NECESSIDADE DA ORAÇÃO
UMA CURIOSA
MESA-REDONDA
Imaginemos que
estamos diante de uma televisão toda especial, um autêntico portento da
tecnologia. A sua particularidade é ultrapassar as barreiras do tempo, unindo
eventos de diversas épocas num mesmo momento. O programa que sintonizamos é uma
mesa-redonda que tem por tema “A necessidade da oração”. Foram convidados
especialistas de séculos muito diversos para falar sobre o assunto.
Depois das devidas
apresentações, o moderador cede a palavra ao primeiro dos convidados. A câmera
focaliza um rosto expressivo, de olhos vivos. Trata-se de Santa Teresa de
Ávila, que desempenhou um papel fundamental na renovação espiritual da Igreja
no século XVI. As suas obras são referência obrigatória quando o tema é oração.
Com voz firme e decidida, toca diretamente o coração dos espectadores:
“Só há um
caminho para chegar a Deus: a oração; se vos indicarem outro, enganam-vos”
(1).
Dando pleno apoio às
palavras de Teresa de Ávila, toma o microfone Santo Afonso de Ligório, bispo e
Doutor da Igreja, que viveu no século XVIII. As suas obras sobre Nossa Senhora
e sobre o relacionamento com Deus continuam a ter enorme difusão. Com os seus
gestos serenos e cativantes, ganha imediatamente a simpatia e a admiração dos
espectadores:
“Todos os
santos se santificaram por meio da oração; todos os condenados se perderam por
não terem orado; se o tivessem feito com persistência, ter-se-iam salvo”
(2).
Os assistentes
estremecem perante a seriedade da disjuntiva: salvação ou perdição eterna.
A câmera focaliza
então um rosto sorridente. Trata-se de São Josemaría Escrivá que, nos nossos
dias, abriu aos leigos um caminho acessível e alegre de santificação no meio da
sua vida diária:
“A oração é o
fundamento de toda a atividade sobrenatural. Com a oração, somos onipotentes,
e, se prescindíssemos desse recurso, nada conseguiríamos” (3).
Que enorme poder o da
oração!
O microfone volta
para a Santa de Ávila:
“Quem não faz
oração não necessita de demônio que o tente; ao passo que quem a faz apenas
quinze minutos por dia, necessariamente se salva” (4).
Um tempo tão breve
para uma felicidade eterna!
Como para reforçar o
assunto, toma a palavra um homem de ampla humanidade e voz pausada: é Tomás de
Aquino, uma das maiores luminárias da filosofia e da teologia, ao mesmo tempo
que alma profundamente contemplativa:
“A oração é
necessária, não para que Deus tome conhecimento das nossas necessidades, mas
para que nós nos demos conta da necessidade que temos de recorrer a Deus”
(5).
O que impressiona é
que essas almas santas falam não só de uma grande “conveniência” da oração, mas
de uma necessidade absoluta, comparável à necessidade que temos do ar ou
do alimento para a vida corporal.
Esse programa de
televisão não existiu nem existirá: é mero produto da imaginação. Mas todas as
frases que citamos são autênticas e sublinham unanimemente a necessidade da
oração para a salvação e para a construção de uma vida cristã séria.
Talvez por causa
dessa relação tão estreita, as pessoas que se afastaram de Deus durante uma
temporada e desejam retornar a Ele ressaltem, como sua primeira e principal
falha, precisamente essa: “Desleixei as minhas orações..., esqueci-me de
Deus...”. E sabem que o caminho de retorno passará, necessariamente, por esse
meio imprescindível.
O DOM DA ORAÇÃO
Genialmente
irrepetível é a concepção artística de Michelangelo sobre a criação do homem,
na Capela Sixtina. Um Deus de aspecto majestoso quase toca com o seu dedo
divino o dedo da primeira mão humana. Naqueles milímetros que separam os dois
seres fica representada a distância infinita que há entre a criatura e o
Criador, mas ao mesmo tempo os dois olhares se encontram num primeiro laço de
amizade.
O nosso Criador é
inabarcável, inteiramente inatingível por meio dos sentidos. E poderia muito
bem ter permanecido assim, reservando para a outra vida toda e qualquer
possibilidade de um encontro pessoal com Ele. Mas quis tornar-se acessível,
quis que, por assim dizer, os nossos olhares pudessem cruzar-se com o seu já
nesta vida, para que o nosso coração pudesse aproximar-se do seu com inteira
confiança.
