segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um mundo novo


João 1,1-18          - 31\21\2012



Pois aqui está o evangelho de São João, neste último dia do ano civil, a encarnação de Jesus, aquele que pré existia junto ao Pai, e que assumiu a nossa natureza humana, tornando-se um de nós, nos convida a participarmos na comunhão de vida com a Trindade Santa, Jesus não só assumiu a nossa natureza humana, mas nos divinizou fazendo-nos participantes da Trindade, mesmo na caminhada terrena, com as nossas fragilidades.
É isso que João Batista anunciou: mudança de casa, mudança de rumo e de direção, a Graça e a Verdade em Cristo Revelada nos deu acessibilidade total á comunhão com Deus. Agora acabou o tempo da Lei, pois em vez de simplesmente obedecermos ordens (seguirmos a Lei) nos tornamos íntimos daquele que nos deu a Lei, e por esta nossa ligação com Jesus o Pai nos acolhe em sua casa e somos inseridos na comunhão, podendo contemplar a sua glória e a sua luz maravilhosa.
Encarnação, assim resumida por João, consiste precisamente nisso: Jesus vem á nossa vida e nos leva a participar da Vida de Deus. Nele nasce um Novo homem, que agora renovado pela Graça e Salvação, se reencontra diante de Deus em imagem e semelhança, como em sua origem...

Um mundo novo

        Já brilha a luz da qual João Batista foi testemunha, a qual iluminará o novo ano civil que se aproxima. Esta luz é a vida comunicada pela Palavra de Deus que veio habitar entre nós. Toda a criação foi feita pela Palavra e, agora, quem crer nela e a acolher torna-se filho de Deus, participante de sua vida eterna. Tudo foi feito pela Palavra e o universo criado é a expressão do poder de Deus.
E o Verbo se faz carne, Jesus nasce. A carne, a individualidade de Jesus, é solidária com todo o universo. Jesus é o homem novo e com ele surgem os novos homens e as novas mulheres, o novo céu e a nova Terra, transcendendo o tempo.
Agora, homens e mulheres que creem na Palavra são gerados por Deus, na comunicação do seu amor. Na sua relação com os homens e as mulheres, Deus é amor. Deus comunica sua vida a eles por amor. E este amor é plenamente revelado e glorificado por Jesus.

A TENDA DIVINA ARMADA ENTRE NÓS


Só uma reflexão atenta sobre o nascimento de Jesus permitiu ao evangelista compreender, em profundidade, o que se passou na humildade de Belém. Aí, o Filho de Deus armou sua tenda entre nós, na qualidade de enviado para nos falar de Deus e nos levar a conhecê-lo. Ele veio para nos transmitir tudo quanto aprendeu do Pai.
Sua condição divina foi descrita num linguajar elevado. Ele era a Palavra de Deus, estava em Deus e gozava da condição divina. Toda a Criação traz a sua marca, por ser obra sua. Nenhum ser existe independente de seu querer, pois nele estava a fonte da vida. Foi ele que arrancou o ser humano das trevas do erro, sendo uma luz brilhando nas trevas. Desde então, toda pessoa pode beneficiar-se desta luz, oferecida abundantemente.
Fazendo-se carne, em Jesus de Nazaré, a Palavra divina tornou-se visível. E assim, toda a humanidade passou a ter acesso a Deus, de maneira nova, por meio do Filho único, "cheio de graça e verdade". Só ele pode nos falar do Pai.
Todas estas credenciais não foram suficientes para que os seus acolhessem Jesus. Antes, movidos pelas paixões humanas – "a vontade da carne" –, muitos o rejeitaram recusando-se a partilhar da plenitude que lhes tinha sido oferecida.
Contudo, a insensatez humana não foi suficientemente forte para anular o projeto do Pai. A tenda do Verbo encarnado continua armada entre nós. Aproximemo-nos dela!

domingo, 30 de dezembro de 2012

FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA




         Hoje é o penúltimo dia do ano civil, tempo de olharmos para trás e darmos glória a Deus pelo ano que se encerra, tempo também de refletirmos sobre o que fizemos no ano que passou, para edificarmos o reino de Deus entre nós.
O lugar privilegiado para darmos o nosso testemunho nesse sentido é na vida familiar que in felizmente apresenta hoje um quadro muito caótico porque a família é agredida todos os dias de muitas formas, esvaziando-a de seus valores sagrados, de suas virtudes que lhe dão a dignidade a cada membro, moldando um caráter cristão despertando-lhes a consciência de que são filhos e filhas queridas de Deus.
Por isso o casal cristão recebe o Sacramento do matrimônio ao se unirem um dia, sacramento quer dizer sinal do amor de Deus, porque a missão do casal é despertar nos filhos o amor para o qual foram criados porque Deus nos fez para o amor e somente na família é que podemos ter esse conhecimento.
A Sagrada Família vivia esse propósito, Maria e José educaram Jesus desta maneira e ele aprendeu muito com seus pais, a revelação de que era Filho de Deus foi acontecendo aos poucos, graças ao testemunho de seus pais. De maneira muito equivocada pensamos que Jesus já sabia tudo e que seus pais eram figuras meramente decorativas em sua vida. Isso não é verdade! Além do sustento material do menino, Maria e José, como qualquer pai e mãe, tiveram de assumir a formação religiosa de Jesus e o fizeram dentro do Judaísmo, que era a religião que freqüentavam, com todas as dificuldades próprias daquele tempo.
Talvez hoje, muitos pais achem praticamente impossível educar um filho ou uma filha na fé, se a história da Salvação acontecesse hoje, José e Maria, vivendo em nosso tempo, saberiam cumprir a missão de educar o filho dentro dos princípios cristãos, para que ele descobrisse a sua identidade de Filho de Deus.
Mas não foi assim tão simples, muita coisa Maria e José não entenderam, como esse susto que Jesus deu neles, aos 12 anos, por ocasião da festa da páscoa, ao retornarem em comitiva como era comum naquele tempo, o grupo dos homens e das mulheres em separado pelo caminho, José pensou que o menino estivesse com a mãe, e esta pensou o mesmo.
Somente depois de três dias é que deram pela sua ausência e voltaram desesperados a Jerusalém, encontrando-o no templo entre os Doutores da Lei, discutindo com eles, ensinando mas também apreendendo porque como qualquer criança, Jesus passou pela catequese.
Ocupar-se das coisas de Deus – foi a resposta até um pouco “atravessada” que Jesus deu aos pais. Após os sacramentos da iniciação cristã, se o testemunho dos pais for autêntico, a criança já terá descoberto em si mesmo essa vocação para viver o amor na comunidade no serviço aos irmãos e irmãs. Aproveitemos esses momentos derradeiros de 2012 para verificarmos com sinceridade se foi isso que fizemos no decorrer de todo este ano, será que o nosso modo de viver em família, despertou em nossos filhos a vocação para o amor? Será que valorizamos a comunidade como espaço onde manifestamos essa vocação?
Se nossas famílias viverem sempre nessa graça,comunicando uns aos outros a santidade, iremos ter em breve uma nova sociedade bem diferente da que temos pela frente. Isso é missão de todos os cristãos!

