formas e manifestações, mas que haja em nós esse desejo e disposição de buscá-la, de construí-la, e principalmente de partilhá-la, pois pão que não é partilhado deixa de ser pão. Que nunca nos falte o perdão do Pai diante das nossas ofensas, mas que o nosso coração deixe de ser tão estreito e se alargue para também saber perdoar, mesmo porque, só experimentaremos a alegria do perdão de Deus, quando o nosso perdão dado de modo incondicional e gratuito, faz aflorar um sorriso de alegria no rosto de quem antes era nosso inimigo.
Que ele nos livre das tentações, principalmente da mais terrível que é a de querermos colocá-lo ao nosso dispor, para nos servir sempre que solicitado, invertendo a ordem das coisas, porque na verdade nosso Deus já fez isso em Jesus Cristo, que se aniquilou a si mesmo e por nós se entregou, fazendo-se servidor do Pai, agora é a nossa vez de nos abaixarmos para lavar os pés, na entrega generosa no amor ao próximo.
E se formos mesmo insistentes, como nos ensina o senhor, um dia alcançaremos tudo o que pedimos, porque de tanto nos entregarmos a oração, como Jesus fazia, iremos conhecer ainda mais o nosso Deus e a sua vontade a nosso respeito.

A conclusão final a que se chega com a reflexão deste evangelho, é de que nossas orações não mudam a Deus, mas, com a perseverança e insistência, ela vai transformando o nosso coração e toda nossa vida,e assim vamos nos moldando segundo a santa vontade de Deus. Nesse dia podemos afirmar categoricamente que a nossa oração foi atendida.

A "boa semente" designa a existência humana, que é dom de Deus.


 Mt 13,24-30




A parábola do joio e do trigo é própria a Mateus, e se presta a uma releitura de Gênesis 1–3.
A pergunta à qual a parábola responde é pela origem do mal: "Donde veio então o joio?" (v. 27). O campo é onde Deus semeia a "boa semente" (v. 24).
Quem semeia espera colher os frutos de seu trabalho. O Reino dos Céus pode ser comparado a uma história, no sentido de que ele é apresentado como sendo um empreendimento de Deus.
Podemos considerar que a "boa semente" que cresce e dá frutos designa a existência humana, que é dom de Deus. O trigo que germina e cresce no meio do joio perece vulnerável como a nossa existência, mas, aos olhos de Deus, nossa existência, no campo contaminado pela erva má, é portadora do projeto de Deus; por isso, é necessário esperar o tempo oportuno para identificar e arrancar o joio.
A parábola não nos convida a nenhum ativismo. Ela previne os servidores do Mestre contra uma atitude intempestiva que poderia arruinar toda iniciativa de Deus (cf. vv. 28b-30). Mas de onde veio o mal? Na linguagem bíblica, o mal é inimigo, adversário. Este inimigo permanece anônimo, não tem nome próprio, mas nome comum. Ele interveio de noite, quando todos dormiam (cf. v. 25); ele é desconhecido. Não é alguém que se pudesse nomear. Esse anonimato do inimigo é muito importante: nós não podemos, simplesmente, atribuir a outros, ou identificar, personalizar esse poder, isto é, imaginá-lo fora de nós. Mas o dono do campo não renuncia à colheita, ele espera (v. 30).
O que na parábola se chama joio nos remete, em nossos dias, a outras manifestações de uma hostilidade sem causa e sem medida contra a ação de Deus.
Os discípulos do Reino, enviados em missão, não podem se iludir, pensando que são os únicos a semear a Palavra de Deus no coração das pessoas. Esta encontra sérios concorrentes, com os quais eles não podem compactuar, pois suas propostas não se encaixam. Não existe acordo possível!
A boa e a má semente são semeadas num mesmo terreno. Ao brotarem e crescerem, aparentemente se assemelham. É preciso ter paciência e suportar a convivência de ambas. Virá o tempo em que a diferença entre elas será patente. Então, a separação poderá ser feita.
A revelação deste aspecto do Reino tinha aplicação prática para os discípulos do Reino. Havia, entre eles, uma insatisfação pelo fato de a comunidade ser formada por gente de boa vontade, desejosa de ser fiel ao Reino anunciado por Jesus, e por quem não se deixava transformar por esse Reino. Instintivamente, vinha-lhes o desejo de expulsar da comunidade esta segunda classe de gente. Parecia-lhes ser o joio em meio ao trigo semeado por Jesus.
A parábola mostra que, ao fazer a separação, poderiam se enganar. Muitos que pareciam ser joio, no fundo, eram trigo e vice-versa. Competia a Jesus, na condição de juiz da humanidade, determinar quem era quem. O julgamento humano podia ser falho.

Quem é e onde está o Joio?


Mt 13,24-30


Diante desta parábola, nossa primeira reação é dar uma boa olhada em redor de nós, na comunidade e na família, para ver quem é Joio que vai ser queimado, e quem é o Trigo bom que vai ser recolhido definitivamente nos celeiros da Casa do Pai. Mas em um primeiro momento é bom termos consciência de que esse Joio e esse Trigo estão primeiramente em nossa vida, bem dentro do nosso coração, pois trigo e joio são duas possibilidades de se viver, e quem decide somos nós, através do discernimento que o Espírito nos deu e assim será em todo o tempo da nossa vida terrena, todo dia teremos de fazer essa escolha, se vamos cultivar o trigo ou o joio...
Já sabemos em Jesus Cristo que um dia só irá sobrar o trigo bom, o Bem Supremo do Reino em plenitude, pois as Forças do Mal serão todas destruídas e sabendo disso, temos de usar bem esse discernimento para não deixar que o joio do mal se transforme em um matagal e sufoque o trigo em nosso coração. Lembrando que, o cultivo do trigo requer de todos nós empenho e esforço, já que o joio, ou a tiririca, cresce em qualquer lugar, sem que seja preciso nenhum cuidado, basta um descuido e lá está o matinho que não serve para nada senão para ser queimado.
Então primeiro a parábola nos força a olharmos para nós mesmos, somente depois para a Vida dos nossos irmãos na família, na comunidade, na pastoral, no grupo ou na equipe, onde nossos olhos bem atentos conseguem ver longe e já sabe quem é joio e quem é trigo. E o primeiro impulso é aquele demonstrado pelos servidores do pai de Família “Senhor, quereis que arranquemos o joio?”.
Criança que na catequese não aprende nada, é melhor afastá-la, antes que contamine as outras, na escola é a mesma coisa, na comunidade também, nos grupos pastorais e equipes de serviço, quem de nós vai atrás do irmão que é Joio? Quase ninguém, pois pensamos que é melhor não gastar vela com mal defunto. Sonhamos e queremos uma comunidade feita só do Trigo bom e para isso é preciso arrancar sem piedade o Joio que infestam nossas comunidades, pastorais e movimentos.
É aí que aparece aquilo que Deus tem de mais grandioso e maravilhoso: sua infinita misericórdia e paciência com o Ser humano! Deus jamais arranca o Joio, pois sempre cultiva a esperança de que o joio se transforme em trigo bom e assim, acredita no homem até o derradeiro instante de sua vida, e realmente a sua graça tem o poder de penetrar no mais íntimo do ser humano para transformá-lo de Joio em trigo. De Deus esperamos a misericórdia sempre que escolhemos mal e deixamos o joio crescer em nosso coração, e a sua misericórdia não nos falta, então tudo o que temos a fazer é retribuir a Deus, olhando com a sua misericórdia todo Joio que encontrarmos nesta vida. Não o arranquemos nem o cultivemos, mas confiemos que trigo bom da Graça de Deus o transforme... Nisso consiste a Salvação que Jesus nos trouxe...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Meus olhos viram a tua salvação.