A oração não é, pois,
nada normal, na medida em que é muito pouco razoável que o Todo-Poderoso
se disponha a ouvir-nos a cada um de nós, nas nossas necessidades e
circunstâncias. É um dom divino que procede da sua bondade infinita. Como dizia
o Cura d´Ars: “Deus é tão bom que nos permitiu falar com Ele”
(6). E, ao mesmo tempo, esse dom divino é a coisa
mais normal possível, no sentido de que não exige marcar hora nem
combinar um local. Basta pormo-nos na presença de Deus, que nos é mais íntimo
do que nós a nós mesmos, e falar-lhe. “Para mim – dizia
Santa Teresa de Lisieux –, a oração é um impulso do coração, é um
simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da
provação ou da alegria” (7).
MAS PARA QUE ORAR?
O antigo Catecismo
das crianças, respondendo à pergunta sobre o motivo pelo qual o homem foi
criado, afirmava categoricamente: “O homem foi criado para conhecer e amar a
Deus nesta vida...”. Todos percebemos que só pode ser esta a razão de ser, o
principal objetivo da nossa vida. E a oração é o caminho para o atingirmos, um
caminho insubstituível. Só através dela obtemos a proximidade pessoal com Deus,
uma proximidade que não se adquire pelo simples estudo da doutrina cristã e da
ciência moral, nem por uma vida moral imune a toda a crítica, nem pelo
cumprimento de uns elaborados ritos externos.
Não há dúvida de que,
sem um conhecimento adequado da doutrina católica, a nossa oração seria sempre
“subnutrida”, mirrada; mas não é menos verdade que, sem oração, o mero
conhecimento doutrinal tenderia a transformar-se numa espécie de “matemática do
espírito”, árida, fria e estéril. A primeira finalidade da oração é, portanto,
abrir-nos a esse dom e permitir-nos chegar a um conhecimento pessoal e cordial
de Deus.
Mas, para chegarmos a
essa intimidade com Deus, é preciso também que nos conheçamos a nós mesmos, que
saibamos quem é esse “eu” que pretende conversar com o seu Criador. Ou seja, a
segunda finalidade pela qual fazemos oração é que ela deve conduzir-nos
ao conhecimento próprio.
“Espelho, espelho
meu, existe alguém no mundo mais bela do que eu?”, perguntava-se a princesa do
conto de fadas. E o espelho respondia afirmativa ou negativamente. Oxalá o
espelho da nossa consciência respondesse tão claramente às dúvidas que temos
sobre nós mesmos.
Em muitas ocasiões,
somos uma incógnita aos nossos próprios olhos, porque o nosso verdadeiro rosto
está oculto sob o véu das nossas paixões, do receio de nos reconhecermos como
somos, do orgulho que retoca as nossas obras com cores irreais, do egoísmo que
defende a todo o custo o proveito próprio...
Ora, o espelho que
responde às questões sobre nós mesmos só pode ser, por isso, um espelho
“indireto”: o espelho da oração. Só espelhando-nos em Deus, vendo-O como nosso
Criador e vendo-nos como criaturas Suas, sabendo-nos filhos Seus pelo Batismo,
mas também pecadores que O ofenderam e continuam a ofendê-Lo..., só assim
iremos retirando esse véu que nos esconde de nós mesmos.
Por outro lado, há na
nossa vida ainda um outro véu: a incerteza sobre o que fazer. Que caminho
seguir na vida? Como sobreviver neste mundo, sendo honesto? Como encarar
serenamente essa dificuldade familiar? O que Deus quer de mim com este desastre
econômico? Por que esta doença agora?...
Deus conhece as
respostas a todas essas perguntas, e está sempre à nossa disposição para nos
dar as explicações ou o conforto necessários.
No entanto, como
dizia Santo Afonso de Ligório, “Deus não costuma falar à alma que não Lhe
fala” (8): o Senhor deseja falar-nos do Seu amor e dos Seus planos a
nosso respeito, mas, se nós não nos dispusermos a procurá-Lo – a fazer
oração –, permaneceremos na ansiedade da dúvida.
A oração é, portanto,
também o grande meio para descobrirmos a resposta ao “Que devo fazer nesta
vida?”. A resposta, em si, é muito simples: a vontade de Deus. Mas não se
trata apenas dessa vontade divina que poderíamos chamar “genérica”, aplicável a
todos os homens, e que se expressa nos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja;
trata-se, mais especificamente, da vontade concreta de Deus para mim, aqui e
agora. Desde as grandes decisões que precisamos tomar na nossa vida até as
decisões corriqueiras do nosso dia a dia, tudo deve seguir a orientação divina,
num ato de confiante aceitação e obediência.