Jesus ocupa-se das coisas do Pai

     No prólogo de seu evangelho, Lucas se propõe a "escrever de modo ordenado" os fatos sobre Jesus. Esta "ordem" de Lucas não segue um critério histórico, mas teológico, procurando interpretar Jesus em sua filiação divina e o seu sentido para o Primeiro Testamento.
Nesta cena do menino Jesus entre os doutores no Templo são apresentados temas que serão aprofundados ao longo do evangelho. Nela é posta em evidência a autonomia de Jesus em relação à família, que no judaísmo é o vínculo essencial para o privilégio da eleição divina, e a autonomia em relação ao sistema opressor e elitista do Templo. Ao afirmar "eu devo estar na casa de meu pai", Jesus revela-se como Filho de Deus. Jesus ocupa-se com o que é de seu Pai, comunicar a vida plena a todos, homens e mulheres, criaturas de Deus, libertos de toda opressão. Iniciando seu ensinamento no Templo, Jesus volta depois para denunciá-lo por ter-se transformado em covil de ladrões (Lc 19,45-46). Priorizando o que é de seu Pai, mesmo estando obediente a seus pais, Jesus revela que a família dos filhos de Deus (segunda leitura) é formada por aqueles que cumprem o mandamento de amor, permanecendo em Deus e Deus neles, em comunhão de vida eterna.
Uma das características de Lucas é apresentar Jerusalém como centro de irradiação do cristianismo. Assim, em seu evangelho, desde o início as narrativas de infância convergem para Jerusalém (Zacarias no Templo, apresentação no Templo, Jesus entre os doutores), e, no final, após a ressurreição, encerra-se com o mandato de permanência dos discípulos em Jerusalém (Lc 24,52), complementado, em Atos dos Apóstolos, com o dom do Espírito na festa judaica de Pentecostes. Sua intenção teológica é apresentar o cristianismo como um novo Israel, que se irradia a partir da velha Jerusalém. Os demais evangelistas apresentam a Galileia, e não Jerusalém, como centro de retomada da missão, depois da ressurreição (Mc 16,7; Mt 28,7.10.16; Jo 21,1).
Jesus se diferencia de Samuel (primeira leitura), pois ele não é consagrado para um serviço no Templo, mas consagra sua vida no convívio comum com sua família e as multidões, libertando e comunicando vida a todos, conforme o direito à vida dos filhos de Deus.
A Sagrada Família questiona e convida à conversão aquelas famílias estabelecidas sob a continuidade do vínculo sanguíneo de raça eleita, bem como as famílias tradicionais, conservadoras em torno de suas propriedades e riquezas.

 A SAGRADA FAMÍLIA


Lucas, em seu Evangelho e em Atos, destaca Jerusalém como centro de irradiação do cristianismo. Assim, seu Evangelho, desde o início, com as narrativas de infância, realça Jerusalém (Zacarias no templo, apresentação no templo, Jesus entre os doutores) e encerra-se em Jerusalém. Sua intenção teológica é apresentar o cristianismo como um novo Israel, que se irradia a partir da velha Jerusalém. Os demais evangelistas apresentam a Galiléia, e não Jerusalém, como centro de retomada da missão, depois da ressurreição. Este episódio da ida da família de Jesusa Jerusalém assemelha-se à ida de Ana, com seu filho Samuel, à casa do Senhor, em Silo (primeira leitura).
A cena do menino Jesus entre os doutores no templo envolve temas que serão aprofundados ao longo do Evangelho. Ao afi rmar "eu devo estar na casa ("naquilo") que é de meu pai", Jesus revela-se como Filho de Deus. Inicia seu ensinamento no templo, voltando depois para denunciá-lo por ter-se transformado em covil de ladrões. Priorizando o que é do Pai, mesmo obediente a seus pais, Jesus indica que a família, sendo todos filhos de Deus (segunda leitura), deve ser estabelecida em torno do cumprimento da vontade do Pai.
A Sagrada Família questiona e convida à conversão aquelas famílias estabelecidas sob a continuidade do vínculo sangüíneo de raça eleita, bem como as famílias tradicionais, conservadoras em torno de suas propriedades e riquezas.
Lucas 2,40-52      -   30\12\2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A luz do amor




          João é o único evangelista a mencionar a ida de apenas Maria Madalena, sozinha, ao túmulo de Jesus, de madrugada. Encontrando a pedra que o fechava, removida, ela vai anunciá-lo, correndo, a Pedro e ao discípulo que Jesus mais amava. Os dois, também correndo, vão ao túmulo. Diante do túmulo vazio, mesmo sem qualquer aparição do ressuscitado, o discípulo amado vê e crê. Crê que Jesus está vivo e presente entre eles. A luz que faz este discípulo "ver" a nova realidade não é a de uma aparição, mas a luz do amor. Percebe a eternidade do amor manifestado por Jesus.
No evangelho de João não aparece de modo algum o nome do discípulo João. Aparece um discípulo incógnito, nomeado como "o outro discípulo" ou "o discípulo amado". A tradição via neste discípulo o próprio autor do evangelho, que seria João, irmão de Tiago. Há também a interpretação de que o evangelista, na figura deste discípulo, esteja se dirigindo ao próprio leitor, para levá-lo a crer e se reconhecer como amado por Jesus.

VER E CRER

         A experiência do discípulo amado, na manhã da ressurreição, é modelar para quem quer seguir Jesus. Logo que tomou conhecimento do sepulcro vazio, ele correu para lá, seguido pelo apóstolo Pedro. Quando entrou no lugar onde o corpo do Mestre tinha sido colocado e não o encontrando, "viu e creu" que tinha ressuscitado.
A visão que o levou à fé não podia ser puramente sensorial. Neste caso, ela supera a visão humana e atinge uma profundidade só acessível ao coração. Assim, toca-se o mais profundo da realidade. Trata-se de um ver teológico, dinamizado pelo Espírito, que permite penetrar no mistério de Deus, na medida que a limitação humana for capaz.
Partindo deste requisito, compreende-se por que os adversários nunca superaram a simples visão física de Jesus e de seus feitos e palavras. Incapazes de ir além, jamais puderam reconhecer nele o Filho de Deus e chegar ao ato de fé..
O discípulo amado estabelecera com Jesus uma relação de tamanha intensidade que, ao ver o sepulcro vazio, pode dar o salto da fé. Não que o sepulcro vazio fosse uma prova da ressurreição, e sim porque ao contemplá-lo pode compreender todo mistério que envolvia o evento Jesus, chegando a atingir-lhe o âmago: o Filho era objeto do amor do Pai, o qual não permitiria que ele experimentasse a corrupção. A visão física, portanto, serviu de pretexto para algo muito mais profundo.
João 20,2-8

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O PRIMEIRO MÁRTIR


 Mateus 10,17-22       - 26\12\2012


         O mistério da Encarnação de Jesus, manifestada em Maria e que se torna visível no Dia de Natal, isso é, do seu nascimento entre os homens, trouxe um fato novo na vida do Ser Humano.
No Antigo Testamento o Espírito de Deus vinha sobre algumas pessoas especiais e fica com ela até o final da missão que Deus lhe havia dado, foi assim com os profetas, Juizes e Reis. Ao assumir a nossa frágil natureza humana, as ações Divinas se manifestam nas ações humanas e assim, nas pessoas que professam a sua Fé em Cristo Jesus, o Espírito de Deus o inspira, o que falar e o que fazer.
Na vida de Santo Estevão, o Pró-Mártir, celebrado neste primeiro dia da Oitava do Natal, vemos claramente essa presença real do Espírito de Deus, em seu corajoso testemunho. “Por que não sereis vós que falareis, mas o Espírito do vosso Pai é que fala em vós”.
O Espírito de Jesus, a sua fidelidade e submissão á Vontade do Pai, o seu louco amor pelo ser humano, levado até as últimas consequências, estará também, a partir da encarnação de Jesus, presente na vida de todo aquele que crê, pois só a Fé é suficiente para o testemunharmos, em Palavras e ações, como Santo Estêvão.
E tudo isso, não em um mar de rosas, mas em meio as tribulações, ódio, julgamentos injustos, violência contra os discípulos. Prisões, divisão em famílias. Foi este o caminho percorrido até o fim pelo Mestre, é este também o caminho a ser percorrido pelo discípulo. Diz a palavra “Aquele que perseverar até o fim será salvo”. Naquele tempo a perseguição e a hostilidade aos cristãos vinha de dentro do próprio Judaísmo.
Hoje não falta da parte da sociedade uma ferrenha hostilidade pelo Espírito Cristão. O testemunho cristão deve ser firme, autêntico em todos os momentos e circunstâncias de vida e que não tenhamos medo sobre o que falar e como agir. A nossa Fé nos diz que o Espírito do Senhor está em nós...

