comentário do Evangelho –
Mc 2,1-12
Certa ocasião, quando
refletíamos esse evangelho em grupo, alguém perguntou se na casa onde Jesus
estava pregando, havia elevador ou coisa parecida, se olharmos o relato em si
mesmo, vamos acabar fazendo outras perguntas como, “Será que eles não podiam pedir
licença para passar no meio das pessoas e entrar na casa?” e mais ainda...
Seria normal que as pessoas que estavam aglomeradas á entrada, quando vissem o
esforço dos quatro homens, subindo na parede com o paralítico deitado em uma
cama, oferecessem ajuda, buscando uma alternativa mais fácil...
O
próprio Jesus, não poderia ter dado um jeito de sair para atender o paralítico,
sem precisar tanto esforço de subir e ainda ter de abrir um buraco no telhado?
Fazer perguntas como essas, é muito importante para a nossa reflexão, pois
vamos e convenhamos, o modo que eles encontraram para colocar o paralítico á
frente de Jesus, não foi o mais fácil, aliás, correu-se até o risco de um grave
acidente.
Hoje
em dia a gente sabe que nossos templos existentes, ou os que estão em
construção, devem ter em seu projeto, a construção de rampas, para facilitar o
acesso de nossos irmãos deficientes. Mas com certeza, não é este o tema do
evangelista, ele está querendo dizer alguma coisa as suas comunidades e aos
cristãos do nosso tempo.
Dia
desses, alguém bastante estressado dizia-me que certas pessoas só atrapalham a
vida da comunidade, porque são muito radicais, geniosas, incomodam a rodos, e o
tempo todo só arranjam encrencas e mais encrencas, concluindo, dão muito
trabalho, são sempre do contra, enfim, chatas e duras de engolir, e que sem
elas, a comunidade é uma maravilha, o conselho deveria tomar providência, ou
quem sabe, o padre impor a sua autoridade.
Pessoas
com essas características não caminham, e ainda dificultam a vida de quem quer
caminhar: pronto, já começamos a descobrir os paralíticos e paralíticas de
nossas comunidades, irmãos e irmãs que não se emendam de seus defeitos, nunca
mudam o seu jeito de ser, não se convertem e precisam portanto, ser acolhidas e
carregadas. Há irmãos na comunidade que a gente tem prazer de encontrar, é
sempre uma alegria imensa, mas há também esses, que nos perturbam, incomodam, e
a gente não fica a vontade, se estão conosco em uma reunião da pastoral ou do
movimento, a troca de “farpas” será inevitável...
Há
no texto duas coisas que chamam a nossa atenção, primeiro o esforço desse
quarteto, subir pela parede, desfazer o telhado e descer a cama com cordas.
Jesus elogia-lhes a fé, parece até que fez o milagre como retribuição a tanto
esforço. Eles tinham fé em Jesus Cristo, sabiam que se o levassem diante dele,
seria curado, mas por outro lado, embora o texto não cite isso, a gente percebe
que o amavam muito, tiveram com ele muita paciência, sei lá quantos quilômetros
tiveram que andar, carregando aquela cama que deveria ser pesada, e ainda, ao
deparar com a multidão aglomerada á frente da casa, poderiam ter desistido, já
tinham feito a sua parte. Mas a força do amor e da fé, fez com que não
desistissem, e se preciso fosse, seriam capazes de derrubar a casa.
Os
quatro são uma referência para as nossas comunidades, onde muitas vezes
falta-nos o amor e a fé, para carregar nossos paralíticos e superar os
obstáculos, passando por cima dos preconceitos. Nas comunidades há pessoas
amorosas, pacienciosas, que aceitam conviver com todos, amando-os como eles
são, sem exigências, preconceitos ou radicalismo, mas há também a turma de
“nariz empinado”, como aqueles doutores da lei, que não crê em um Deus que é
misericórdia, e que perdoa pecados, seguem normas e preceitos, até trabalham na
comunidade, mas são extremamente exigentes com os “paralíticos”, acham-se
perfeitos e não aceitam a convivência com os imperfeitos.