É por isso que, para
nos aproximarmos de Deus, não nos basta apenas evitar o descumprimento dos
preceitos divinos. Não nos basta ser “certinhos”, ser “bons” ou até isso a que
chamam “um santo”, mas sempre pela via negativa: “Não mato, não roubo, não minto”...
Isso seria reduzir a religião a um legalismo mais ou menos do mesmo tipo do
daqueles que dizem: “A minha religião me proíbe de fumar”. Não: o cristão não é
um colecionador maníaco de regras e proibições negativas: é um filho empenhado
em aceitar e fazer por amor a vontade desse Deus que o amou
primeiro (cf. 1 Jo 4, 10).
De certa forma, toda
a nossa oração se resume à pergunta de Saulo, depois de cair do cavalo cegado
pela luz divina: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9, 6).
Aquele judeu legalista, ferreamente empenhado em perseguir os cristãos porque,
no seu entender, tinham violado a Lei de Moisés, transformou-se, na sequência
dessas palavras tão simples, no mais fogoso dos Apóstolos de Cristo.
Por fim, temos
necessidade de orar porque, quando nos empenhamos seriamente em pôr em prática
o que Deus quer de nós, descobrimo-nos faltos de forças, de capacidades e
talentos. Faltos de tudo, necessitados de uns bens materiais, sem dúvida, mas,
sobretudo, de bens espirituais – de fé, de fortaleza, de esperança – que só Ele
pode conceder. Por isso, nada mais natural do que dirigirmo-nos ao Deus
onipotente, numa atitude de súplica. Bem diz o novo Catecismo da
Igreja Católica que “o homem é um mendigo de Deus” (n. 2559). Se é lógico
que um mendigo peça aos homens o que precisa, muito mais lógico é que, na
oração, o homem peça a Deus tudo.
“Orar é o
caminho para atalhar todos os males que sofremos” (9). São imensas as
promessas que encerra esta afirmação do Bem-aventurado Josemaría Escrivá.
“Atalhar os males” da vida – a solidão, o tédio proveniente da ausência de
sentido para a própria vida, um sofrimento humanamente irremediável, a carência
de uns bens necessários, a desorientação à hora de agir – não é o que todas as
pessoas buscam? Aí está a solução. Acessível a todos, não como a receita barata
oferecida por um enganador, para curar todas as doenças; mas como a solução de
tudo pela sua raiz, que é Deus.
E O QUE É FAZER
ORAÇÃO?
Todos sabemos, ao
menos genericamente, o que é a oração. Mesmo os que não oram, os que não creem,
os que têm uma vida desregrada, sabem o que é orar, embora pessoalmente não o
pratiquem... ou o façam com uma fé remota e confusa, como aquele homem que
orava assim: “Ó Deus, se é que existis, salvai a minha alma, se é que tenho
alma” (10).
No entanto, é muito
útil partir de uma noção clara do que realmente é a oração, e para
isso recorremos de novo à ajuda de almas experimentadas.
Com palavras de São
João Damasceno (11), “oração é a elevação da alma a Deus”. Supõe,
portanto, um encontro a sós entre dois seres: Deus e a criatura. Vimos atrás
que Deus nos criou para Ele, mas, à diferença dos seres inanimados ou das
criaturas irracionais, não somos para Ele apenas por existirmos e estarmos
passivamente à sua disposição – como uma tábua à disposição do marceneiro –,
mas porque Ele nos dotou de inteligência e vontade, e quer que caminhemos ao
seu encontro conscientemente, por um livre ato da nossa vontade esclarecida.
Vemos assim que essa
elevação da alma em busca do contacto com Deus é algo que corresponde à nossa
condição tal como Ele a criou. Portanto, ainda que possa parecer o contrário, a
iniciativa da oração não é nossa. “Deus é o primeiro a chamar o homem”,
diz-nos o Catecismo da Igreja (n. 2567).
A iniciativa é d’Ele,
sim, mas a resposta cabe-nos a nós. A “oração é o encontro da sede de Deus com
a nossa” (Catecismo, n. 2560). Depois de criar uns seres que pudessem conversar
com Ele, Deus está sedento de que o façamos. E, da nossa parte, temos tanto que
conversar com Ele! Por um ou outro dos motivos que apontamos acima, Deus
fez-nos de tal maneira que, se não O procuramos, simplesmente não encontramos a
nossa identidade. Isto reconforta-nos muito, porque sabemos de antemão que a
nossa oração não se perderá na imensa distância que separa a criatura do
Criador e, mais ainda, não será nunca inoportuna nem se chocará com a
indiferença do interlocutor divino.