Estevão testemunhou o Cristo

       Nestas advertências sobre as tribulações que advirão aos missionários, Mateus insere alguns ditos de Jesus que são mencionados no discurso escatológico, relativo ao fim dos tempos (cap. 24). Os discípulos devem ser prudentes na sua missão. Não se trata de derrotar o adversário, em uma disputa pelo poder, mas de dar seu testemunho de fé, na simplicidade. O adversário reagirá com diversas formas de violência. Os discípulos serão perseguidos pelas sinagogas dos judeus, pelos tribunais dos romanos, e até no seio da própria família haverá conflitos.
O diácono Estêvão é uma testemunha da perseverança até o fim. Oriundo do judaísmo helênico, Estêvão foi escolhido pelos líderes da comunidade cristã de Jerusalém como "diácono", para serviços às viúvas, em um nível subalterno ao dos apóstolos. Contudo, por sua coerência é o primeiro mártir, bem-aventurado pela fome e sede de justiça. À semelhança de Jesus, denunciando as injustiças do sistema do Templo de Jerusalém e da Lei, sob controle dos chefes religiosos de Israel, foi morto por apedrejamento.

O SUPREMO TESTEMUNHO


Os discípulos jamais foram iludidos quanto às conseqüências de sua opção pelo Reino. Embora se lhes acenasse a vida eterna a ser vivida na comunhão com o Pai, de forma alguma foi-lhes prometido segurança e bem-estar.
O Mestre foi suficientemente explícito ao alertá-los para um futuro de perseguição, ódio, flagelos e comparecimento nos tribunais. O supremo testemunho do martírio poderia provir não das mãos dos inimigos e sim dos próprios familiares. Por isso, o discipulado deveria aliar uma profunda fé a uma inquebrantável personalidade, de forma a poderem manter-se firmes nos momentos de provação.
Todavia, Jesus lhes fez uma revelação importante: seria dado aos discípulos o dom do Espírito que, nos momentos difíceis, haveria de estar do lado deles, incutindo-lhes força, colocando em seus lábios palavras adequadas para se defenderem, incentivando-os a não desfalecerem na fé, a ponto de abrir mão de sua opção pelo Reino. Movidos pelo Espírito, estariam preparados para perseverar até o fim, e assim alcançarem a salvação.
Nunca faltou, ao longo da história da fé cristã, quem se dispusesse a dar um testemunho consumado de sua adesão ao Reino. Os mártires são verdadeiros exemplos de fé. Para os de ontem e os de hoje devem se voltar as nossas atenções, quando almejamos reencontrar a trilha do verdadeiro seguimento de Jesus.

UMA MENSAGEM DE AMOR





É o inverso do nosso mundo. E é uma mensagem de amor. Deparamos novamente com a lógica de amor de um Deus que se rebaixa, e que se rebaixa ao máximo. Um Deus que se humilha. Encontramo-nos diante de um Deus que se faz pequeno e pobre, que ocupa o último lugar, o lugar de uma criança.
Deus manifesta-nos no mistério do Natal que a Sua entrega aos homens não tem limites. Está disposto a compartilhar as nossas necessidades e as nossas dores. Por isso oculta a glória da Sua divindade e Se faz presente num Menino. Escolhe livremente o caminho descendente para nos curar no mais profundo do nosso ser e nos atrair ao coração do Seu amor trinitário.
Isaías já havia anunciado a benevolência do Messias: “Ele não grita, nunca eleva a voz, não clama nas ruas. Não quebrará o caniço rachado, não extinguirá a mecha que ainda fumega” (Is 42, 2-3). A sua missão consistirá em “levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade” (Is 61, 1).
Jesus Cristo oferece a todos os homens o dom de uma vida nova, que consiste essencialmente numa nova amizade com Deus. Não exclui ninguém, por mais pobre e pequeno que seja. Mostra-se próximo dos afligidos e abatidos, dos enfermos e ignorantes, dos marginalizados e condenados: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Os fracos e desprezados de todas as classes descobrem uma felicidade inesperada em Jesus. Acabou o tempo da solidão, da vergonha e da humilhação. Sentem-se acolhidos, sentem que lhes devolvem a dignidade que julgavam não mais poderem possuir.
Jesus faz-se amigo das crianças e dos pobres, e até se identifica com eles. A criança como que simboliza todos os que não se podem desenvolver sozinhos; o pobre representa aqueles que têm fome e sede, aqueles que estão encarcerados ou exilados. “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes” (Mt 25, 40). É um mistério impressionante que o próprio Deus – a Grandeza, a Beleza e o Poder absolutos – se oculte naquilo que é menor, mais débil, mais sofrido.

A LÓGICA DO AMOR
Nós, homens, costumamos admirar uma pessoa importante e grandiosa, mas também a tememos. Geralmente, é mais fácil amar alguém que seja fraco e que precise da nossa ajuda. Talvez seja esta uma das razões pelas quais Jesus Cristo se faz pequeno e vulnerável: quer entrar em comunhão conosco. Ensina-nos que a lógica do amor é diferente da lógica da razão ou do poder: amar é pôr-se ao alcance do outro.
Na sua passagem pela terra, Jesus perdoa os pecados daqueles que se arrependem; revela-nos ao mesmo tempo a alegria de Deus ao perdoar; mostra-nos um Deus que se “comove” com o nosso destino. A parábola da ovelha perdida, por exemplo, dá-nos a conhecer a felicidade do pastor que recupera o seu pequeno animal; não diz nada sobre o “estado anímico” da ovelha: quando a encontra, põe-na sobre os ombros cheio de alegria.
Na parábola da dracma perdida, Jesus leva-nos novamente para além da cena cotidiana. O desvalimento e a angústia da pobre mulher são uma imagem de outra dor, infinita: a “dor” do próprio Deus na sua busca pelo homem perdido. Por meio da protagonista da parábola, Jesus dá-nos a entender que Deus remove céus e terra para encontrar aquele que está perdido. E a alegria da mulher ao encontrar a sua moeda é a felicidade de Deus por ter encontrado o homem extraviado.

PAI MISERICORDIOSO
A história do filho pródigo expressa o mesmo fato com ainda mais clareza. Quando o pai vê o filho – andrajoso, fraco e imundo – voltar para si, corre a abraçá-lo, sem julgá-lo, sem censurá-lo, sem sequer dizer “Perdoo-te”. Só tem um desejo: recuperar o seu filho, viver em comunhão com ele. Esse desejo é mais forte que as feridas que o jovem lhe causou.
É assim o amor de Deus pelos homens. Desce dos céus para libertá-lo da sua culpa e da sua miséria. Não é o nosso amor a causa e a medida do perdão divino. É o amor misericordioso e absolutamente gratuito de Deus que provoca o nosso amor contrito e agradecido.
Quando Jesus Cristo inicia o seu ministério público, João Batista declara que não é digno de ajoelhar-se diante d’Ele para desatar a correia das suas sandálias. Mais tarde, uma mulher pecadora lava os pés do Messias com as suas lágrimas, e Maria de Betânia unge-os com um valioso perfume. Esses gestos, por menores que sejam, parecem adequados para o trato com um Deus que se fez homem, uma vez que são manifestação de muito respeito e de grande amor.

