Muitos se perguntam: os católicos adoram imagens? A resposta é: NÃO! Nunca
as adoraram, sempre as valorizaram. As imagens valem o que vale uma foto; ela
pode estar gasta, mas recorda um ente querido. Os católicos não adoram imagens;
somente as utilizam para lembrar de alguém que é maior, e a isso se chama de veneração e NÃO de adoração. O sentido das
imagens católicas está na linha da serpente de bronze que Deus mandou Moisés
esculpir (Números 21,8-9), segundo a explicação dada em Sabedoria 16,7: ”e
quem se voltava para ele (o sinal da serpente), era salvo, não em virtude do
que via, mas graças a Ti, ó Salvador de todos”.
Imagens permitidas na Bíblia:
A Bíblia apresenta, muitas vezes, o mistério de Deus através de imagens:
e a primeira imagem quem a fez foi o próprio Deus, ao criar o ser humano à sua
imagem e semelhança (Gênesis 1,27;2,7). O mesmo Deus manda Moisés fazer dois
querubins de ouro e colocá-los por cima da Arca da Aliança (Êxodo 25,18-20).
Manda Salomão enfeitar o templo de Jerusalém com imagens de querubins, palmas,
flores, bois e leões (1Reis 6,23-25 e 7,29). O Novo Testamento também apresenta
o mistério de Deus através de imagens: a imagem de Jesus como cordeiro digno de
receber a força e o louvor (Apocalipse 5,12). Quando do batismo de Jesus, o
Espírito Santo é apresentado em forma de pomba (Mateus 3,16) e, no dia de
Pentecostes, com línguas de fogo (Atos 2,1-3).
Jesus ensinava através de imagens: “Eu sou o bom pastor”
(João 10,14). Os primeiros cristãos vão representar Jesus desenhando um Bom
Pastor com a ovelha nos ombros. Olhando esta imagem, eles não adoravam
um pastor, mas pensavam na ternura de Deus que, em Jesus, busca a ovelha
perdida. Representar algo por imagem ou símbolo era comum na Igreja primitiva,
sobretudo em tempos de perseguição. Por muito tempo, as pinturas dos santos e
de cenas bíblicas nas Igrejas foram o único livro que os cristãos mais simples
puderam ler e entender.
Imagens proibidas na Bíblia,
idolatria:
A Bíblia, então, não proíbe as imagens? Sim, proíbe quando sua
finalidade é servir à idolatria: “Eu sou o Senhor teu Deus, que
te fez sair do Egito, da casa da escuridão. Não terás outros deuses diante de
minha face. Não farás para ti escultura alguma do que está em cima dos céus, ou
abaixo sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante
deles e não lhes prestarás culto” (Êxodo 20,2-5). Em várias passagens
bíblicas se repete esta proibição de não adorar outros deuses e nem fazer
deuses fundidos (Êxodo 34,14-17; Deuteronômio 7,5).
Podemos perceber que "ídolo" designa imagem feita para ser
adorada como deus, como faziam os pagãos com suas divindades. Para os judeus,
as imagens dos deuses são os próprios deuses pagãos. Os povos vizinhos dos
judeus acreditavam em muitos deuses e faziam imagens deles. Geralmente, estes
deuses, criados pelo próprio homem, serviam de apoio ao sistema injusto e cruel
que maltratava o povo, em especial os pobres. Em Israel não se podia fazer
imagem de Deus, não se podia imaginar como Deus era, pois Ele é invisível e
ninguém nunca o tinha visto. Do Deus verdadeiro não se faz imagens, porque
todas as imagens são inadequadas para Javé. Dos falsos deuses se faziam imagens
que eram chamadas de ídolos; eram rivais de Javé. Idolatria
é a exclusão do Deus verdadeiro, substituindo-o por um falso deus.
O ídolo estava sempre ligado a um sistema de corrupção e opressão,
levando a sociedade à divisão e à guerra por causa da ganância pela terra, bens
materiais e dinheiro, fama, prazer e poder. Estes, sim, são os
verdadeiros ídolos que afastam a pessoa do Deus verdadeiro, competindo com Ele
no coração (cf. Mateus 4,1-10; Lucas 4,1-12).
Portanto: Deus parece, mas não é incoerente, já que num lugar da Bíblia
manda fazer imagens e noutro lugar o teria proibido. A imagem, hoje, mais do
que nunca, faz parte da linguagem humana e é representação de pessoa, coisa,
ideia. A Bíblia fala de imagens algumas vezes para denunciar a idolatria,
outras vezes para mostrar o quanto a imagem é necessária para entendermos, por
meio do Filho, o próprio Pai: “Ele (Jesus) é a imagem do Deus invisível...”
(Colossenses 1,15).
Os primeiros cristãos, martirizados aos milhares porque se recusaram a
adorar imagens de deuses falsos, estudaram a Bíblia com atenção. Eles não
tiravam esses textos que proíbem imagens de seu contexto. Comparando-os com
outros textos bíblicos, ficaram convencidos de que Deus proíbe imagens de
deuses falsos, adoração de ídolos que representem falsos valores, os quais
induzem ao pecado. É o que faziam os povos vizinhos de Israel. Mas Deus não
proíbe fazer outras imagens que contribuem para exaltar sua glória e poder. O
II Concilio de Nicéia, no ano 787, defende a veneração das imagens (pintura e
escultura) de santos pelos cristãos e o uso de símbolos nas celebrações litúrgicas.
O mesmo fez o Concilio Vaticano II, mantendo o culto às imagens conforme a
tradição (LG 67), contanto que seja em número comedido e na ordem devida (SC
125).
Texto:
Cônego Pedro Carlos Cipolini - Doutor em Teologia (Mariologia);
professor titular da PUC–Campinas; membro da Academia Marial de Aparecida
Nota:
Sobre o uso de imagens na Igreja, consultar:
JOÃO PAULO II, Duodecim Saeculum. Carta Apostólica sobre
a Veneração das Imagens, 1987. Petrópolis: Vozes, 1988.
PONTIFICAL ROMANO. Ritual da dedicação de igreja e de altar,
1977. São Paulo: Paulinas, 1984.
SCOMPARIM A. F., A iconografia na Igreja Católica. São
Paulo: Paulus, 2008.
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