Comentário baseado no Evangelho de Mt 13,16-17


O texto de hoje é a continuação da pergunta dos discípulos: "Por que lhes falas em parábolas" (v. 10). A resposta de Jesus faz uma distinção entre os discípulos e a multidão: "... a vós foi dado a conhecer os mistérios do Reino dos Céus, mas a eles não" (v. 11). Então, Jesus fez distinção de pessoas?
Não! A compreensão deve ser positiva, pois ela tem uma força de interpelação para o leitor do evangelho: somente no seguimento de Jesus Cristo é que suas palavras fazem plenamente sentido. Não é Jesus que fala de maneira enigmática, mas os que ouvem não se sentem envolvidos por seu ensinamento. É como se a palavra de Jesus não lhes dissesse respeito.
A bem-aventurança do v. 16 diz respeito à pessoa de Jesus. Ver o Messias, ouvir a sua voz, foi o desejo de muitos profetas. O velho Simeão exulta: "Agora, soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a tua salvação" (Lc 2,29-30).
Jesus teve motivos para escolher o método parabólico como meio de comunicar os mistérios do Reino. As parábolas exigiam, por parte dos ouvintes, uma grande capacidade de entrar em comunhão com Jesus, para poder captar-lhe a mensagem. Caso contrário, não se ia muito além da materialidade das palavras. E a parábola não passava de uma historinha meio sem graça, por falar de coisas evidentes. A mensagem das parábolas estava escondida atrás das palavras e só era captada por quem fosse capaz de buscar seu sentido oculto.
Por outro lado, a linguagem das parábolas era simples, mas exigia interpretação por parte dos ouvintes. As parábolas escondiam uma mina inesgotável de ensinamentos. Cada pessoa que as escutava podia descobrir uma mensagem particular e, com isso, iluminar a própria experiência de consagração ao Reino.

Sendo assim, ao mesmo tempo em que a mensagem das parábolas era compreendida por uns, permanecia incompreensível para outros. A uns era dado compreender os mistérios do Reino, a outros não. 
Seria isto um preconceito de Jesus em relação a algumas pessoas? Não! A compreensão dos mistérios do Reino não é dada a quem, de antemão, se fecha para Jesus. Seria perda de tempo querer comunicar-lhes o que não querem receber. Feliz é quem abre olhos e ouvidos para acolher Jesus!

Capacidade de entender a Palavra


Comentário baseado no Evangelho de Mt 13,16-17



Quando conversamos com alguém sobre algum assunto muito importante, mas notamos que o ouvinte está “longe” da conversa, distraído, olhando para os lados, preocupado com outras coisas, lógico que não sentimos vontade de continuar, e assim logo  encerramos o assunto ou  transformamos a  conversa em uma futilidade, que não requer tanta atenção do outro.
Na celebração de casamentos ás vezes enquanto o Padre ou o Diácono capricha na homilia, os noivos estão dando risinhos entre si, ou olhando para a cara de algum padrinho engraçado, ou olhando a da minha ou o noivinho, ou o que é ainda pior, fazendo pose para uma foto. Como diz o caboclo, “dá uma réiva”, e daí a gente logo conclui  e perde a vontade de continuar com a reflexão, pois os principais interessados, que são os próprios celebrantes, estão distraídos, a palavra é apenas um ruído, um barulho que não passa dos ouvidos.
Para fazer esse desabafo no evangelho de hoje, Jesus deve ter passado essa experiência inúmeras vezes diante da multidão, ele ali falando com entusiasmo do Reino Novo, falando e revelando o Pai, e o povaréu nem aí com o “peixe”, parece que só se ligavam quando Jesus fazia algum milagre, daí a coisa fervia, pois milagre não exige compromisso da parte de quem o recebe.
Temos em nossas vidas pessoas com quem conversamos todo dia, mas algumas nos são especiais, e com essas a conversa passa do mero formalismo para um colóquio, algo mais profundo. As multidões sempre seguiram Jesus, no meio delas haviam pessoas que viam em Jesus alguém especial, interessavam-se em ouvi-lo, prestando toda atenção, porque suas palavras traziam esperança, fortalecimento, coragem e conforto, e com isso trazia também a vontade de pensar diferente e construir um mundo novo. Não era apenas uma mensagem bonita que deleitava os ouvidos, mas era algo que entrava dentro do coração, no centro da vida, provocando mudanças...
Mas havia também os “avoados”, os interessados em buscar em Jesus alguma vantagem, esses até o aplaudiam e o admiravam, mas não estavam interessados em mudanças radicais de vida, ouviam as pregações, entravam por um ouvido e saia pelo outro. Jesus era só mais um pregador entre outros, muito bom, falando com sabedoria, mas era só mais um. Assim é que o homem da pós-modernidade vê o cristianismo, como mais uma religião entre centenas de milagres, como uma Filosofia de Vida, entre tantas outras, muito boa, sólida, consistente, tradicional, mas é só mais uma...
Os Discípulos foram escolhidos do meio da multidão, o Senhor viu neles, muito mais do que ouvidos atentos, mas corações abertos, sedentos de esperança e uma total disponibilidade para segui-lo. Não são homens especiais e superdotados de algum poder sobrenatural, mas para eles Jesus não é apenas mais um, é o Único e absoluto. Com eles Jesus inicia o Novo Povo de Deus, os homens e mulheres da Nova Aliança, haverá entre Jesus e eles um forte elo como havia no Código da Aliança entre Deus e Israel “Eu serei o Vosso Deus e Vós sereis meu Povo” em uma relação única e particular.
Por isso Jesus os trata de modo especial e os introduz pedagogicamente ao conhecimento sobre os mistérios do Reino dos Céus, que não é revelado a multidão. Hoje esses discípulos estão nas nossas comunidades cristãs, são todos os batizados que se abriram á Graça de Deus, que foram capazes de se encantarem com Jesus e seu evangelho, e se colocam sempre disponíveis para construir esse Reino que é Eterno. Jesus não fala mais em parábolas, ele é o Logus do Pai, a sua Palavra encarnada no meio de nós, ele se entrega totalmente na Eucaristia em cada celebração.