MESTRE QUE SERVE
Por outro lado, pouco antes da Paixão, vemos Jesus de joelhos diante dos apóstolos para lavar-lhes os pés. Ao invés de ser servido, agora é o Mestre quem serve os seus discípulos. Assim, dá-lhes a entender que o Reino prometido já chegou, o Reino em que o próprio Senhor “cingir-se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á” (Lc 12, 37).
Mais uma vez encontramo-nos diante da lógica de amor de um Deus que se rebaixa ao máximo, que se humilha tomando o último lugar, o lugar do escravo. Na cultura judaica daquele tempo, era normalmente o escravo quem lavava os pés do seu senhor. “Eu estou no meio de vós, como aquele que serve” (Lc 22, 27).
Jesus – como se canta numa canção de Natal – veio “à terra para padecer”. Prestou-nos o máximo serviço com a Sua morte na cruz. Ali escutamos a última palavra do amor, se é que o amor consegue tê-la. Que Deus se tenha revelado definitivamente num crucificado é algo que contradiz todas as expectativas humanas. É “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1 Cor 1, 23). Deus pobre põe-se de joelhos como um simples criado; já crucificado, deixa-se atacar e injuriar. É um escândalo. É o inverso do nosso mundo. E é uma mensagem de amor.
Jesus revela um Deus que se oculta na pequenez, se rebaixa à fraqueza completa e se deixa vencer. A sua descida inicia-se quando toma a natureza humana, manifesta-se claramente no lava-pés e culmina na Paixão e na Morte. “Vimos a sua glória” (Jo 1, 14), exclama São João, referindo-se principalmente à gloria da cruz. A glória de Deus é o amor.
É a humilhação de Deus por amor ao homem (kenosis, em grego) na Paixão aquilo que começa a exaltar Jesus (cf. Jo 12, 32). Assim se cumpre em Jesus o paradoxo de todo o amor autêntico: aquilo que mais engrandece uma pessoa é a entrega e a diminuição de si mesmo pelo bem do outro.

GLÓRIA A DEUS NO CÉU E NA TERRA
Dar glória a Deus nas alturas, como cantam os Anjos em Belém, mas também na terra, não é simplesmente um jeito de falar, mas um jeito de viver. Deus convida-nos a um estilo de vida completamente novo: convida-nos a entrar no seu Reino, não apenas depois da morte, mas aqui e agora. Para aqueles que compreendem este chamado, a união com Cristo chega a ser mais importante do que qualquer outra coisa. Um breve episódio ilustra-o de modo gráfico. Certa vez, perguntaram a um pároco: “Quem é aquele senhor que acaba de sair da igreja?”. O pároco respondeu: “É um dos meus filhos mais velhos que vive em comunhão com Deus e que, além disso, é sapateiro”.
Viver com Deus é uma experiência libertadora; é como se uma pessoa tivesse atravessado o Mar Vermelho, caminhado da escravidão para a liberdade. Tem agora uma nova consciência de si mesma, sente um grande alívio e um amor que satisfaz os desejos mais profundos do seu coração. O homem não se contenta com soluções passageiras. Não quer viver cem anos, mas para sempre. Não quer ser um pouco feliz, mas plenamente. O único caminho para alcançar essas coisas é a comunhão com Cristo.
Uma pessoa livre sabe também libertar os outros. Estimula a vida dos que lhe foram confiados e ajuda-os a crescer segundo o ritmo próprio de cada um.
Não é verdade que a fé na vida eterna torne a vida terrena insignificante. Pelo contrário, a nossa vida sobre a terra só é grande e valorosa quando a sua medida é a eternidade. Estamos chamados a viver numa comunhão íntima com Deus e com os outros homens, convertendo assim toda a nossa existência num louvor ao Criador. Dessa maneira, podemos antecipar a realidade do Reino de Deus. Em outras palavras, nossa vida é como que um “ensaio geral” daquilo que faremos por toda a eternidade: é deixar transparecer o amor, a bondade e a misericórdia divina.
Não se trata de uma relação externa entre a terra e o céu, tal como a entenderia uma criança que começa a aprender o catecismo: “Se cumprires a vontade de Deus neste mundo, receberás um prêmio no outro”. Há na verdade uma conexão interna e necessária entre a nossa atuação aqui e a nossa atuação lá. Uma pessoa que não se fez nesta vida “louvor da sua Glória” seria um corpo estranho no céu.
Convém estarmos preparados para a “apresentação final”, quando se realizará plenamente o plano criador de Deus. Não devemos ser apanhados de surpresa pelas atividades que nos ocuparão na outra vida. Por isso é muito importante dar-nos conta de que as coisas que nos acontecem constituem um espaço para a conversa com Deus a cada momento. Dar glória ao Senhor na terra é descobrir e comunicar, aqui e agora, a felicidade do céu: “Louvamos sempre o vosso Nome, por todos os séculos dos séculos”, rezamos no Te Deum.
O sentido do mistério de Belém, da encarnação de Deus Filho que se fez uma criancinha desvalida, poderia ser resumido assim: “Deus chama-nos à sua própria bem-aventurança” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1719). Por isso, o Anjo diz aos pastores: “Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo” (Lc 2, 11).


EVANGELIZAÇÃO





A condição principal para a evangelização acontecer é se fazer um com Aquele que é O Evangelizador.
Muitas vezes, a evangelização é tida como uma experiência de métodos, como uma maneira de proceder frente a uma análise social, e essas realidades são difíceis. Mas não podemos esquecer que em todas as épocas foi difícil evangelizar.
Quando olhamos a forma que Paulo anunciou o Evangelho em Atenas ou Roma, vemos que ele teve desafios e, hoje, ainda temos grandes dificuldades, mas não podemos aumentá-las. Não sabemos se estamos dentro de uma sociedade que está em decadência e que vai se erguer, tudo isso foge do nosso alcance.
O que sabemos é o essencial do método: se fazer um, unir o coração com o Evangelizador, que é o Cristo. Aquele que construiu e edificou a Igreja é o Cristo, quando disse a Pedro “Tu és pedra e sobre essa pedra eu edificarei minha Igreja”.
Ele disse “EU construirei minha Igreja”, então é o Cristo, que constrói e a Igreja pertence a Ele.
Qual é, então, a condição para que a evangelização aconteça?
Que no primeiro momento, nós os evangelizadores, sejamos pedras relativamente estruturadas. Quer dizer, nós precisamos ser cristãos sólidos, fortificados interiormente, como São Paulo diz: “Fortificai o homem interior”.
A segunda coisa é estar inteiramente nas mãos do Cristo. Então, se cada um de nós pertence inteiramente ao Cristo e se minha vida, meu engajamento, meu pensamento, minhas energias, minhas iniciativas são verdadeiramente conduzidas pelo Cristo, guiadas pelo Cristo e dentro da obediência do Cristo, eu estou entre Suas mãos. E a nossa oração de cada noite é: “Em tuas mãos eu coloco minha vida”. Então, nesse momento, Ele vai poder fazer qualquer coisa de nós.

Os grandes desafios da evangelização não são as dificuldades que encontramos na sociedade contemporânea, mas sim nossa questão pessoal em direção ao Cristo. Se eu pertenço verdadeiramente ao Cristo, posso ficar tranquilo, pois Ele fará um bom trabalho comigo e em mim - Ele fará o que quiser.
O que Ele quer eu não sei ainda claramente. Eu não sou um robô, não sou uma pedra, sou uma pessoa que pensa pertencendo ao Cristo, olhando a sociedade contemporânea, as questões de hoje.
Por exemplo, a questão de como falar às pessoas, como dizer uma palavra que toque o coração. A questão sobre o desafio da missão, tal como ela é questionada será uma análise intelectual, missionária, sociológica, do mundo contemporâneo, porém secundária.

