Além
de ótimo Teólogo, São João Evangelista era também poeta, aliás, o amigo Alex,
professor de Teologia Moral sempre diz que Poesia e Teologia tem tudo a ver,
com certeza porque ambas falam ao coração. Neste evangelho da Paixão do Senhor,
João remonta ao Jardim do Eden onde começou o desígnio de Deus a respeito do
homem, Deus plantou a humilde semente chamada Adão, como na parábola dos
vinhateiros cuidou dela com todo amor e carinho, colocou em seu redor a melhor
terra, protegeu-a com muros, fez uma torre de Vigia, preparou um lagar onde
essa uva de primeira qualidade se tornaria o vinho inebriante e inigualável das
Bodas de Caná, mas a uva ali produzida, em vez de doce tornou-se amarga... Como
um lavrador sábio e paciente Deus se recolheu a seu canto, aparentemente
abandonando a plantação que foi invadida e pisoteada pelos animais. Entretanto
Deus esperou o tempo oportuno para de novo plantar a semente e esse tempo da
plenitude chegou, com a encarnação do seu próprio Filho Jesus Cristo.
O evangelho de hoje,
contrapõe tristeza e alegria, derrota e gloria , tragédia pleno
êxito, João conta os fatos as avessas,olhando precisamente com os olhos de
Deus. podemos ilustrar a reflexão dizendo que João se comporta como
aquela mãe, que sentada em sua cadeira preferida faz paciente o seu bordado á
mão, nós homens somos como a criança que olha por baixo e vendo o bordado as
avessas não entende como a mãe se dedica a um trabalho que não tem nada de
bonito.
Que pode haver de belo
nessa narrativa da paixão do Senhor, em uma ceia marcada por momentos de
tensão, a traição de Judas, o anuncio da negação de Pedro, a prisão de Jesus no
Horto das Oliveiras, as falsas testemunhas diante do Sumo Sacerdote, e
finalmente a sua caminhada até Pilatos de onde saiu açoitado, massacrado, com a
cruz aos ombros até o alto do morro onde iria ser pregado no madeiro, e padecer
um a morte horrível, vergonhosa e humilhante?????
A Cristologia de João é
alta e ele vê assim, de cima para baixo, e enxerga a beleza do amor de Deus
manifestado plenamente em Jesus Cristo, que refaz em si Adão e nós todos,
iniciando a nova criação, não mais subordinada ao Mal mas livre para tomar
decisão, contrária as forças do mal...
No Jardim da torrente de
Cedron tem início a tragédia e o inicio de uma Vitória definitiva, ao mesmo
tempo, quando Judas vem até o Mestre acompanhado de seus inimigos para
prendê-lo. Olhando por baixo do bordado, podemos dizer que o sonho do novo
Reino começa ali a se desfazer, porém, nosso irmão João Evangelista não pensa assim,
podem reparar na postura de Jesus...
"Consciente de tudo
o que iria acontecer, saiu ao encontro deles.... A quem procurais?" Jesus
poderia ter pedido ajuda aos discípulos, se esconder para dentro da mata, fazer
uma oração forte ao Pai para acabar com os seus perseguidores. Mas não!
Livremente vai ao encontro do seu destino, ninguém o prende, Ele se entrega.
"Recuaram e caíram por terra..." A liberdade, a decisão e a firmeza
que eles vêem em Jesus os surpreende fazendo-os cair por terra. É Jesus quem
novamente toma a iniciativa, é ele quem está no controle "A quem
procurais?" e eles responderam "A Jesus de Nazaré!"
Aqui nota-se como é
grande o amor de Jesus pelos seus, não porque intercedeu por eles, para que os
soldados o deixassem ir em paz, mas porque deu a cada um deles a liberdade de
decidir, de que lado queriam ficar... Pedro queria ficar com Ele, mas do seu
modo, armado de uma espada e tentando resolver a situação pela violência. É o
pensamento humano da pós-modernidade que Pedro ali representa. Que solução a
maioria das pessoas propõe, para resolver o problema da violência nas grandes
metrópoles? Exatamente com mais violência, quando a sociedade depara nos
noticiários sensacionalistas da TV muitos corpos de marginais mortos na invasão
do morro, ou quando há algum massacre em um grande presídio, a população vibra
e sente-se de certa forma "vingada". Somos todos da mesma opinião
de Pedro, de que a violência combate a violência. Para nossa decepção
Deus não pensa assim pois a atitude de Jesus mandando o velho Pedro guardar a
espada, manifesta isso claramente.
O episódio dramático e
trágico tem o seu desfecho em um outro Jardim onde Jesus, pelo gesto piedoso de
José de Arimatéia, irá ser sepultado. Agora a mãe terra receberá a semente
definitiva do Novo Reino. Os que mataram Jesus pensavam que o estavam esmagando
e que tinham acabado com ele de vez, nem imaginavam que apenas colaboravam na
semeadura de um Reino que iria superar todos os Reinos do Mundo. José de
Arimatéia e Nicodemos é o cristão paciente que ainda crê, apesar da grande
tragédia que se abateu sobre eles, e porque creem se dispõe a "plantar a
semente" esmagada, triturada, no seio da terra, alimentando no coração a
esperança de que algo de novo vai acontecer, a história há de ter um final feliz.
Que destino aguarda a
humanidade? De tragédia em tragédia, e por conta de uma violenta crise de
valores e decadência moral, o homem se arrasta para o caos das trevas sem
nenhuma luz. Será que Deus abandonou a humanidade? Uma grande maioria,
inclusive de cristãos, perderam a esperança e fazem da religião do Cristianismo
apenas um consolo para as dores e decepções desta vida, fechando-se em suas
comunidades ou grupos, sentindo-se protegidos do terrível mal que aflige a
humanidade....José de Arimatéia pensa diferente, ele entra no Palácio de
Pilatos porque tem algo a dizer "Vai plantar a semente na profundeza da
terra, Pilatos autoriza o sepultamento de Jesus, que mal pode fazer um cadáver
? Tudo o que Jesus representava de ameaça e perigo, contra a Religião Oficial e
o Império Romano, agora não mais existia, sobrou de Jesus um corpo rígido, um
cadáver cheio de marcas da violência, era preciso mesmo enterrá-lo para tirá-lo
dos pensamentos, do coração e da consciência. Morto e enterrado!
Hoje os poderosos que
também manipulam, enganam, mentem, massacram e oprimem, fizeram a sua opção por
um Cristo morto, preso nas igrejas, e que não incomoda a ninguém, um Cristo
impotente para influenciar o homem em suas decisões pelo Bem, uma lembrança de
alguém que tornou-se célebre para toda humanidade, mas que já passou....
A postura firme de Jesus
diante dos seus inquisidores, a sua determinação em levar adiante a missão que
o Pai lhe confiou, a sua firmeza diante dos poderosos desse mundo, e o seu
despojamento para Servir a todos, resgatando todos os homens das garras do mal,
deve servir nessa sexta feira como um grito de incentivo e alerta para nossas
comunidades. Em meio a tanto desânimo e falta de esperança, entre tantos
corações que perderam a capacidade de sonhar, precisamos nos arriscar como José
de Arimatéia e transformar tantos enterros em semeaduras, confiantes de que a
Vida é mais forte que a morte, e de que em cada tragédia a Vida se refaz e o
Reino sem torna mais forte e indestrutível, os homens não conseguirão impedir
que o Sonho de Deus se torne realidade, esta é a grande lição dessa Sexta Feira
Santa, para todos nós.
João 18,1-19,42
Nenhum comentário:
Postar um comentário