Ai de nós se o ouvirmos de má vontade, sem nenhuma disposição interior para o segui-lo, ai de nós se não o acolhermos com o coração aberto... Melhor seria nem ser batizado e não ter se apossado do nome de Cristão.

sábado, 20 de julho de 2013

APATIA x EMPATIA





Em todas as relações humanas envolvemos sentimentos que nos aproximam ou afastam das outras pessoas. Se você analisar as últimas horas, irá notar que dois sentimentos quase sempre estão presentes: são a apatia e a empatia. Um deles nos leva a enxergar além dos clichês relacionais (“Olá, como vai?”) que todos insistimos em empregar, por educação ou por medo de mostrarmos o que realmente está se passando no nosso mundo interior. Este sentimento nos leva a perceber que a outra pessoa precisa de ajuda, precisa de um amigo que possa parar alguns momentos para ouvir, partilhar a carga. O mais interessante é que muita gente seria ajudada pelo simples fato de alguém achegar-se demonstrando que notou algo errado, o problema que está afligindo, e que gostaria de ajudar de alguma forma.
Você já sabe qual é este sentimento? É claro, a empatia.
Mas a rotina, a falta de habilidade para desenvolver relacionamentos verdadeiros e significativos e a concorrência por “um lugar melhor ao sol” nos mostrou o “único caminho” da felicidade que prioriza o trabalho, a ascensão profissional, os bens que podemos conseguir como fruto de nosso esforço. Algo que é sadio e faz parte da vida de qualquer ser humano equilibrado! Porém este tipo de postura dá início a um processo de fechamento, individualismo (em vez de individualidade), e a terrível apatia. Esta é um estado que inicia-se aparentemente sem importância, controlado, mas que com o passar do tempo tende a assumir o seu lugar no centro das reações emocionais e mentais ante a outras pessoas e seus traumas e realidades. Parece que ter 45 canais de TV diferentes, não precisar sair de casa para fazer uma refeição, alugar um bom filme ou comprar remédios, navegar pela Internet sob quaisquer disfarces ajuda tremendamente na instalação da apatia como regra e não exceção!
Precisamos urgentemente rever nossa vida e prioridades. Pense um instante no que a Bíblia nos tem a dizer sobre isso:
Que vossa caridade não seja fingida... Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram.” (Romanos 12, 9a.15)

A Bíblia volta a nos dar uma aula de vida mostrando que a empatia traz benefícios tremendos às relações interpessoais em qualquer lugar e ocasião, desde o casamento e a vida em família até o ambiente de trabalho. É bom ver pessoas que já compreenderam este princípio motivadas e produzindo, entendendo que as pessoas tem prioridade sobre as coisas e que 5 minutos de empatia em seus relacionamentos acrescenta um tipo de realização que nenhum bem material pode trazer.
Os empáticos são pessoas que encaram a vida e as situações de maneira mais humana e munidos por uma desenvoltura que alivia tensões, estresse e as prepara para receber o melhor!

Quero deixar um desafio a você. Que tal voltar agora para seu ambiente de trabalho ou família, e em silêncio, por um minuto, encará-los como pessoas, gente que tem necessidades que vive traumas e machucaduras que você bem pode ajudar a curar. Depois procure levar uma palavra de conforto a alguém que você sente que mais necessita… Deus ajudará você nesta tarefa especial.
Tornar-se amigo nas horas de tristeza (e de alegria também), como a Bíblia nos recomenda, pode abrir portas de relacionamento e amizade que você nunca sonhou ter!
O que está esperando? Comece agora mesmo!
Jogue fora a apatia! VIVA A EMPATIA!


sábado, 6 de julho de 2013

NECESSIDADE DA ORAÇÃO

NECESSIDADE DA ORAÇÃO


UMA CURIOSA MESA-REDONDA
Imaginemos que estamos diante de uma televisão toda especial, um autêntico portento da tecnologia. A sua particularidade é ultrapassar as barreiras do tempo, unindo eventos de diversas épocas num mesmo momento. O programa que sintonizamos é uma mesa-redonda que tem por tema “A necessidade da oração”. Foram convidados especialistas de séculos muito diversos para falar sobre o assunto.
Depois das devidas apresentações, o moderador cede a palavra ao primeiro dos convidados. A câmera focaliza um rosto expressivo, de olhos vivos. Trata-se de Santa Teresa de Ávila, que desempenhou um papel fundamental na renovação espiritual da Igreja no século XVI. As suas obras são referência obrigatória quando o tema é oração. Com voz firme e decidida, toca diretamente o coração dos espectadores:
Só há um caminho para chegar a Deus: a oração; se vos indicarem outro, enganam-vos” (1).
Dando pleno apoio às palavras de Teresa de Ávila, toma o microfone Santo Afonso de Ligório, bispo e Doutor da Igreja, que viveu no século XVIII. As suas obras sobre Nossa Senhora e sobre o relacionamento com Deus continuam a ter enorme difusão. Com os seus gestos serenos e cativantes, ganha imediatamente a simpatia e a admiração dos espectadores:
Todos os santos se santificaram por meio da oração; todos os condenados se perderam por não terem orado; se o tivessem feito com persistência, ter-se-iam salvo” (2).
Os assistentes estremecem perante a seriedade da disjuntiva: salvação ou perdição eterna.
A câmera focaliza então um rosto sorridente. Trata-se de São Josemaría Escrivá que, nos nossos dias, abriu aos leigos um caminho acessível e alegre de santificação no meio da sua vida diária:
A oração é o fundamento de toda a atividade sobrenatural. Com a oração, somos onipotentes, e, se prescindíssemos desse recurso, nada conseguiríamos” (3).
Que enorme poder o da oração!
O microfone volta para a Santa de Ávila:
Quem não faz oração não necessita de demônio que o tente; ao passo que quem a faz apenas quinze minutos por dia, necessariamente se salva” (4).
Um tempo tão breve para uma felicidade eterna!
Como para reforçar o assunto, toma a palavra um homem de ampla humanidade e voz pausada: é Tomás de Aquino, uma das maiores luminárias da filosofia e da teologia, ao mesmo tempo que alma profundamente contemplativa:
A oração é necessária, não para que Deus tome conhecimento das nossas necessidades, mas para que nós nos demos conta da necessidade que temos de recorrer a Deus” (5).
O que impressiona é que essas almas santas falam não só de uma grande “conveniência” da oração, mas de uma necessidade absoluta, comparável à necessidade que temos do ar ou do alimento para a vida corporal.

