Comentário baseado no Evangelho de Mt 18,21-35
O pronome possessivo
“meu irmão”, presente na pergunta que Pedro dirige ao Mestre explicita
que se trata das relações entre os irmãos e irmãs da comunidade. O ensinamento
está portanto na vida em comunidade e não fora, a meu ver algo bem mais
difícil, pois a pessoa a quem devemos perdoar não é um estranho que nos ofendeu
em uma ocasião, e que depois dificilmente iremos nos encontrar com ele. Certa
vez um sujeito que eu não conhecia, me derrubou da bicicleta ao empurrar-me
quando eu passei pedalando perto dele. Vim embora com os cotovelos ralados e
foi fácil perdoá-lo, nunca mais o vi em minha vida.
O
perdão a que se refere o evangelho é para aquela pessoa que se vê todo dia e
que se convive na comunidade, na pastoral, na catequese, no ministério ou no
movimento. E por que é muito mais difícil de perdoá-lo ? Porque cada vez que o
vemos ao nosso lado ou á nossa frente, vamos lembrar sua falta pois o nosso
subconsciente armazena muito bem os detalhes da ofensa recebida. Por isso,
quando dizemos “Nem me lembro mais do mal que ele, ou ela, me fez”, estamos
sendo no mínimo hipócritas.
Pedro
exagerou ao colocar sete, como a quantia de vezes a ser perdoada, pois, com as
pessoas mais próximas do relacionamento, como esposa ou parentes, perdoar três
vezes estava de muito bom tamanho para os Judeus. Jesus não se deixa levar por
números dessa matemática mesquinha e miserável na relação com os irmãos e irmãs
de comunidade, mas procura mostrar, através da parábola, como Deus se relaciona
com o Homem nessa questão.
Nas
nossas comunidades há muitos relacionamentos que têm como parâmetro essa
matemática de Pedro, quantas pessoas que desistem de viver em comunidade,
porque chegou no limite da sua capacidade de amar e perdoar, passou de sete
vezes e preferiu cair fora porque o padre, o diácono, o ministro ou seja lá
quem for, é intragável e insuportável. Essas pessoas migram para outras
Paróquias ou até Igrejas, na ilusão de que vão encontrar uma comunidade
perfeita, com pessoas angelicais, de relações sempre harmoniosas. Na vida
conjugal e familiar, que é também a pequena comunidade, casais de relações
sólidas e testemunhos estupendos na vida cristã, de repente se separam, porque
um deles passou dos limites, estourando a quota estabelecida, e o outro não
aguentou.
O
amor de Deus, sua misericórdia e paciência para com todos nós, é eterno,
infinito e sem limites. O atestado de que somos todos Filhos e filhas de Deus,
não está em algum carisma prodigioso ou em coisas fantásticas que somos capazes
de fazer, mas sim em amar sinceramente as pessoas com quem convivemos na Igreja
e na Família, aceitando-as do jeito que elas são, com suas fraquezas e
defeitos, pois... É exatamente assim que DEUS NOS AMA!
Perdoar à medida da compaixão de Deus
Como
parte do "discurso eclesiológico" (Mt 18), o texto de hoje apresenta
o tema dominante de todo o discurso: o perdão. Não se trata de quantificar o
perdão, mas de imitar a compaixão de Deus que perdoa toda dívida . A
experiência, consciência e reconhecimento de ter sido perdoado por Deus, tem
para o membro da comunidade uma implicação prática: perdoar.
Nesse
sentido os versículos 32b-33 resumem o ensinamento da parábola: ". eu te
perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ter
compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?".
.
ATÉ QUANDO PERDOAR?
Conviver
é uma arte. Não basta boa vontade e paciência para que o relacionamento
interpessoal seja perfeito. Embora com todas as precauções, é grande a
possibilidade de desentendimento entre pessoas amigas, e até mesmo entre
cristãos convictos.
Entretanto,
a questão não reside na ruptura, e sim, na disposição a refazer os laços de
amizade rompidos. Ninguém pode garantir que uma única reconciliação seja
suficiente para cimentá-los, para sempre. É possível que outras rupturas
aconteçam, pelo mesmo motivo. A tendência humana é impor limites bem definidos
a esta situação. "A paciência tem limite" - assim justificamos a
ruptura definitiva.
O
discípulo de Jesus defronta-se com a lição de perdoar, toda vez que for
ofendido. É exortado a fazer frente a uma tendência humana muito forte, a de
não perdoar. O motivo apresentado pelo Mestre é inquestionável: é assim que
somos perdoados pelo Pai. Quem se julga tão fiel a Deus a ponto de estar seguro
de jamais correr o risco de pecar? Só um insensato poderá ter tal pretensão.
Todos
somos pecadores e precisamos do perdão de Deus. Da mesma forma, quando alguém
precisar do nosso perdão, por respeito a Deus somos obrigados a concedê-lo.
Trata-se de dar o que também recebemos.
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