Um dia, um aluno de uma escola de engenharia da cidade de Lyon me questionou: “Como posso fazer para evangelizar na minha escola, onde há judeus e mulçumanos? Eu não posso chegar colocar a pessoa em um canto e dizer você precisa tornar-se cristão”. Eu respondi:
“A melhor forma de ser missionário, é deixar que o Missionário com ‘M’ maiúsculo - o único Missionário - realize toda a missão d'Ele em você.
No dia em que o Cristo tomar posse de toda a tua pessoa, segundo essa frase da segunda epístola aos Coríntios, que nós temos dentro de uma oração Eucarística, nossa vida não pertencerá a nós mesmos, mas Àquele que é morto e ressuscitado por nós. Quando Ele cumprir toda a sua missão, no fundo do teu coração, de tua inteligência, tudo e tudo, você pode, então, ficar tranquilo, pois as palavras serão adaptadas, sua presença será justa e as pessoas serão tocadas pelo teu testemunho.
Para mim, o primeiro desafio não é se fechar sobre uma política astuciosa, um plano original ou um novo método todo adaptado às novidades da sociedade contemporânea. Mas, antes de tudo isso, o importante é pertencer inteiramente ao Cristo - aí eu ficarei tranquilo, pois Ele nos adaptará. Ele sabe quem somos, para que nos fez e qual é o dom de cada um de nós.
E mais: em minha opinião, Ele conhece e analisa a sociedade contemporânea melhor que nós. Isso para mim é o primeiro desafio: ouvir cada uma das suas palavras e compreendê-las.
Vou dar um outro exemplo. Quando Jesus diz: ‘Vocês vão receber uma força e serão minhas testemunhas aqui em Jerusalém e até as extremidades da terra’, se eles fossem fracos e dissessem: ‘Eu não irei, pois minha avó é velha, e tenho uma casa de férias perto de Jerusalém...’ - coisas como essas; nós não seríamos evangelizados.”

Portanto, eles compreenderam que essa palavra do Cristo os tirava da sua pátria, da sua família, de sua casa. Eles partiram em condições de viagem mais difíceis que hoje. Foram a Chipre, Grécia, Itália e desembarcaram na cidade de Marseille; subiram até Lyon, aqui na França e vieram com a sua cultura para dar unicamente uma coisa: o Evangelho.
Agora, eu digo: se eu sou cristão é porque eles escutaram essa palavra do Cristo e a colocaram em prática. Eles sabiam que suas vidas pertenciam ao Cristo, por isso partiram. Não conheciam os habitantes dessa terra, nem conheciam o império romano, a mentalidade da época, quais eram os desafios culturais e contemporâneos da evangelização.
Eles sabiam de uma única coisa: que eles pertenciam ao Cristo e que, quando Cristo os enviava em missão, era preciso partir e anunciar o Evangelho. E eles partiram... Graças a eles, hoje eu sou cristão.
E como eu quero que as pessoas sejam bem cristãs, eu não tenho outra solução do que fazer igual: partir hoje na rua, nas periferias, aos jovens, aos velhos, etc., dizendo até que ponto eles são amados, até que ponto o amor de Deus chega até eles.

Hoje, em suas vidas, e no nosso mundo, no fundo, esse é o grande desafio da missão: fazer com que as pessoas compreendam que são amadas e até que ponto elas são amadas. Isso é o reconforto mais sólido e profundo.

Cardeal Philippe Barbarin

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

João Batista abre caminho para Deus


Breve comentário do Evangelho - Lc 1,67-79


       A partir de alguns textos do Primeiro Testamento, Lucas compõe este cântico de Zacarias, bem como o anterior cântico de Maria ("Magnifícat"), como instrução teológica para suas comunidades. O núcleo da mensagem é a origem divina de Jesus, o qual vem promover a libertação e comunicar a vida divina e eterna aos homens e mulheres, tendo como precursor João Batista.
Zacarias, sacerdote idoso no Templo de Jerusalém, de início é incapaz de compreender a novidade do anúncio do anjo, e fica mudo. É a expressão do judaísmo, incapaz de abrir-se à mudança. Agora, como pai e em casa, diante do recém-nascido que é vida nova, recupera a fala e profetiza. Após proclamar o cumprimento da promessa de Deus em enviar um salvador, retoma as palavras do anjo, reconhecendo em seu filho "um profeta do altíssimo".

PROFETA DO ALTÍSSIMO


Zacarias, em seu canto de louvor, sintetizou a missão profética do filho recém-nascido, explicitando sua correlação com Deus Pai e com o Salvador a ser enviado.
A missão do Batista consistiria em ser profeta do Altíssimo, título aplicável tanto a Deus quanto a seu Messias, posteriormente identificado com Jesus. Portanto, a existência do Precursor estaria ligada, simultaneamente, a Deus altíssimo e ao povo, junto ao qual seu profetismo seria exercido.
A glorificação de Zacarias centra-se no desígnio libertador de Deus que defende seu povo da sanha de seus inimigos e de quantos o odeiam. Ele não suporta que seu povo padeça a opressão do inimigo. Por isso, vem libertá-lo. Dele Deus exige apenas que o "sirva em santidade e justiça", sem se apartar de seus caminhos nem um só dia da vida.
O desígnio libertador de Deus expressa sua misericórdia, que jamais poderá faltar, pois a relação com Israel está selada com uma Aliança santa, a ser observada com fidelidade. Por conseguinte, quando o seu povo é oprimido, Deus suscita-lhe um poderoso Salvador.
O maior de todos eles será seu próprio Filho. A missão fundamental do Batista consistiu em preparar-lhe os caminhos, anunciando ao povo que a salvação e a remissão dos pecados jorrariam do "amor do coração de nosso Deus", por meio da ação do Messias.
Zacarias não estava em condições de identificar Jesus com o "poderoso Salvador", suscitado pelo Senhor, Deus de Israel. Caberia a João reconhecê-lo como aquele que tira o pecado do mundo, levando a cabo a obra divina da libertação.

Fatos Importantes


Breve comentário do Evangelho - Lc 1,67-79



Mateus narra de maneira bem simples, á seus conterrâneos os fatos extraordinários que precederam o nascimento de Jesus, trata-se de uma ação Divina, não tanto para mostrar quanto Deus é Poderoso, pois ele não está preocupado em demonstrar a sua força e poder, mas sim mostrar aos Judeus, para os quais é destinado esse evangelho, que a Salvação provém de Deus, é puro Dom e total iniciativa dele. Não se trata, portanto de algum projeto humano, ou dos planos de alguma instituição religiosa.
Então Deus fez tudo sozinho? José e Maria não precisaram coabitar, e Deus foi falando a ambos o que era para ser feito? De modo algum, para fazer a Salvação acontecer, Deus em nenhum momento tirou do homem o seu livre arbítrio, a sua capacidade de discernir, escolher e tomar uma decisão. Foi um risco que Deus correu, pois tanto Maria como José era livres para aceitar na Fé esses acontecimentos em suas vidas.
Mas o m ais importante, a Fé no Deus dos Patriarcas, lhes deram essa visão diferente, sobre esses acontecimentos. Porque corremos o risco de pensar que para eles tudo estava muito claro, sabiam que era Deus que estava agindo... e nos perguntamos: mas com nós não é desse jeito, a gente tem dúvidas e incertezas, sobre certos acontecimentos da nossa vida. Esse é um modo errado de se viver a Fé...
José e Maria não tinham certeza de nada, fizeram perguntas a Deus, intuíram alguns fatos, como José, que não queria difamar a noiva e preferiu se retirar. Maria chegou a perguntar como iria acontecer o que o anjo lhe anunciara pois nem era casada....José e Maria fizeram uma profunda experiência de Fé em todos os dias de suas vidas e não só naquele momento, pois as dúvidas e incertezas sempre estavam presentes, mas a Fé inabalável na ação Divina acabava  prevalecendo. Seria um engano pensarmos que esse acontecimento se deu em um determinado momento e que depois disso tudo foi tranquilo para o casal....A Fé é confirmada no dia a dia, diante de acontecimentos que muitas vezes não temos a exata compreensão.
Toda essa experiência de Fé, de São José, Mateus sintetizou nessas poucas palavras, ditas em um sonho pelo anjo do Senhor. Como José e Maria temos hoje essa missão importante de gerá-lo para o mundo. Na família, no trabalho, na escola, na fila de um banco, no trânsito, na relação conjugal. Em cada uma dessas situações, nem sempre tão claras, Deus continua a nos revelar o modo como ele vai agir...José e Maria não desperdiçaram o momento de graça inefável e toparam fazer parte do Plano de Deus.  O jeito de Deus continua sendo esse, é pegar ou largar...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O SENTIDO DO NATAL