Mas a compreensão do
que realmente seja a oração dá-se, sobretudo, pela via da experiência pessoal.
“Não sabes orar? Põe-te na presença de Deus, e logo que começares a
dizer: ‘Senhor, não sei fazer oração!...’, podes ter certeza de que começaste a
fazê-la” (12).
Para esse
aprendizado, deveríamos antes de mais nada dirigir-nos humildemente a Cristo
com as mesmas palavras dos Apóstolos: “Senhor, ensina-nos a
orar” (Lc 11, 1). E Ele não nos deixará sem resposta. Olharemos para o
seu exemplo e aprenderemos de tantas ocasiões da sua vida em que os
evangelistas deixaram explicitamente registrados momentos da sua oração ao Pai.
Pensemos, por
exemplo, nos seus quarenta dias de oração penitente no deserto, antes de
começar a vida pública, como para nos ensinar que é na oração que se obtêm as
luzes e as forças para cumprir as tarefas e a missão que Deus nos confia. Ou na
sua noite de vigília antes de escolher definitivamente os doze Apóstolos,
mostrando-nos assim que as escolhas que temos de fazer na vida devem ser
decididas em conjunto com o Pai. Ou na oração comovida junto do túmulo de seu
amigo Lázaro, antes de ressuscitá-lo, mostrando-nos que as horas duras nunca
nos devem fazer perder a esperança, antes nos devem levar a dar graças
antecipadas: “Pai,
dou-te graças por me teres ouvido. Eu sabia que sempre me ouves” (Jo 11, 41-42).
Ou na exultação do seu coração quando os Apóstolos regressam da sua primeira
missão carregados de frutos: “Eu te bendigo, Pai, porque escondeste
estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11, 25),
fazendo-nos ver que também a alegria deve ser motivo para elevarmos a alma aos
céus. E tantos exemplos mais!
Cristo, perfeito
Deus, não tinha de retirar-se para fazer oração, porque era um só com o Pai e
contemplava sem interrupção o rosto divino. No entanto, porque era ao mesmo tempo perfeito
homem, experimentou a necessidade de fazê-lo, e deixou-nos exemplo disso nas
circunstâncias mais diversas, as mesmas que podem acontecer na nossa
vida.
A ORAÇÃO VOCAL
Há muitas maneiras de
elevar a alma a Deus, de dialogar com Ele, da mesma maneira que são muito
diversas as formas de nos comunicarmos com os homens: pode ser a conversa
tranquila numa praça, a conversa pelo telefone ou, mais modernamente, a
comunicação através do “ciberespaço”. Sendo a oração um diálogo, nada mais
razoável que se revista de formas muito variadas, em função da situação
pessoal, das necessidades, do tempo disponível ou do grau de intimidade com o
interlocutor divino. “Há muitas maneiras de orar; infinitas, poderia
dizer” 13.
Mas as inúmeras
formas de orar foram agrupadas pela tradição cristã em duas principais:
a oração mental e a vocal. Não se trata de coisas absolutamente
diferentes, mas de duas modalidades da mesma realidade. Consideremos primeiro a
oração vocal, que foi a primeira forma de orar que aprendemos, talvez dos
lábios da nossa mãe.
Três jovens foram
fazer um passeio velejando. A princípio, o dia era ensolarado e convidativo,
mas ao poucos o vento começou a soprar com força e não demorou a formar-se uma
tempestade. Empurrados pela correnteza, acabaram por encontrar-se em alto mar.
A situação foi-se tornando mais e mais difícil, e corriam o perigo de morrer
afogados. Quando estavam quase sem esperanças, um dos três disse:
– Vamos rezar.
E começou o
Pai-Nosso... Mas de repente calou-se e pôs-se a chorar:
– Eu já não sei o
Pai-Nosso!
Um outro, que
mantinha a sua fé mais em dia, serenou-o e continuou a oração até o fim. A
tempestade durou mais algum tempo, mas depois acalmou-se e os três conseguiram
retornar sãos e salvos.
Este episódio
verídico mostra-nos diversas coisas: a eficácia da oração, a conveniência de
memorizarmos as orações tradicionais e a ligação bastante direta que há entre a
fé e as orações vocais. Por isso, diz-nos o Catecismo da Igreja
Católica que “a oração vocal é um dado indispensável da vida cristã” (n.
2701).
Por ela, oramos
também com o nosso corpo. Assim o diz a Epístola aos Hebreus: “Ofereçamos sem cessar
a Deus um sacrifício de louvor, isto é, o fruto de lábios que confessam o seu
nome” (Hb 13, 15). Pelo som da nossa própria voz, as palavras, quando
serenamente pronunciadas, contribuem eficazmente para estimular
a nossa devoção.