Esse programa de televisão não existiu nem existirá: é mero produto da imaginação. Mas todas as frases que citamos são autênticas e sublinham unanimemente a necessidade da oração para a salvação e para a construção de uma vida cristã séria.
Talvez por causa dessa relação tão estreita, as pessoas que se afastaram de Deus durante uma temporada e desejam retornar a Ele ressaltem, como sua primeira e principal falha, precisamente essa: “Desleixei as minhas orações..., esqueci-me de Deus...”. E sabem que o caminho de retorno passará, necessariamente, por esse meio imprescindível.

O DOM DA ORAÇÃO
Genialmente irrepetível é a concepção artística de Michelangelo sobre a criação do homem, na Capela Sixtina. Um Deus de aspecto majestoso quase toca com o seu dedo divino o dedo da primeira mão humana. Naqueles milímetros que separam os dois seres fica representada a distância infinita que há entre a criatura e o Criador, mas ao mesmo tempo os dois olhares se encontram num primeiro laço de amizade.
O nosso Criador é inabarcável, inteiramente inatingível por meio dos sentidos. E poderia muito bem ter permanecido assim, reservando para a outra vida toda e qualquer possibilidade de um encontro pessoal com Ele. Mas quis tornar-se acessível, quis que, por assim dizer, os nossos olhares pudessem cruzar-se com o seu já nesta vida, para que o nosso coração pudesse aproximar-se do seu com inteira confiança.
A oração não é, pois, nada normal, na medida em que é muito pouco razoável que o Todo-Poderoso se disponha a ouvir-nos a cada um de nós, nas nossas necessidades e circunstâncias. É um dom divino que procede da sua bondade infinita. Como dizia o Cura d´Ars: “Deus é tão bom que nos permitiu falar com Ele” (6). E, ao mesmo tempo, esse dom divino é a coisa mais normal possível, no sentido de que não exige marcar hora nem combinar um local. Basta pormo-nos na presença de Deus, que nos é mais íntimo do que nós a nós mesmos, e falar-lhe. “Para mim – dizia Santa Teresa de Lisieux –, a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou da alegria” (7).

MAS PARA QUE ORAR?
O antigo Catecismo das crianças, respondendo à pergunta sobre o motivo pelo qual o homem foi criado, afirmava categoricamente: “O homem foi criado para conhecer e amar a Deus nesta vida...”. Todos percebemos que só pode ser esta a razão de ser, o principal objetivo da nossa vida. E a oração é o caminho para o atingirmos, um caminho insubstituível. Só através dela obtemos a proximidade pessoal com Deus, uma proximidade que não se adquire pelo simples estudo da doutrina cristã e da ciência moral, nem por uma vida moral imune a toda a crítica, nem pelo cumprimento de uns elaborados ritos externos.
Não há dúvida de que, sem um conhecimento adequado da doutrina católica, a nossa oração seria sempre “subnutrida”, mirrada; mas não é menos verdade que, sem oração, o mero conhecimento doutrinal tenderia a transformar-se numa espécie de “matemática do espírito”, árida, fria e estéril. A primeira finalidade da oração é, portanto, abrir-nos a esse dom e permitir-nos chegar a um conhecimento pessoal e cordial de Deus.
Mas, para chegarmos a essa intimidade com Deus, é preciso também que nos conheçamos a nós mesmos, que saibamos quem é esse “eu” que pretende conversar com o seu Criador. Ou seja, a segunda finalidade pela qual fazemos oração é que ela deve conduzir-nos ao conhecimento próprio.

