Comentário do
Evangelho de Lc 23, 1-49
Rebaixamento
é uma palavra que no esporte causa calafrios a dirigentes, jogadores e
torcedores, cair para uma divisão inferior é humilhante e porque não dizer
“doloroso”, ainda mais quando o time pertence à divisão de elite do futebol.
Isso
também se aplica em nossa vida, na realização pessoal em todas as dimensões:
social, política e econômica, onde a formação escolar e profissional, agregada
á evolução cultural, permite ao homem galgar patamares mais altos, conquistando
respeito, prestígio, sucesso e enfim a fama.
O
homem foi criado por Deus para a ascese. Às vezes, o modo que o homem utiliza
para essa ascensão nem sempre está em sintonia com o projeto de Deus, quando a
mesma se faz através da mentira,desonestidade e exploração do semelhante. Neste
caso já não se trata de um projeto divino, mas sim diabólico.
Literalmente
falando, o Jesus do evangelho é um rebaixado, no aspecto moral, social,
político e religioso do seu tempo e na semana santa, que se inicia nesse
domingo de ramos, não celebramos, como muitos pensam, um Cristo morto e
derrotado, mas a liturgia própria dessa semana reaviva em nossa mente e coração
a via dolorosa que Jesus percorreu para alcançar a glória, fazendo para isso a
sua “kênose”, ou esvaziamento, como afirma o apóstolo São Paulo na carta aos
hebreus “não ursupou da sua divindade mas esvaziou-se a si mesmo”.
Em
resumo, Cristo desceu ao mais baixo grau da condição humana, fazendo-se escravo
e morrendo como um bandido, sendo desprezado pelos homens, que o viam como um
maldito diante de Deus.
No
Antigo Testamento conhecemos homens santos, considerados justos diante de Deus,
porém, nem o mais virtuoso dos homens seria capaz de realizar tão grande ato de
amor, como fez Jesus, que se apresenta como o homem novo, santo e perfeito, que
com a salvação resgatou o ser humano, livrando-o da condenação eterna, pois a
ofensa que causara a ruptura fora muito grande e imperdoável e por isso, o ato
da redenção teria de ser proporcional ao pecado cometido, pois somente dessa
maneira o homem se reabilitaria diante de Deus, resgatando a comunhão perfeita
do paraíso onde Deus o colocara desde a sua origem.
É
precisamente essa alegria, de uma humanidade renovada que ecoa nesse domingo de
ramos no evangelho de Lucas, com a narrativa da entrada triunfal na cidade
santa de Jerusalém. Não se trata de um triunfo momentâneo, ou de um engodo que
arrastará Jesus para o fracasso da cruz, ao contrário, é a expressão mais alta
e sincera da gratidão do homem, que se manifesta no louvor ao Rei bendito, que
vem em nome do Senhor. Jesus já tinha tomado a decisão, após compreender a
vontade de Deus a seu respeito e por isso subiu a Jerusalém, para ser a páscoa
definitiva que iria redimir a toda a humanidade.
O
relato da paixão segundo Lucas parece ir na contramão da história, porque
termina melancolicamente com o enterro de Jesus e com ele, parecia que o homem
havia enterrado todos os seus sonhos e esperanças que ainda havia no coração
daquele povo. A caminhada humana por essa vida parece terminar de maneira
também tão melancólica, mas precisamos prestar atenção no contexto da
narrativa, a fidelidade de Jesus ao Pai e o seu amor pela humanidade, o fará
superar toda rejeição, ódios e traições, presente no coração dos que tramaram
sua morte, e no cálice de amargura que ele não se recusou tomar, estava o mais
doce de todos os amores que o homem já experimentou.
O
grupo dos discípulos não é perfeito, Judas o traiu, Pedro o negou e além do
mais discutiam entre eles quem seria o maior. Em cada personagem que
protagoniza a narrativa podemos nos ver, nem sempre fazendo um bom papel.. os
que dormem enquanto Jesus se angustia, são os cristãos que não vivem a fé
encarnada, que consegue vislumbrar Jesus em todos os que sofrem. Há também os
que o traem como Judas, porque não aceitam seu evangelho como referência máxima
para se viver, ou ainda os que como Pedro, dizem que são capazes de dar a vida
pelo mestre mas na hora mais crítica, em que a sociedade não aceita sua
doutrina, alegam que não o conhecem.
Também
é bom lembrar que o primeiro julgamento de Jesus foi feito na própria
comunidade dos judeus, há comunidades onde o moralismo exacerbado provoca
julgamento e condenação de outros Cristos. Pilatos representa aqueles cristãos
que jogam o problema para outros resolverem, falam contra o governo, contra o
sistema, contra a ideologia, falam até da própria Igreja, mas nunca tem coragem
de assumir, dizer o que pensam e mover uma ação em favor da vida dos inocentes.
Já o grande Herodes são os cristãos que conhecem a Jesus, ouviram falar de suas
maravilhas e exigem seus sinais prodigiosos, para que possam crer. São os que
correm atrás do Cristo dos espetáculos que atraem as multidões.
Por
isso, antes de agitar nossos ramos e cantarmos hosanas e louvores ao Cristo,
nesse domingo de ramos, precisamos nos perguntar que cristãos somos nós e de
que lado estamos...
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