Por outro lado, a
oração vocal é simples e ágil, e por isso aplica-se a uma infinidade de
situações diversas. Não é difícil que conheçamos orações ou trechos de orações,
muitas vezes breves jaculatórias, que exprimam a Deus os nossos sentimentos de
ação de graças ou de arrependimento, os nossos pedidos de ajuda, a nossa fé,
aceitação e confiança.
Não sem uma certa
ponta de humor, alguém comparava a oração vocal aos sanduíches, que prescindem
de talheres e pratos e podem, por conseguinte, ser levados de um lado para
outro e comidos em qualquer parte. Pode-se rezar o terço no ônibus ou no metrô,
pode-se dizer uma Ave-Maria ao fechar uma porta, recitar o “Santo Anjo” ao
atravessar a rua...
Deve-se, no entanto,
evitar dois extremos nessas nossas orações. O primeiro deles é o perigo de
menosprezá-las e considerá-las de “segunda categoria”, como se fosse “pouco
autêntico” utilizar orações compostas por outras pessoas para expressar os
nossos sentimentos pessoais. Ninguém julga “pouco autêntico” que um namorado
leia um poema de Castro Alves à sua amada ou lhe cante uma conhecida canção de
amor. Assim também com Deus.
No outro extremo, está
o risco de bitolar-se, de perder a espontaneidade na expressão dos
afetos e necessidades a Deus. Como contava alguém de um casal que voltava das
compras; ao passarem diante da igreja paroquial, a mulher sugeriu: “Vamos
entrar e rezar um pouco?”. Mas o marido respondeu-lhe: “Agora? Impossível! Não
trouxemos o nosso livro de orações...”. Não se deve permitir que a oração vocal
produza uma “dependência”, quando, na realidade, deve ser
um auxílio para o diálogo com Deus.
Referindo-se à
catequese das crianças, o Catecismo diz que “a memorização das
orações fundamentais oferece um apoio indispensável à vida de oração, mas
importa grandemente saborear o seu sentido” (n. 2688). Devemos estar sempre
agradecidos aos nossos pais que, quando éramos pequenos, nos ajudaram a
aprender de cor as orações básicas; mas o correr do tempo e o amadurecimento da
nossa personalidade reclamam que saibamos repeti-las com consciência e tirar
fruto pessoal daquilo que a princípio talvez apenas pronunciássemos como uma
cantilena incompreensível.
“Devagar –
Repara no que dizes, quem o diz e a quem – porque esse falar às pressas, sem
lugar para a reflexão, é ruído, chacoalhar de latas. E te direi, com Santa
Teresa, que a isso não chamo oração, por muito que mexas os lábios”
(14). Não basta apenas o ruído de um “chacoalhar de latas”: é preciso que se
ponha a cabeça no significado das palavras e o coração no seu conteúdo. Diz
Santa Teresa de Ávila que conheceu pessoas a quem Deus, durante a simples
recitação de um Pai-Nosso, elevava a um estado de oração verdadeiramente
místico. E eram pessoas muito pouco instruídas.
Devemos estar
preparados, no entanto, para as distrações nesta forma de oração, pois são
consequência inevitável da nossa fragilidade.
Conta-se que, em
certa ocasião, um camponês se vangloriava diante de São Bernardo de nunca se
distrair ao rezar. O santo, profundo conhecedor da natureza humana, disse-lhe:
– Meu amigo, vamos
fazer um trato. Se você conseguir rezar um só Pai-Nosso sem se distrair,
dou-lhe o cavalo em que estou montado.
Animado com o
desafio, o camponês iniciou prontamente o seu Pai-Nosso. Mal tinha começado,
interrompeu a oração e disse:
– Com os arreios e a
sela também?
Ficou sem cavalo, sem
arreios e sem sela...
Isto não significa
que não devamos esforçar-nos por melhorar o nível da atenção com que rezamos as
nossas orações vocais. Se as recitamos maquinal ou apressadamente – como pode
acontecer com as orações da manhã e da noite –, de pouco servem. “Se você não
está atento, como quer que Deus esteja?”, dizia alguém, muito sensatamente.
De qualquer forma,
ainda que as nossas orações vocais não nos saiam tão redondas como gostaríamos,
nem por isso devemos omiti-las. Só Deus sabe quantas graças vem concedendo ao
longo dos séculos, como fruto dos Pai-Nossos, das Ave-Marias, dos Glórias e de
tantas outras orações vocais que o povo cristão elevou até Ele.