“Espelho, espelho meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?”, perguntava-se a princesa do conto de fadas. E o espelho respondia afirmativa ou negativamente. Oxalá o espelho da nossa consciência respondesse tão claramente às dúvidas que temos sobre nós mesmos.
Em muitas ocasiões, somos uma incógnita aos nossos próprios olhos, porque o nosso verdadeiro rosto está oculto sob o véu das nossas paixões, do receio de nos reconhecermos como somos, do orgulho que retoca as nossas obras com cores irreais, do egoísmo que defende a todo o custo o proveito próprio...
Ora, o espelho que responde às questões sobre nós mesmos só pode ser, por isso, um espelho “indireto”: o espelho da oração. Só espelhando-nos em Deus, vendo-O como nosso Criador e vendo-nos como criaturas Suas, sabendo-nos filhos Seus pelo Batismo, mas também pecadores que O ofenderam e continuam a ofendê-Lo..., só assim iremos retirando esse véu que nos esconde de nós mesmos.
Por outro lado, há na nossa vida ainda um outro véu: a incerteza sobre o que fazer. Que caminho seguir na vida? Como sobreviver neste mundo, sendo honesto? Como encarar serenamente essa dificuldade familiar? O que Deus quer de mim com este desastre econômico? Por que esta doença agora?...
Deus conhece as respostas a todas essas perguntas, e está sempre à nossa disposição para nos dar as explicações ou o conforto necessários.
No entanto, como dizia Santo Afonso de Ligório, “Deus não costuma falar à alma que não Lhe fala” (8): o Senhor deseja falar-nos do Seu amor e dos Seus planos a nosso respeito, mas, se nós não nos dispusermos a procurá-Lo – a fazer oração –, permaneceremos na ansiedade da dúvida.
A oração é, portanto, também o grande meio para descobrirmos a resposta ao “Que devo fazer nesta vida?”. A resposta, em si, é muito simples: a vontade de Deus. Mas não se trata apenas dessa vontade divina que poderíamos chamar “genérica”, aplicável a todos os homens, e que se expressa nos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja; trata-se, mais especificamente, da vontade concreta de Deus para mim, aqui e agora. Desde as grandes decisões que precisamos tomar na nossa vida até as decisões corriqueiras do nosso dia a dia, tudo deve seguir a orientação divina, num ato de confiante aceitação e obediência.
É por isso que, para nos aproximarmos de Deus, não nos basta apenas evitar o descumprimento dos preceitos divinos. Não nos basta ser “certinhos”, ser “bons” ou até isso a que chamam “um santo”, mas sempre pela via negativa: “Não mato, não roubo, não minto”... Isso seria reduzir a religião a um legalismo mais ou menos do mesmo tipo do daqueles que dizem: “A minha religião me proíbe de fumar”. Não: o cristão não é um colecionador maníaco de regras e proibições negativas: é um filho empenhado em aceitar e fazer por amor a vontade desse Deus que o amou primeiro (cf. 1 Jo 4, 10).
De certa forma, toda a nossa oração se resume à pergunta de Saulo, depois de cair do cavalo cegado pela luz divina: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6). Aquele judeu legalista, ferreamente empenhado em perseguir os cristãos porque, no seu entender, tinham violado a Lei de Moisés, transformou-se, na sequência dessas palavras tão simples, no mais fogoso dos Apóstolos de Cristo.
Por fim, temos necessidade de orar porque, quando nos empenhamos seriamente em pôr em prática o que Deus quer de nós, descobrimo-nos faltos de forças, de capacidades e talentos. Faltos de tudo, necessitados de uns bens materiais, sem dúvida, mas, sobretudo, de bens espirituais – de fé, de fortaleza, de esperança – que só Ele pode conceder. Por isso, nada mais natural do que dirigirmo-nos ao Deus onipotente, numa atitude de súplica. Bem diz o novo Catecismo da Igreja Católica que “o homem é um mendigo de Deus” (n. 2559). Se é lógico que um mendigo peça aos homens o que precisa, muito mais lógico é que, na oração, o homem peça a Deus tudo.
Orar é o caminho para atalhar todos os males que sofremos” (9). São imensas as promessas que encerra esta afirmação do Bem-aventurado Josemaría Escrivá. “Atalhar os males” da vida – a solidão, o tédio proveniente da ausência de sentido para a própria vida, um sofrimento humanamente irremediável, a carência de uns bens necessários, a desorientação à hora de agir – não é o que todas as pessoas buscam? Aí está a solução. Acessível a todos, não como a receita barata oferecida por um enganador, para curar todas as doenças; mas como a solução de tudo pela sua raiz, que é Deus.

E O QUE É FAZER ORAÇÃO?
Todos sabemos, ao menos genericamente, o que é a oração. Mesmo os que não oram, os que não creem, os que têm uma vida desregrada, sabem o que é orar, embora pessoalmente não o pratiquem... ou o façam com uma fé remota e confusa, como aquele homem que orava assim: “Ó Deus, se é que existis, salvai a minha alma, se é que tenho alma” (10).
No entanto, é muito útil partir de uma noção clara do que realmente é a oração, e para isso recorremos de novo à ajuda de almas experimentadas.
Com palavras de São João Damasceno (11), “oração é a elevação da alma a Deus”. Supõe, portanto, um encontro a sós entre dois seres: Deus e a criatura. Vimos atrás que Deus nos criou para Ele, mas, à diferença dos seres inanimados ou das criaturas irracionais, não somos para Ele apenas por existirmos e estarmos passivamente à sua disposição – como uma tábua à disposição do marceneiro –, mas porque Ele nos dotou de inteligência e vontade, e quer que caminhemos ao seu encontro conscientemente, por um livre ato da nossa vontade esclarecida.
Vemos assim que essa elevação da alma em busca do contacto com Deus é algo que corresponde à nossa condição tal como Ele a criou. Portanto, ainda que possa parecer o contrário, a iniciativa da oração não é nossa. “Deus é o primeiro a chamar o homem”, diz-nos o Catecismo da Igreja (n. 2567).
A iniciativa é d’Ele, sim, mas a resposta cabe-nos a nós. A “oração é o encontro da sede de Deus com a nossa” (Catecismo, n. 2560). Depois de criar uns seres que pudessem conversar com Ele, Deus está sedento de que o façamos. E, da nossa parte, temos tanto que conversar com Ele! Por um ou outro dos motivos que apontamos acima, Deus fez-nos de tal maneira que, se não O procuramos, simplesmente não encontramos a nossa identidade. Isto reconforta-nos muito, porque sabemos de antemão que a nossa oração não se perderá na imensa distância que separa a criatura do Criador e, mais ainda, não será nunca inoportuna nem se chocará com a indiferença do interlocutor divino.
Mas a compreensão do que realmente seja a oração dá-se, sobretudo, pela via da experiência pessoal. “Não sabes orar? Põe-te na presença de Deus, e logo que começares a dizer: ‘Senhor, não sei fazer oração!...’, podes ter certeza de que começaste a fazê-la” (12).
Para esse aprendizado, deveríamos antes de mais nada dirigir-nos humildemente a Cristo com as mesmas palavras dos Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11, 1). E Ele não nos deixará sem resposta. Olharemos para o seu exemplo e aprenderemos de tantas ocasiões da sua vida em que os evangelistas deixaram explicitamente registrados momentos da sua oração ao Pai.
Pensemos, por exemplo, nos seus quarenta dias de oração penitente no deserto, antes de começar a vida pública, como para nos ensinar que é na oração que se obtêm as luzes e as forças para cumprir as tarefas e a missão que Deus nos confia. Ou na sua noite de vigília antes de escolher definitivamente os doze Apóstolos, mostrando-nos assim que as escolhas que temos de fazer na vida devem ser decididas em conjunto com o Pai. Ou na oração comovida junto do túmulo de seu amigo Lázaro, antes de ressuscitá-lo, mostrando-nos que as horas duras nunca nos devem fazer perder a esperança, antes nos devem levar a dar graças antecipadas: “Pai, dou-te graças por me teres ouvido. Eu sabia que sempre me ouves” (Jo 11, 41-42). Ou na exultação do seu coração quando os Apóstolos regressam da sua primeira missão carregados de frutos: “Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25), fazendo-nos ver que também a alegria deve ser motivo para elevarmos a alma aos céus. E tantos exemplos mais!
Cristo, perfeito Deus, não tinha de retirar-se para fazer oração, porque era um só com o Pai e contemplava sem interrupção o rosto divino. No entanto, porque era ao mesmo tempo perfeito homem, experimentou a necessidade de fazê-lo, e deixou-nos exemplo disso nas circunstâncias mais diversas, as mesmas que podem acontecer na nossa vida.