Certa vez perguntaram a Chiara Lubich, a carismática fundadora da Obra de Maria ou Focolares da Unidade: “O que é Jesus Cristo para você?”. Ela, sem hesitar um instante, respondeu com a decisão de quem diz algo óbvio: “É tudo!”.

Jesus Cristo é a essência do Cristianismo; seu princípio e sua meta, seu espírito e seu impulso vital. Não é apenas o mensageiro da vontade do Pai, o sábio que proclama uma doutrina elevadíssima, o guia que nos conduz a uma vida de suma purificação. É a Pessoa que – segundo o seu próprio testemunho – encarna tudo isso e constitui, por isso, o ideal da nossa vida, nossa salvação definitiva: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. Se me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já o conheceis, pois o tendes visto (...) Aquele que me viu, viu também o Pai” (Jo 14, 6-11). “O que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8, 35).
Jesus não veio apenas para nos mostrar o caminho para ir ao Pai. Disse-nos: “Eu sou o caminho”. Não se encarnou para nos indicar onde está a verdade. Confessou-nos: “Eu sou a verdade”. Não se limitou a ensinar-nos como alcançar uma vida plena. Declarou: “Eu sou a vida”. Quem o vê vê o Pai; quem se une a Ele está na verdade; quem vive unido a Ele tem a vida eterna. Por isso repete São Paulo uma e outra vez que devemos estar em Cristo. Não é que passaremos ao Pai por meio d’Ele. Ficando com Ele, estamos no Pai. Ele é o mediador por antonomásia. Não exerce somente o papel de intermediário que nos revela o Pai. Ele é essa revelação.
Considerar essa realidade blasfema e não a admitir é “escandalizar-se” de Jesus, rechaçá-Lo e rechaçar a salvação que Ele nos oferece. Com ampla razão, disse-nos Jesus que é bem-aventurado quem não se escandaliza diante da sua manifestação como Filho de Deus, mas a aceita.

Jesus, com sua palavra, revelou-nos o Pai
Na parábola do Filho Pródigo (Lc 15, 11-32), Jesus descreve o Pai como o ser carinhoso que nos ama incondicionalmente, unindo o amor de Pai e o de mãe. O Pai não se encerrou numa atitude de rancor para com o filho que manchara a honra da sua casa. Foi ao seu encontro quando, após ter dissipado os seus bens, decidiu voltar ao lar paterno. Saiu depois em busca do irmão mais velho que se negava a entrar em casa e participar da festa. Era “lógico” que não quisesse celebrar o retorno do irmão, porque operava no nível 1, o nível do cálculo egoísta, pelo qual o seu dissoluto irmão não podia trazer senão novos problemas à família. O Pai, entretanto, não olhou tanto o passado como o presente: seu filho havia estado perdido e fora encontrado; quebrou a unidade familiar e quer restaurá-la. Essa atitude de arrependimento encerra uma alta dose de criatividade e significa um novo começo. O que o Pai deseja é recuperar a unidade da família, que constitui a meta da sua vida. É a atitude própria do nível 2.
O irmão mais velho mostra uma atitude farisaica. É egoísta e se considera justo, perfeito. Sem dúvida é perfeito no nível 1, mas muito deficiente no nível 2, pois não optou pela bondade incondicional, como o Pai. Por isso, é duro com o irmão e não se alegra de que tente retornar a uma vida ordenada e fecunda. Apenas pensa no erro que cometeu e nos problemas que possa trazer à família. Sua atitude permite-nos suspeitar de que talvez tenha sido Ele quem, com suas exigências de pessoa cumpridora, mas seca, fez com que o irmão quisesse ir-se. Agora age como o fariseu no templo, e despreza o irmão menor que, como o publicano, reconhece a sua culpa e pede perdão.
Essa parábola deixa patente que Deus se alegra de fato quando encontra a ovelha perdida e quando um discípulo, após uma tríplice negação, afirma três vezes que o ama. Esse amor supõe um novo nascimento, uma transfiguração interior. Por isso o Senhor se alegra, porque a alegria – como bem disse Henri Bérgson – é “sinal de que a vida triunfou”. A lógica do Pai é a da criatividade, a vida em plenitude, o amor incondicional. A lógica do irmão mais velho é a lógica do amor condicionado aos próprios interesses. Toda a pregação de Jesus insta-nos a pensar com os conceitos de Deus, não com os nossos; a adotar a lógica – o modo de pensar – do Pai, não a aplicar a nossa forma de pensar, sentir e querer, para afastarmo-nos d’Ele quando parece não corresponder as nossas expectativas.

Jesus, na sua forma de viver, revela-nos como deve comportar-se um filho desse Pai
Jesus vive plenamente o amor do Pai. Passa a vida fazendo o bem; cura os enfermos, ensina as gentes, entrega-se a todos e assume com lucidez a morte para nos mostrar como se age no Reino do amor.
Considera a meta da sua vida cumprir a vontade do Pai a todo o momento. Quando sua mãe, angustiada depois de procurá-Lo em vão por três dias, O encontrou no Templo e Lhe externou a sua perplexidade, Ele respondeu: “Por que me procuravas? Não sabias que tenho de estar nas coisas de meu Pai” (Lc 2, 49). Quando alguém Lhe disse que sua mãe e seus irmãos – isto é, seus parentes – Lhe estavam a esperar fora da sinagoga, Jesus respondeu com aparente desapego: “Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 31). Aquele que cumpre a vontade do Pai entra na corrente da vida trinitária. Compartilhar dessa vida trinitária significa para Jesus um vínculo vital mais forte que o que um menino tem com sua mãe biológica. Em Getsêmani, Ele pediu ao Pai com fervor que afastasse o cálice amargo da paixão, mas acrescentou: “Todavia não se faça o que eu quero, mas sim o que tu queres” (Mt 26, 39). O empenho de Jesus em todo instante é cumprir a vontade do Pai: “Faço sempre o que é do seu agrado” (Jo 8, 29).
Essas manifestações de Jesus permitem-nos adentrar em sua interioridade. A grande força que impulsiona toda a sua vida (extenuar-se fazendo o bem; recolher-se para orar, orientar as gentes para Deus, falar com autoridade surpreendente...) é seu afã de fazer a vontade do Pai. Essa vontade não opera sobre Ele como um mandato recebido de fora; é a fonte da sua vida, sua mais profunda razão de ser. A vontade do Pai, que é amor, é para Ele um chamado amoroso; poderoso, mas não coercivo, porque brota do seu interior, do mais profundo do deu ser. Obedecer por amor é atuar livremente, com a forma mais alta de liberdade, que é a liberdade criativa. Jesus não cumpre a vontade do Pai apenas porque é seu dever, mas porque O ama desde o mais íntimo da sua pessoa. Cumprir, por amor, o que é necessário constitui a essência da liberdade criativa, a autêntica liberdade humana.
A vida de Jesus consiste em vibrar em uníssono com o Pai. E, como o Pai é infinitamente bom, justo e belo, Jesus é modelo de bondade, justiça e beleza. Essa vida excelsa é a que nos é revelada no Natal.