Um bispo perguntou
certa vez ao Papa Pio XII, por ocasião de uma audiência:
– Santidade, o senhor
dorme bem à noite?
O Papa, um tanto
surpreendido, respondeu:
– Sim. Mas por que me
pergunta isso?
E o bispo completou:
– Olhe, Santo Padre,
quando eu era pequeno, tínhamos uma empregada que, ao pôr-nos na cama, nos
fazia rezar para que o Papa tivesse um sono tranquilo. Desde aquela época,
tenho-o feito sempre e, na verdade, estava curioso por saber se dava
resultado...
Os frutos da oração
vocal ultrapassam em muito o nosso conhecimento, e certamente haveremos de
assombrar-nos quando descobrirmos toda a sua eficácia ao chegarmos à outra
vida.
A ORAÇÃO MENTAL
Toda a oração é, de
certa forma, oração mental. A própria oração vocal só é oração porque é mental,
pela concentração interior que exige. Mas, em sentido mais estrito, costuma-se
chamar oração mental àquela que é feita exclusivamente com a mente,
sem intervenção de palavras ou de orações compostas previamente por outros.
Segundo a definição
clássica de Santa Teresa, “oração mental, a meu ver, não é outra coisa
senão tratar intimamente com Aquele que nos ama, e estar muitas vezes
conversando a sós com Ele” (15). Não se pode expressar melhor o clima
em que se deve desenrolar a oração mental.
Os autores antigos
costumam distinguir vários níveis nessa oração sem palavras: desde a simples
consideração intelectual de uma verdade de fé, a que normalmente se
chama meditação, até a alta contemplação dos místicos, em que,
como diz São João da Cruz, “a alma se compraz em permanecer a sós com
Deus, fixando n’Ele a sua atenção, sem qualquer consideração particular”
(16). Mas, em qualquer dos seus níveis, a oração mental supõe a interrupção dos
afazeres quotidianos para dedicar um certo tempo diário exclusivamente a esse
encontro com Deus no silêncio e na intimidade do coração.
Em que se ocupa esse
tempo? Numa conversa simples em que se procura a aproximação com Deus e, a
partir daí, se busca o convívio e se estreita a amizade. Não há que imaginar
nada de complicado. Como se chega à amizade nas relações humanas? Não é pela
conversa informal em que, aos poucos, se vão descobrindo afinidades, e daí
nasce a simpatia, e depois o bem-querer? Com Deus é o mesmo, porque o coração
humano é um só e o mesmo, quer tratemos com os homens, quer tratemos com Deus.
Não temos outro coração para Deus.
Para dizer tudo desde
já, um bom modelo para a nossa oração mental é o diálogo que os Apóstolos
mantinham com Jesus Cristo. Aquilo que eles lhe diziam de viva voz, sem nenhum
constrangimento, sem atitudes rebuscadas, devemos nós dizer-lho com o coração.
Os discípulos contavam ao Senhor os acontecimentos do seu dia a dia, pediam-lhe
conselhos, desabafavam com Ele nas horas amargas, comunicavam-lhe as boas
notícias e as alegrias. E o Senhor os ia instruindo, respondendo-lhes e
revelando-lhes os seus mais profundos mistérios. Hoje, como ontem e sempre, o
Senhor quer manter conosco esse convívio de amizade, quer ouvir-nos e quer
falar-nos, tal como àqueles Doze.
O QUE NÃO É ORAÇÃO
MENTAL
E já que descrevemos
em linhas gerais o que é a oração mental, é muito conveniente esclarecermos o
que não o é. O próprio Catecismo da Igreja Católica achou
necessário alertar para o perigo das conceituações errôneas que se podem formar
a este respeito (n. 2726).
Efetivamente, não é
raro ouvirmos amigos nossos que dizem: “Comecei a fazer tai-chi-chuan no Parque
da Água Branca, aos domingos de manhã, e mudei completamente; agora estou em
harmonia comigo mesmo. Essas coisas orientais ligam-nos de verdade com a
Energia Cósmica”. Ou outro, que acaba de fazer o curso do Silva Mind Control ou
leu algum livro sobre “o fascinante poder da mente”: “Cara, é tão legal quando
a gente entra em Alfa e sintoniza em Deus!”...
Muito em voga,
ocasionalmente até em ambientes católicos, estão as “técnicas corporais” de
oração, normalmente de inspiração oriental, como o Hare-Krishna. Entre elas, as
mais difundidas são a ioga e a “meditação transcendental”, que propõem uma
série de posturas (por exemplo, a conhecida “flor-de-lótus”, com as pernas
cruzadas sob o tronco), exercícios respiratórios e a repetição de mantras (frases
ou palavras de caráter sagrado ou quase-sagrado, “capazes de unificar energias
habitualmente dispersas e opostas”).