A ORAÇÃO VOCAL
Há muitas maneiras de elevar a alma a Deus, de dialogar com Ele, da mesma maneira que são muito diversas as formas de nos comunicarmos com os homens: pode ser a conversa tranquila numa praça, a conversa pelo telefone ou, mais modernamente, a comunicação através do “ciberespaço”. Sendo a oração um diálogo, nada mais razoável que se revista de formas muito variadas, em função da situação pessoal, das necessidades, do tempo disponível ou do grau de intimidade com o interlocutor divino. “Há muitas maneiras de orar; infinitas, poderia dizer” 13.
Mas as inúmeras formas de orar foram agrupadas pela tradição cristã em duas principais: a oração mental e a vocal. Não se trata de coisas absolutamente diferentes, mas de duas modalidades da mesma realidade. Consideremos primeiro a oração vocal, que foi a primeira forma de orar que aprendemos, talvez dos lábios da nossa mãe.

Três jovens foram fazer um passeio velejando. A princípio, o dia era ensolarado e convidativo, mas ao poucos o vento começou a soprar com força e não demorou a formar-se uma tempestade. Empurrados pela correnteza, acabaram por encontrar-se em alto mar. A situação foi-se tornando mais e mais difícil, e corriam o perigo de morrer afogados. Quando estavam quase sem esperanças, um dos três disse:
– Vamos rezar.
E começou o Pai-Nosso... Mas de repente calou-se e pôs-se a chorar:
– Eu já não sei o Pai-Nosso!
Um outro, que mantinha a sua fé mais em dia, serenou-o e continuou a oração até o fim. A tempestade durou mais algum tempo, mas depois acalmou-se e os três conseguiram retornar sãos e salvos.
Este episódio verídico mostra-nos diversas coisas: a eficácia da oração, a conveniência de memorizarmos as orações tradicionais e a ligação bastante direta que há entre a fé e as orações vocais. Por isso, diz-nos o Catecismo da Igreja Católica que “a oração vocal é um dado indispensável da vida cristã” (n. 2701).
Por ela, oramos também com o nosso corpo. Assim o diz a Epístola aos Hebreus: “Ofereçamos sem cessar a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hb 13, 15). Pelo som da nossa própria voz, as palavras, quando serenamente pronunciadas, contribuem eficazmente para estimular a nossa devoção.
Por outro lado, a oração vocal é simples e ágil, e por isso aplica-se a uma infinidade de situações diversas. Não é difícil que conheçamos orações ou trechos de orações, muitas vezes breves jaculatórias, que exprimam a Deus os nossos sentimentos de ação de graças ou de arrependimento, os nossos pedidos de ajuda, a nossa fé, aceitação e confiança.
Não sem uma certa ponta de humor, alguém comparava a oração vocal aos sanduíches, que prescindem de talheres e pratos e podem, por conseguinte, ser levados de um lado para outro e comidos em qualquer parte. Pode-se rezar o terço no ônibus ou no metrô, pode-se dizer uma Ave-Maria ao fechar uma porta, recitar o “Santo Anjo” ao atravessar a rua...
Deve-se, no entanto, evitar dois extremos nessas nossas orações. O primeiro deles é o perigo de menosprezá-las e considerá-las de “segunda categoria”, como se fosse “pouco autêntico” utilizar orações compostas por outras pessoas para expressar os nossos sentimentos pessoais. Ninguém julga “pouco autêntico” que um namorado leia um poema de Castro Alves à sua amada ou lhe cante uma conhecida canção de amor. Assim também com Deus.
No outro extremo, está o risco de bitolar-se, de perder a espontaneidade na expressão dos afetos e necessidades a Deus. Como contava alguém de um casal que voltava das compras; ao passarem diante da igreja paroquial, a mulher sugeriu: “Vamos entrar e rezar um pouco?”. Mas o marido respondeu-lhe: “Agora? Impossível! Não trouxemos o nosso livro de orações...”. Não se deve permitir que a oração vocal produza uma “dependência”, quando, na realidade, deve ser um auxílio para o diálogo com Deus.
Referindo-se à catequese das crianças, o Catecismo diz que “a memorização das orações fundamentais oferece um apoio indispensável à vida de oração, mas importa grandemente saborear o seu sentido” (n. 2688). Devemos estar sempre agradecidos aos nossos pais que, quando éramos pequenos, nos ajudaram a aprender de cor as orações básicas; mas o correr do tempo e o amadurecimento da nossa personalidade reclamam que saibamos repeti-las com consciência e tirar fruto pessoal daquilo que a princípio talvez apenas pronunciássemos como uma cantilena incompreensível.
Devagar – Repara no que dizes, quem o diz e a quem – porque esse falar às pressas, sem lugar para a reflexão, é ruído, chacoalhar de latas. E te direi, com Santa Teresa, que a isso não chamo oração, por muito que mexas os lábios” (14). Não basta apenas o ruído de um “chacoalhar de latas”: é preciso que se ponha a cabeça no significado das palavras e o coração no seu conteúdo. Diz Santa Teresa de Ávila que conheceu pessoas a quem Deus, durante a simples recitação de um Pai-Nosso, elevava a um estado de oração verdadeiramente místico. E eram pessoas muito pouco instruídas.
Devemos estar preparados, no entanto, para as distrações nesta forma de oração, pois são consequência inevitável da nossa fragilidade.

Conta-se que, em certa ocasião, um camponês se vangloriava diante de São Bernardo de nunca se distrair ao rezar. O santo, profundo conhecedor da natureza humana, disse-lhe:
– Meu amigo, vamos fazer um trato. Se você conseguir rezar um só Pai-Nosso sem se distrair, dou-lhe o cavalo em que estou montado.
Animado com o desafio, o camponês iniciou prontamente o seu Pai-Nosso. Mal tinha começado, interrompeu a oração e disse:
– Com os arreios e a sela também?
Ficou sem cavalo, sem arreios e sem sela...

Isto não significa que não devamos esforçar-nos por melhorar o nível da atenção com que rezamos as nossas orações vocais. Se as recitamos maquinal ou apressadamente – como pode acontecer com as orações da manhã e da noite –, de pouco servem. “Se você não está atento, como quer que Deus esteja?”, dizia alguém, muito sensatamente.
De qualquer forma, ainda que as nossas orações vocais não nos saiam tão redondas como gostaríamos, nem por isso devemos omiti-las. Só Deus sabe quantas graças vem concedendo ao longo dos séculos, como fruto dos Pai-Nossos, das Ave-Marias, dos Glórias e de tantas outras orações vocais que o povo cristão elevou até Ele.

