sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O Milagre para fortalecer a fé


       Mt 9,27-31



Mateus cria aqui, com algumas adaptações, uma duplicata de sua narrativa em 20,29-34, na qual dois cegos são curados em Jericó. Em Marcos e Lucas, nesta mesma narrativa, trata-se de apenas um cego (cf. 19 nov.). Com a duplicata, Mateus completa um bloco de dez milagres, narrados em vista de fortalecer a fé, preparando o discurso apostólico, apresentado em seguida. Os cegos seguem Jesus e pedem-lhe compaixão. Dirigem-se a Jesus como "filho de Davi".
A tradição da volta de um descendente de Davi, messias, para restaurar a glória de Israel tem um caráter ideológico e foi elaborada pelas elites do judaísmo que surgiu a partir do exílio. Vemos, agora, dois pobres cegos impregnados por essa ideologia do poder. Aí está a sua verdadeira cegueira. Jesus provoca nos cegos sua confissão de fé, tendo resposta afirmativa. Tocando-lhes nos olhos, atende-lhes o pedido feito com fé, e seus olhos se abrem. Abrir os olhos aos cegos é um dos sinais da chegada da salvação e da libertação, anunciados pelos profetas (cf. Lc 4,16-19).
A advertência para manter segredo ("segredo messiânico") parece ser uma criação do evangelista, tendo suscitado várias interpretações.

A cura dos cegos pode ser considerada sob dois aspectos. No aspecto físico, a recuperação da vista representou para eles o descortinar de uma perspectiva nova de existência, para além da exclusão e do estigma social de serem tidos como punidos por Deus por causa de pecados próprios ou alheios. Realizar isto já seria um gesto espetacular de Jesus. Entretanto, aconteceu, também, uma outra transformação na vida daqueles homens: a cura da cegueira espiritual. Esta libertação possibilitou-lhes reconhecer Jesus como o Filho de Davi, ou seja, o Messias esperado, e os levou a recorrer a ele na certeza de serem curados. O pedido desses dois cegos foi aceito, porque acreditaram em Jesus e em seu poder.
Só é possível reconhecer o Senhor, na medida em que a cegueira é superada. Isto acontece quando o discípulo recorre ao Mestre e, uma vez curado da cegueira espiritual, torna-se capaz de perceber sua condição messiânica, sem se deter nas aparências exteriores. Ademais, consegue confessá-lo como a presença da misericórdia divina na história humana e a concretização da esperança do povo. 
Como os dois cegos, o discípulo deve sempre suplicar ao Senhor para ser curado de sua cegueira espiritual.

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