A finalidade dessas
técnicas é – segundo dizem – concentrar progressivamente o indivíduo em si
mesmo até atingir o vazio interior. Por meio delas, a pessoa deve
desprender-se progressivamente de todas as coisas exteriores, bem como de todos
os seus vínculos com elas: os desejos, os medos, o amor e o ódio. Uma vez
atingido esse estágio interior de completo esvaziamento, o “eu”, “centelha da
divindade cósmica encarcerada na matéria”, estaria preparado para ingressar no
nirvana, para desfazer-se como uma gota no oceano cósmico do Absoluto.
Este tipo de
exercícios, embora os seus praticantes nem sempre tenham plena consciência
disso, traz a marca do hinduísmo e do budismo. Já o cristão sabe que o mundo
não é um cárcere do qual se deva fugir, mas uma obra de Deus que vale a pena
amar e admirar; sabe que nenhum de nós é um “fragmento perdido de Deus”
destinado a dissolver-se depois da morte, a perder a individualidade numa
espécie de “sopa cósmica”; é uma criatura de Deus, essencialmente distinta
do seu Criador, mas chamada a relacionar-se amorosamente com Ele por toda a
eternidade, de tu a tu, sem pe rder a sua personalidade própria. E, portanto,
sabe que a oração mental não é nenhum processo de esvaziamento interior, mas
sim um cumular-se de Deus, de Cristo.
O Papa João Paulo II,
referindo-se a Santa Teresa, afirmava que ela “rejeitava os livros que
propunham a contemplação como um vago engolfar-se na divindade ou como um ‘não
pensar em nada’, vendo nisso o perigo de a pessoa se debruçar sobre si mesma,
de afastar-se de Cristo, do qual nos ‘vêm todos os bens’. Daí o seu grito:
‘Afastar-se de Cristo..., não o posso sofrer’. Esse grito é válido também nos
nossos dias, contra algumas técnicas de oração que não se inspiram no Evangelho
e que praticamente tendem a prescindir de Cristo, em favor de um vazio mental
que não tem sentido dentro do cristianismo” (17).
Outras correntes,
mais inspiradas em certas psicologias de cunho ocidental ou sincrético, tendem
a confundir a oração com uma simples operação psicológica. Usam as mesmas
“técnicas” que descrevemos anteriormente, mas com a finalidade de
produzir estados interiores especiais. A ideia, na sua vertente mais
mística, é “sintonizar com o comprimento de onda de Deus”, o “Alfa perene”, a
fim de “conectar-se com o seu manancial inesgotável de paz infinita, amor e
sabedoria sem fim” – como se Deus fosse a antena de uma emissora de TV... Ou
então, na sua vertente mais prática, “liberar as imensas energias mentais que
você traz dentro de si, e que lhe possibilitariam fazer qualquer coisa, até
tele-transportar-se para outros planetas”... Sem comentários.
De certa forma, essas
técnicas de oração são semelhantes, em ponto maior, às
pequenas superstições que alguns cultivam, confundindo atitudes e
palavras rituais – como pôr uma fita do Senhor do Bonfim no espelho do carro ou
acender uma vela a Nossa Senhora Aparecida exclusivamente na hora das
dificuldades econômicas ou de saúde – com a verdadeira oração. Por trás desses
“mecanismos” todos, grandes e pequenos, está a intenção de manipular Deus,
de obrigá-Lo a fazer a nossa vontade, a pretensão de servir-se d’Ele ao invés
de servi-Lo. E, como diz a canção, “isso não é amor”. Pode ser vaidade,
mercenarismo, cegueira orgulhosa ou simples burrice, conforme o caso; mas não é
oração.
Não há problema em que
um católico pratique, se lhe interessar, tai-chi-chuan, ou ioga, ou exercícios
de respiração, na medida em que essas coisas podem realmente produzir um certo
efeito de relaxamento muscular, de bem-estar interior ou de catarse que livra
das tensões da vida. O que não pode é esquecer que seria uma solene estupidez
ver nisso mais do que uma simples forma de ginástica ou de higiene mental.
A diferença que há
entre essas atitudes voltadas para dentro, para uma mesquinha e egocêntrica
busca de si mesmo, e a verdadeira oração, que nos abre para além de nós mesmos,
para o verdadeiro Deus, aparece de maneira muito viva no relato de uma
escritora russa contemporânea, Tatjana Goritschewa.