Um bispo perguntou certa vez ao Papa Pio XII, por ocasião de uma audiência:
– Santidade, o senhor dorme bem à noite?
O Papa, um tanto surpreendido, respondeu:
– Sim. Mas por que me pergunta isso?
E o bispo completou:
– Olhe, Santo Padre, quando eu era pequeno, tínhamos uma empregada que, ao pôr-nos na cama, nos fazia rezar para que o Papa tivesse um sono tranquilo. Desde aquela época, tenho-o feito sempre e, na verdade, estava curioso por saber se dava resultado...

Os frutos da oração vocal ultrapassam em muito o nosso conhecimento, e certamente haveremos de assombrar-nos quando descobrirmos toda a sua eficácia ao chegarmos à outra vida.

A ORAÇÃO MENTAL
Toda a oração é, de certa forma, oração mental. A própria oração vocal só é oração porque é mental, pela concentração interior que exige. Mas, em sentido mais estrito, costuma-se chamar oração mental àquela que é feita exclusivamente com a mente, sem intervenção de palavras ou de orações compostas previamente por outros.
Segundo a definição clássica de Santa Teresa, “oração mental, a meu ver, não é outra coisa senão tratar intimamente com Aquele que nos ama, e estar muitas vezes conversando a sós com Ele” (15). Não se pode expressar melhor o clima em que se deve desenrolar a oração mental.
Os autores antigos costumam distinguir vários níveis nessa oração sem palavras: desde a simples consideração intelectual de uma verdade de fé, a que normalmente se chama meditação, até a alta contemplação dos místicos, em que, como diz São João da Cruz, “a alma se compraz em permanecer a sós com Deus, fixando n’Ele a sua atenção, sem qualquer consideração particular” (16). Mas, em qualquer dos seus níveis, a oração mental supõe a interrupção dos afazeres quotidianos para dedicar um certo tempo diário exclusivamente a esse encontro com Deus no silêncio e na intimidade do coração.
Em que se ocupa esse tempo? Numa conversa simples em que se procura a aproximação com Deus e, a partir daí, se busca o convívio e se estreita a amizade. Não há que imaginar nada de complicado. Como se chega à amizade nas relações humanas? Não é pela conversa informal em que, aos poucos, se vão descobrindo afinidades, e daí nasce a simpatia, e depois o bem-querer? Com Deus é o mesmo, porque o coração humano é um só e o mesmo, quer tratemos com os homens, quer tratemos com Deus. Não temos outro coração para Deus.
Para dizer tudo desde já, um bom modelo para a nossa oração mental é o diálogo que os Apóstolos mantinham com Jesus Cristo. Aquilo que eles lhe diziam de viva voz, sem nenhum constrangimento, sem atitudes rebuscadas, devemos nós dizer-lho com o coração. Os discípulos contavam ao Senhor os acontecimentos do seu dia a dia, pediam-lhe conselhos, desabafavam com Ele nas horas amargas, comunicavam-lhe as boas notícias e as alegrias. E o Senhor os ia instruindo, respondendo-lhes e revelando-lhes os seus mais profundos mistérios. Hoje, como ontem e sempre, o Senhor quer manter conosco esse convívio de amizade, quer ouvir-nos e quer falar-nos, tal como àqueles Doze.

O QUE NÃO É ORAÇÃO MENTAL
E já que descrevemos em linhas gerais o que é a oração mental, é muito conveniente esclarecermos o que não o é. O próprio Catecismo da Igreja Católica achou necessário alertar para o perigo das conceituações errôneas que se podem formar a este respeito (n. 2726).
Efetivamente, não é raro ouvirmos amigos nossos que dizem: “Comecei a fazer tai-chi-chuan no Parque da Água Branca, aos domingos de manhã, e mudei completamente; agora estou em harmonia comigo mesmo. Essas coisas orientais ligam-nos de verdade com a Energia Cósmica”. Ou outro, que acaba de fazer o curso do Silva Mind Control ou leu algum livro sobre “o fascinante poder da mente”: “Cara, é tão legal quando a gente entra em Alfa e sintoniza em Deus!”...
Muito em voga, ocasionalmente até em ambientes católicos, estão as “técnicas corporais” de oração, normalmente de inspiração oriental, como o Hare-Krishna. Entre elas, as mais difundidas são a ioga e a “meditação transcendental”, que propõem uma série de posturas (por exemplo, a conhecida “flor-de-lótus”, com as pernas cruzadas sob o tronco), exercícios respiratórios e a repetição de mantras (frases ou palavras de caráter sagrado ou quase-sagrado, “capazes de unificar energias habitualmente dispersas e opostas”).
A finalidade dessas técnicas é – segundo dizem – concentrar progressivamente o indivíduo em si mesmo até atingir o vazio interior. Por meio delas, a pessoa deve desprender-se progressivamente de todas as coisas exteriores, bem como de todos os seus vínculos com elas: os desejos, os medos, o amor e o ódio. Uma vez atingido esse estágio interior de completo esvaziamento, o “eu”, “centelha da divindade cósmica encarcerada na matéria”, estaria preparado para ingressar no nirvana, para desfazer-se como uma gota no oceano cósmico do Absoluto.
Este tipo de exercícios, embora os seus praticantes nem sempre tenham plena consciência disso, traz a marca do hinduísmo e do budismo. Já o cristão sabe que o mundo não é um cárcere do qual se deva fugir, mas uma obra de Deus que vale a pena amar e admirar; sabe que nenhum de nós é um “fragmento perdido de Deus” destinado a dissolver-se depois da morte, a perder a individualidade numa espécie de “sopa cósmica”; é uma criatura de Deus, essencialmente distinta do seu Criador, mas chamada a relacionar-se amorosamente com Ele por toda a eternidade, de tu a tu, sem pe rder a sua personalidade própria. E, portanto, sabe que a oração mental não é nenhum processo de esvaziamento interior, mas sim um cumular-se de Deus, de Cristo.
O Papa João Paulo II, referindo-se a Santa Teresa, afirmava que ela “rejeitava os livros que propunham a contemplação como um vago engolfar-se na divindade ou como um ‘não pensar em nada’, vendo nisso o perigo de a pessoa se debruçar sobre si mesma, de afastar-se de Cristo, do qual nos ‘vêm todos os bens’. Daí o seu grito: ‘Afastar-se de Cristo..., não o posso sofrer’. Esse grito é válido também nos nossos dias, contra algumas técnicas de oração que não se inspiram no Evangelho e que praticamente tendem a prescindir de Cristo, em favor de um vazio mental que não tem sentido dentro do cristianismo” (17).
Outras correntes, mais inspiradas em certas psicologias de cunho ocidental ou sincrético, tendem a confundir a oração com uma simples operação psicológica. Usam as mesmas “técnicas” que descrevemos anteriormente, mas com a finalidade de produzir estados interiores especiais. A ideia, na sua vertente mais mística, é “sintonizar com o comprimento de onda de Deus”, o “Alfa perene”, a fim de “conectar-se com o seu manancial inesgotável de paz infinita, amor e sabedoria sem fim” – como se Deus fosse a antena de uma emissora de TV... Ou então, na sua vertente mais prática, “liberar as imensas energias mentais que você traz dentro de si, e que lhe possibilitariam fazer qualquer coisa, até tele-transportar-se para outros planetas”... Sem comentários.
De certa forma, essas técnicas de oração são semelhantes, em ponto maior, às pequenas superstições que alguns cultivam, confundindo atitudes e palavras rituais – como pôr uma fita do Senhor do Bonfim no espelho do carro ou acender uma vela a Nossa Senhora Aparecida exclusivamente na hora das dificuldades econômicas ou de saúde – com a verdadeira oração. Por trás desses “mecanismos” todos, grandes e pequenos, está a intenção de manipular Deus, de obrigá-Lo a fazer a nossa vontade, a pretensão de servir-se d’Ele ao invés de servi-Lo. E, como diz a canção, “isso não é amor”. Pode ser vaidade, mercenarismo, cegueira orgulhosa ou simples burrice, conforme o caso; mas não é oração.
Não há problema em que um católico pratique, se lhe interessar, tai-chi-chuan, ou ioga, ou exercícios de respiração, na medida em que essas coisas podem realmente produzir um certo efeito de relaxamento muscular, de bem-estar interior ou de catarse que livra das tensões da vida. O que não pode é esquecer que seria uma solene estupidez ver nisso mais do que uma simples forma de ginástica ou de higiene mental.