Em Jesus, a Trindade é revelada
É decisivo para os cristãos conhecer a interioridade de Jesus, pois nela manifestam-se o Pai e o Espírito de santidade que é vínculo de ambos, e revela-se o que significa viver trinitariamente. Sabemos que os dogmas cristãos não são unicamente doutrinas para pensar e aceitar com a inteligência; são princípios de vida para assumir ativamente e nutrir a nossa existência pessoal. Viver trinitariamente significa viver criando vida de comunidade, e assim gerar a presença entre nós do Jesus que prometeu estar em meio aqueles estiverem unidos em seu nome (cf. Mt 18, 20). Viver trinitariamente equivale a viver plenamente nossa vida de pessoas.

Consequências do descobrimento da vida trinitária
Jesus nos revelou que Deus é amor. A mensagem do Cristianismo é, pois, uma mensagem de amor, mas do amor do Pai revelado em Cristo, não outro; uma mensagem de entrega e serviço, mas de um serviço como o realizado por Cristo, não de outro tipo; uma mensagem de vida comunitária, tal como a vivida por Cristo, não de outra forma.
A existência cristã não consiste basicamente em fazer o bem, ser justos e solidários..., mas em seguir a Jesus, amá-Lo e cumprir os mandamentos por amor a Ele, o ideal da nossa vida. “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14, 15). “Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, salvá-la-á” (Mc 8, 35; Mt 10, 39). “Portanto, quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante de meu Pai que está nos céus. Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus” (Mt 10, 32-33). Essa exigência de seguimento é absoluta, tem primazia sobre qualquer outro vínculo, inclusive os familiares mais íntimos: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim” (Mt 10, 37).
Esse amor incondicional a Jesus funda uma vida interior autêntica. A vida interior não é vida retraída, solitária, desgarrada; é vida em comunhão oblativa. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é que me ama. E aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele” (Jo 14, 23). Se, por amor, criamos com Deus uma relação de autêntico encontro, sentiremos vivamente que Ele deixa de ser para nós algo infinitamente distante para ser íntimo, o mais íntimo da nossa realidade pessoal. Nada nos é mais íntimo do que Aquele que constitui o principio da nossa atividade pessoal. É o que nos revelou São Paulo ao dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).
Unidos a Jesus dessa maneira, pensamos com os seus conceitos, não com os nossos. Ao contemplar, com esse espírito, a vida de Jesus, notamos que nosso Mestre, ao ir conscientemente em direção à morte por amor, nos ensina que a entrega à dor e à humilhação não é puramente negativa; tem um sentido positivo e pode enriquecer-nos como pessoas. Pensemos, por exemplo, no que significa não nos escandalizar do “silêncio de Deus”. Frequentemente sentimos angústia diante de uma situação e acudimos ao Pai do céu pedindo ajuda. E o Pai, para nosso desconcerto, guarda silêncio, parece indiferente à nossa oração. E tendemos a nos sentir defraudados. Milhares de pessoas reagem, então, dizendo: “Não entendo, portanto, não aceito!”, e se encaminham pela via do despeito, quando não do rancor. Maria, no templo, não entendeu as palavras de Jesus, mas não enveredou pela via da soberba, que rechaça o que parece incompreensível; viu nessas palavras uma mensagem misteriosa e introduziu-se nelas, como numa morada, para viver da riqueza que encerram. “Deus” – diz Pascal – “se nos revela com suficiente clareza para que possamos crer n’Ele e com suficiente obscuridade para que não nos vejamos forçados a aceitá-Lo”.

A transfiguração que o Natal realiza
Temos que renunciar ao nosso afã de tudo entender e julgar a partir dos nossos conceitos e critérios humanos. Ao morrer e ressuscitar, Jesus revelou-nos algo surpreendente e grandioso: que a nossa vida deve consistir em constantemente morrer e transfigurar-nos. Transfigurando-nos também no aspecto intelectual. Podemos situar egoistamente nossa vida no chamamos de nível 1, o nível do domínio, da posse, do manejo de objetos, o desfrute. Essa atitude em face da vida leva-nos a converter tudo, inclusive as pessoas, em meios para nossos fins. Com ela, renunciamos à verdadeira união entre nós. Mas temos também a possibilidade de nos mover no nível 2 e adotar uma atitude generosa de respeito, estima e colaboração amistosa com as realidades ao nosso redor, sobretudo, as pessoas, que nos permita criar com elas modos autênticos de encontro. Jesus veio para nos revelar que a meta e o ideal de nossa vida é a forma de unidade que chamamos encontro, modo de união que implica entrega, cordialidade, fidelidade, comunicação sincera, participação em tarefas nobres.
Tudo o que seja renunciar a viver no nível 1 significa morrer – em sentido evangélico e paulino –, amortizar o afã de afirmar-nos a nós mesmos ante os outros. Elevar-nos ao nível 2 supõe transfigurar-nos, ressuscitar para uma vida de homens novos (cf. Gl 6, 15). O homem novo tece a sua vida a base de constantes transfigurações ou conversões:
- Converte a casa em lar, criando vínculos de verdadeira amizade.
- Converte a simples proximidade numa relação de autêntico encontro.
- Considera o pão e o vinho não como meros produtos do esforço humano, mas como frutos de uma confluência fecunda de vários elementos.
- Converte a liberdade de manobra – poder escolher de acordo com os gostos próprios – em liberdade criativa, capacidade de escolher sempre de acordo com o ideal de unidade, não do próprio gosto.

Num congresso, expliquei a 3.000 jovens o que é a verdadeira liberdade e, ao final, um deles, com lágrimas nos olhos, disse-me que “eu tinha destruído o seu mundo”. Perguntei-lhe o que acontecia e ele respondeu: “Acreditava ser uma pessoa totalmente livre porque meus pais me dão tudo o que preciso para satisfazer os meus gostos, não importa quão caros sejam. E agora o senhor afirma que esse tipo de liberdade pode me levar à pior das escravidões”. “Amigo, anime-se – recomendei-lhe –, pois você tem toda uma vida pela frente para aproveitar a descoberta que acaba de fazer. Você percebe o abismo em que se equilibrava a cada momento pelo fato de dispor de tantas possibilidades e ter apenas o seu próprio gosto como critério para escolher entre elas? Os gostos, as apetências e os impulsos são, em si, algo bom, porque indicam vitalidade, mas não trazem consigo uma orientação justa. Precisam ser orientados por um ideal. Deixar-se levar por eles é muito perigoso”. O jovem parecia ter descoberto um mundo novo, um horizonte de vida mais exigente, mas imensamente promissório.
Aceitar que a nossa condição humana não nos permite levar a nossa vida arbitrariamente, mas que nos devemos ater a critérios e ideais que nos vêm dados, representa uma transfiguração, elevar-nos a uma vida nova. Com razão previne-nos São Paulo: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, vossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória” (Cl 3, 1-4). O Apóstolo nos indica que devemos ressuscitar em vida, elevar-nos de um tipo ou nível de vida a outro superior: um modo de vida transfigurado, virtuoso, eticamente valioso, aberto ao encontro com Deus.
A transfiguração básica é a que nos eleva do estado de indiferença ou de ódio para com os outros a um estado de amor e encontro. Afirma taxativamente São João Evangelista, com o seu característico estilo direto: “Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, porque amamos nossos irmãos. Quem não ama permanece na morte” (1 Jo 3, 14). Essa passagem da morte para a vida implica, obviamente, uma transfiguração, uma ressurreição. Amar de verdade é estar ressuscitando para uma vida superior. Toda a vida deve ter esse caráter de transfiguração. Se analisarmos as doze fases do nosso progresso rumo à plenitude, veremos que cada uma implica uma forma peculiar de transfiguração.
O homem transfigurado é o “homem novo”, o homem renovado (cf. Gl 6, 15). A renovação deve dar-se a todo instante. A vida que é uma trama de renovações é uma vida eminentemente criativa.