Convertida ao
cristianismo aos vinte e seis anos de idade, essa autora fundou em Leningrado o
primeiro movimento feminino cristão, ajudou a organizar palestras e aulas sobre
o cristianismo em toda a antiga URSS e chegou a publicar dois jornais
clandestinos; depois de ter sido presa e submetida a interrogatórios, foi
exilada em 1980.
Descrevendo-nos a
trajetória da sua conversão, conta-nos Tatjana que, revoltada com a ideologia
marxista e ateia dominante, se refugiou com avidez na ioga quando se difundiram
na União Soviética os misticismos orientais. Segundo lhe tinham dito os gurus,
“por meio de uns exercícios e de um saber oculto acerca de ‘poderes astrais e
mentais’, poderia alcançar certeira e conscientemente a categoria de um
super-homem”. Mas o resultado foi apenas uma sensação de profunda e universal
angústia e depressão. Vejamos como ela mesma relata o momento crucial da sua
vida:
“Cansada e sem
vontade, ia fazendo as minhas sessões com os mantras. É preciso que se saiba
que, até aquele momento, eu nunca tinha pronunciado uma só oração; mais ainda,
nem mesmo conhecia uma única oração. Descobri, porém, que um dos meus manuais
de ioga sugeria que se usasse uma oração cristã, o Pai-Nosso, como mantra.
[...] Comecei, pois, a recitá-lo como se costuma fazer na ioga, sem imprimir
ênfase às palavras, repetindo-as de maneira automática. Murmurei assim o
Pai-Nosso umas seis vezes, quando de repente me dei conta do que estava
dizendo, e num instante me vi completamente transformada. Compreendi – não com
a minha ridícula inteligência, mas com todo o meu ser – que Ele existia. Ele, o
Deus vivo, o Deus pessoal, que me amava a mim e a todas as criaturas, que tinha
criado o mundo, que se tinha feito homem, o Deus crucificado e ressuscitado”
(18).
Em outubro de 1989, a
Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma Carta dirigida aos bispos
e a todo o povo cristão acerca da meditação cristã. O parágrafo final desse
documento compendia e sintetiza esplendidamente tudo o que acabamos de ver:
“O amor de Deus,
único objeto da contemplação cristã, é uma realidade de que ninguém se pode
apoderar por meio de algum método ou técnica; pelo contrário, devemos ter
sempre o olhar fixo em Jesus Cristo, através de quem o amor de Deus chegou até
nós” (19).
Luiz Fernando Cintra
NOTAS
(1) Santa Teresa,
cit. em J. Daujat, Viver o cristianismo, Aster, Lisboa, pág. 63;
(2) Santo Afonso
Maria de Ligório, citado em B. Baur, A vida espiritual, 2ª ed., Prumo,
Lisboa, 1985, págs. 138-9;
(3) Josemaría
Escrivá, Amigos de Deus, Quadrante, São Paulo, 1979, n. 238;
(4) cf. Josemaría
Escrivá, Forja, Quadrante, São Paulo, 1987, n. 1003;
(5) São Tomás de
Aquino, cit. em Santo Afonso M. de Ligório, A oração, I, 8;
(6) Santo Cura d´Ars,
cit. em Liturgia das horas. Ofício de leituras, Paulus, pág. 1494;
(7) Santa Teresa de
Lisieux, Ms. autobiogr., C25r;
(8) Santo Afonso
Maria de Ligório, Como conversar contínua e familiarmente com Deus,
em Obras ascéticas, BAC, vol. I, págs. 316-7;
(9) Forja, n.
76;
(10) cit. em Cardeal
Newman, Apologia pro vita sua, Paulus, São Paulo, 1964, pág. 53;
(11) São João
Damasceno, De fide orthodoxa, 3, 24; PG 94, 1089D;
(12) Josemaría
Escrivá, Caminho, 8ª ed., Quadrante, São Paulo, 1995, n. 90;
(13) Amigos de
Deus, n. 243;
(14) Caminho, n.
85;
(15) Santa
Teresa, Vida, 8, 2;
(16) cit. em J.
Daujat, Viver o cristianismo, pág. 86;
(17) João Paulo
II, Homilia em Ávila, 1-XI-1982;
(18) Tatjana Goritschewa, Von Gott zu reden ist gefährlich, Herder,
Freiburg, 1984, págs. 26-7;
(19) Congregação para
a Doutrina da Fé, Carta sobre a meditação cristã, n. 31; para todo este
tema, cf. D. Estêvão Bettencourt, O.S.B., Pergunte e responderemos, n.
335, abril de 1990, págs. 156-67