A diferença que há entre essas atitudes voltadas para dentro, para uma mesquinha e egocêntrica busca de si mesmo, e a verdadeira oração, que nos abre para além de nós mesmos, para o verdadeiro Deus, aparece de maneira muito viva no relato de uma escritora russa contemporânea, Tatjana Goritschewa.
Convertida ao cristianismo aos vinte e seis anos de idade, essa autora fundou em Leningrado o primeiro movimento feminino cristão, ajudou a organizar palestras e aulas sobre o cristianismo em toda a antiga URSS e chegou a publicar dois jornais clandestinos; depois de ter sido presa e submetida a interrogatórios, foi exilada em 1980.
Descrevendo-nos a trajetória da sua conversão, conta-nos Tatjana que, revoltada com a ideologia marxista e ateia dominante, se refugiou com avidez na ioga quando se difundiram na União Soviética os misticismos orientais. Segundo lhe tinham dito os gurus, “por meio de uns exercícios e de um saber oculto acerca de ‘poderes astrais e mentais’, poderia alcançar certeira e conscientemente a categoria de um super-homem”. Mas o resultado foi apenas uma sensação de profunda e universal angústia e depressão. Vejamos como ela mesma relata o momento crucial da sua vida:
“Cansada e sem vontade, ia fazendo as minhas sessões com os mantras. É preciso que se saiba que, até aquele momento, eu nunca tinha pronunciado uma só oração; mais ainda, nem mesmo conhecia uma única oração. Descobri, porém, que um dos meus manuais de ioga sugeria que se usasse uma oração cristã, o Pai-Nosso, como mantra. [...] Comecei, pois, a recitá-lo como se costuma fazer na ioga, sem imprimir ênfase às palavras, repetindo-as de maneira automática. Murmurei assim o Pai-Nosso umas seis vezes, quando de repente me dei conta do que estava dizendo, e num instante me vi completamente transformada. Compreendi – não com a minha ridícula inteligência, mas com todo o meu ser – que Ele existia. Ele, o Deus vivo, o Deus pessoal, que me amava a mim e a todas as criaturas, que tinha criado o mundo, que se tinha feito homem, o Deus crucificado e ressuscitado” (18).

Em outubro de 1989, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta dirigida aos bispos e a todo o povo cristão acerca da meditação cristã. O parágrafo final desse documento compendia e sintetiza esplendidamente tudo o que acabamos de ver:
“O amor de Deus, único objeto da contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode apoderar por meio de algum método ou técnica; pelo contrário, devemos ter sempre o olhar fixo em Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até nós” (19).

Luiz Fernando Cintra

NOTAS
(1) Santa Teresa, cit. em J. Daujat, Viver o cristianismo, Aster, Lisboa, pág. 63;
(2) Santo Afonso Maria de Ligório, citado em B. Baur, A vida espiritual, 2ª ed., Prumo, Lisboa, 1985, págs. 138-9;
(3) Josemaría Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 238;
(4) cf. Josemaría Escrivá, Forja, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 1003;
(5) São Tomás de Aquino, cit. em Santo Afonso M. de Ligório, A oração, I, 8;
(6) Santo Cura d´Ars, cit. em Liturgia das horas. Ofício de leituras, Paulus, pág. 1494;
(7) Santa Teresa de Lisieux, Ms. autobiogr., C25r;
(8) Santo Afonso Maria de Ligório, Como conversar contínua e familiarmente com Deus, em Obras ascéticas, BAC, vol. I, págs. 316-7;
(9) Forja, n. 76;
(10) cit. em Cardeal Newman, Apologia pro vita sua, Paulus, São Paulo, 1964, pág. 53;
(11) São João Damasceno, De fide orthodoxa, 3, 24; PG 94, 1089D;
(12) Josemaría Escrivá, Caminho, 8ª ed., Quadrante, São Paulo, 1995, n. 90;
(13) Amigos de Deus, n. 243;
(14) Caminho, n. 85;
(15) Santa Teresa, Vida, 8, 2;
(16) cit. em J. Daujat, Viver o cristianismo, pág. 86;
(17) João Paulo II, Homilia em Ávila, 1-XI-1982;
(18) Tatjana Goritschewa, Von Gott zu reden ist gefährlich, Herder, Freiburg, 1984, págs. 26-7;
(19) Congregação para a Doutrina da Fé, Carta sobre a meditação cristã, n. 31; para todo este tema, cf. D. Estêvão Bettencourt, O.S.B., Pergunte e responderemos, n. 335, abril de 1990, págs. 156-67