A vida orientada para o amor é fonte inesgotável de alegria
Essa forma transfigurada de ver a vida humana procede do Natal, pois o Natal nos dá Jesus, que encarna a perfeição do ideal da unidade, do amor oblativo. É, por isso, a grande festa da alegria.
Um bispo idoso e adoentado passou vários anos num campo de concentração siberiano. Num dos natais passados lá, dividia a cela lôbrega com vários reclusos, também cristãos, que, por terem testemunhado a sua fé, estavam sofrendo esse tormento: frio, fome e, principalmente, terror. Estavam unidos entre si, e, dentro de suas possibilidades, rezavam em comum e se animavam mutuamente. Ao fim do Natal, o bispo escreveu uma carta em que narrava as penas padecidas. Num post scriptum acrescentou: “Foi o Natal mais alegre da minha vida”. Seria ele um deficiente mental? Pelo contrário: é uma pessoa consciente do valor altíssimo da unidade. A luz e a força vieram-lhe do Evangelho, do Natal. Como não seria alegre celebrar o autêntico Natal?
Todos os dias são dias de Natal para quem se esforça em viver à luz do Evangelho. Dedicamos um dia ao ano para celebrar algo que é importante todos os dias do ano. Ainda que sejamos acossados por lembranças dolorosas, principalmente as relativas essas ocasiões, não deixamos de celebrar o Natal, já que essa festa está muito acima dos avatares cotidianos. Nós, os mais velhos, temos na memória mil feridas, mas nenhuma delas pode roubar-nos a alegria profunda de ter recebido a visita do Senhor, com todo o que ela implica: descobrir o ideal da vida, o seu sentido mais profundo, a capacidade redentora da dor, a alegria que nos proporciona todo o encontro verdadeiro.
Se o leitor permitir-me acrescentar uma experiência pessoal, confessarei que, após a morte de um irmão muito jovem em circunstâncias especialmente penosas, me senti espiritualmente desconcertado. Essa morte parecia-me uma crueldade incompreensível. O silêncio de Deus, que não ouviu as minhas súplicas, surgia ante os meus olhos como um sinal de fria distância, capaz de apagar todo o fervor religioso. Nessa situação, tive de escolher uma frase evangélica para gravar na lápide da sepultura. Escolhi esta: “Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11, 25). Durante meses vivi imerso nessa revelação maravilhosa, como se fosse uma morada espiritual. E me vi redimido da onda de frustração e quase rebeldia que agitava meu espírito. Compreendi, então, que as palavras de Jesus são verdadeiramente “palavras de vida”, como tantas vezes nos disse São Paulo (cf. Fl 2, 15-16; 2 Cor 2, 16-17; Hb 4, 2), porque Jesus é a vida e a luz dos homens (cf. Jo 1, 1-4).
O Natal é sempre alegre. E a única condição para isso não é estarmos livres de penas e dores, mas aceitarmos o convite do Senhor para ser seus amigos. Essa alegria ninguém nos pode tirar. São Pedro e São Paulo estavam num calabouço sombrio (o famoso Cárcere Mamertino de Roma), sem qualquer panorama além do martírio. Mas escreviam cartas transbordando de amor aos cristãos, se sentiam profundamente unidos a eles por amor a Cristo, que era seu Ideal. Os carcereiros intuíram que essa alegria era algo novo, incomum no mundo por eles conhecido. “Deveis ter uma fonte interna de alegria que ninguém vos pode tirar – disseram-lhes - Poderíamos nós participar dela...?”. Receberam o batismo, se negaram a prestar culto ao imperador e foram martirizados. Hoje os veneramos, na liturgia, com os nomes cristãos de São Marcos e São Marceliano.
A nossa alegria interior não depende das circunstâncias em que nos encontramos. Alegrar-se não é o mesmo que divertir-se. Trata-se de uma alegria profunda, que reflete um estado de plenitude espiritual. São Paulo convida-nos à alegria com frequência: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos!” (Fl 4, 4). Pode-se ordenar a alguém que se alegre? Se nos movemos no nível 1, tendemos a pensar que a alegria é a nossa reação espontânea quando as coisas correm bem para nós. Mas, se ascendemos ao nível 2, descobrimos que a alegria espiritual surge em nós quando vemos nossa vida transbordar de sentido. E o sentido brota no encontro.
Dachau – o temido campo de concentração próximo a Munique – chegou a ser um paraíso para um grupo de cristãos – entre eles o conhecido pedagogo Padre Josef Kentenich – que viveram a fundo o tipo de unidade que a presença de Jesus suscita. A consciência de compartilhar a condição de filhos de Deus os unia, e essa união enchia-os de alegria. A alegria tem um acento triunfal, e não há maior triunfo na vida que criar modos elevados de unidade, apesar da amargura e da dificuldade das circunstâncias. É para cultivar animadamente essa forma de unidade que São Paulo nos convida ao instar-nos a estar alegres.
Natal significa a vinda do Senhor em pessoa. Ele dá o primeiro passo da amizade. É a Palavra de Deus, sua expressão e revelação. Mas essa revelação apenas engendra luz para aqueles que estão dispostos a acolhê-la. É um traço típico dos grandes valores não se manifestar senão àqueles que respondem positivamente ao seu apelo. Diz-nos São João no começo do seu Evangelho acerca da Luz que é Cristo: “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (Jo 1, 11). Esta recusa, protagonizada pelos fariseus, é causada pela falta de um espírito aberto, espontâneo, suficientemente humilde para aceitar a novidade que significava a figura de Jesus.

Maria, protagonista do Natal
Esse espírito acolhedor destaca-se singularmente em Maria. Por isso Ela é, com Jesus e São José, a grande protagonista do Natal. Ela nos deu Jesus de maneira tríplice:
1. No plano biológico, gerando-O e acolhendo-O maternalmente.
2. No aspecto espiritual, colaborando com Ele na sua grande tarefa redentora, não se pondo nunca – por difícil que lhe fosse – entre o seu Filho e a missão que o Pai lhe confiara.
3. Unindo-se com os apóstolos em nome de Jesus e fazendo de todos eles, assim, recebedores da grande promessa que Ele havia feito de que esse gênero elevado à unidade seria abençoado com sua presença.

Temos mil razões para celebrar a festa do Natal. No Natal festejamos algo grande, imenso: a presença de Jesus entre nós, e, com Jesus, a do Pai e do o Espírito por excelência Santo. Assim, quando nos cumprimentemos nestes dias, já sabemos bem porque o fazemos. Com esse conhecimento bem fresco na memória, digo-lhes cordialmente: “Mil felicidades neste tempo de Natal, com Maria, a Mãe da Igreja!”.

Alfonso López Quintas
Tradução: Cristian Clemente