Jesus
elimina o problema pela raiz, “Filho, teus pecados te são perdoados...”, a cura
física vem em segundo plano, e se a enfermidade impede que o paralítico se
aproxime de Jesus, a comunidade os carrega, possibilitando que ele também faça
a experiência do Deus que perdoa, ora, se houver na comunidade intolerância,
preconceitos, e ranços ocultos, como é que essas pessoas poderão experimentar o
amor, o perdão e a misericórdia? Os intolerantes têm sempre um olhar
extremamente crítico e severo, para com os paralíticos, e não aceitam que
outras pessoas tenham por eles amor e ternura, manifestada na paciência e
tolerância.
Por
isso Jesus ordena – levanta-te, toma o teu leito e vai para casa. Deus nunca
faz as coisas pela metade, na obra da salvação, Jesus não fez simplesmente uma
reforma no ser humano, mas o transforma em uma nova criatura, na graça santificante
do Batismo, fazendo com que deixe de se relacionar com Deus na religião
normativa, porque crê no Deus que é todo amor e misericórdia, que perdoa
pecados e os liberta com a sua santa palavra, em Jesus de Nazaré.
Dificuldades da missão
Com
o texto de hoje tem início o que chamamos, no evangelho de Marcos, as
"controvérsias galileanas" (Mc 2,1-3,6), que devem ser compreendidas
como disputas, dificuldades e oposições com as quais Jesus se deparou na
realização de sua missão.
Em
geral, as dificuldades provinham da interpretação e da consequente prática da
Lei. Quem pode perdoar os pecados, a não ser Deus? Os escribas têm razão, pois
"só Deus pode perdoar pecados". Jesus, no entanto, não disse outra
coisa ao afirmar ao paralítico "os teus pecados são perdoados". O
passivo divino revela que o sujeito da ação de perdoar é Deus. Mas como parte
da aliança nova, em que a lei será posta no fundo do ser e escrita no coração
(cf. Jr 31,33), está o perdão de toda culpa (Jr 31,34).
Jesus
sente-se investido desse poder. A fé dos quatro homens que carregavam o
paralítico provoca a reação de Jesus. Eles parecem representar os discípulos,
cuja missão é conduzir as pessoas ao Senhor e suplicar por elas. Deus é bom
para com todos.
SOB O PESO DO PECADO
A insistência sobre o
tema do perdão dos pecados chama a atenção, na cena da cura do homem
paralítico. Assim que Jesus o vê descer através de um buraco aberto no teto,
declara que seus pecados estão perdoados. Esta declaração provoca alguns
escribas que estavam por perto. Para eles, a palavra do Mestre soava como uma
verdadeira usurpação de algo reservado exclusivamente a Deus. Portanto, Jesus
era um blasfemo!
A
maneira como ele rebate a maledicência dos escribas é significativa: cura o
paralítico para provar que "o Filho do Homem tem, na Terra, o poder de
perdoar os pecados". O gesto poderoso de cura parece insignificante diante
do poder maior de perdoar os pecados. E Jesus, de certo modo, parece sentir-se
mais feliz por perdoar os pecados do que por curar. Por quê?
O
perdão dos pecados tem, também, uma função terapêutica. Trata-se da cura do ser
humano na dimensão mais profunda de sua existência, ali onde acontece seu
relacionamento com Deus. Sendo esta dimensão invisível aos olhos, as pessoas
tendem a se preocupar mais com as dimensões aparentes de sua vida, buscando a
cura quando algo não está bem no âmbito corporal. Jesus vê além, preocupando-se
por libertar quem pena sob o peso do pecado, mais do que sob o peso da doença.
O primeiro é muito mais grave. Permanecer no pecado significa viver afastado de
Deus e correr o risco de ser condenado. Este é o motivo por que o Mestre, antes
de mais nada, que ver o ser humano liberto de seus pecados.
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