I
SEMANA DO ADVENTO – INICIO DO ANO LITURGICO “C”
CMENTARIO
DO EVANGELHO LC 21,25.34-36
(O
gesto de ficar de cabeça baixa tem muitos significados, quando se perde a honra
e a dignidade, quando pesa sobre nós alguma acusação grave, quando sentimos o
peso de nossas misérias, ou quando há em nós alguma culpa ou remorso, por algo
de mal que cometemos. Antigamente, os filhos ou filhas, ouviam a correção
paterna de cabeça baixa, sinal de vergonha, humilhação e arrependimento. Em um
tribunal, o réu permanece de cabeça baixa diante do magistrado. Pode ser um
gesto imposto, mas também pode ser um ato voluntário. Quem tem coração marcado
por alguma culpa, não consegue olhar nos olhos de alguém que lhe é superior nas
virtudes. Na minha infância, quando os valores familiares e comunitários eram
um patrimônio sagrado, havia certos olhares que evitávamos, quando havíamos
cometido algum deslize, o olhar do pai e da mãe, o olhar dos nossos mestres na
escola, o olhar do sacerdote na igreja, ou mesmo o olhar da nossa catequista,
ou daquelas pessoas que considerávamos muito bondosas. Sempre que algo pesava
em nossa consciência era muito difícil erguermos a cabeça e olharmos de frente
para essas pessoas. Talvez seja por isso, que nesses tempos da pós modernidade,
algumas pessoas mais antigas, vira e mexe, comenta “Que o mundo véio virou de
ponta cabeça”, referindo-se a essa inversão de valores no campo da ética e da
moral.
Parece que hoje em dia há um sentimento de culpa, no coração de
quem quer se comprometer com o Bem , que é o próprio Deus revelado em Jesus
Cristo, pois a perversidade, a maldade, a mentira e o cinismo, estão presentes
em todas as classes ou categorias de pessoas, fazendo com que instituições,
antes intocáveis, agora sejam vistas com certa desconfiança.. E assim, muitas
pessoas acabam desistindo de ser boas, honestas, íntegras em seu ambiente, por terem
vergonha de ser uma exceção. Tive uma amiga que saiu de uma empresa, porque na
sua área de trabalho, embora jovem, e sendo casada, era a única que não tinha
ainda saído com o chefe e dizia-me que sentia-se muito mal em meio as outras
meninas.
É o relativismo nefasto e cruel, que vai sufocando os valores da
dignidade humana e que invadiu todos os ambientes, até mesmo nossas comunidades
cristãs, corrompendo o coração de muitos crentes testemunhas de Jesus. Quando o
homem passa a ser referência de si mesmo, sem a índole do cristianismo, o mundo
verdadeiramente acaba “virando de cabeça para baixo”.
Sol, lua e estrelas simbolizam algo que toda a humanidade pode
ver. De fato, em toda a terra tem-se a impressão de que o Mal se tornou
soberano e nos filmes catastróficos, algo apavorante é o barulho do mar e as
ondas gigantescas que engolem em poucos minutos, toda uma civilização. Para o
povo antigo, o mar era o domínio das forças do mal, eis aqui a causa da
angústia humana: medo de que o Bem Supremo não exista, de que tudo o que
ouvimos falar de Deus seja uma mentira e que a Obra da Criação e a Salvação que
Jesus nos trouxe, não passe de uma bela história, inventada por grupos
religiosos.O ser humano tem medo da sua própria verdade, e mais ainda, da
Verdade Divina.
O Evangelho desse primeiro domingo do advento, quando no
calendário litúrgico inicia-se um novo ano, desfaz essa grande mentira do Mal
“Vencedor”. “Então eles verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens, com
grande Poder e Glória!”. Haverá um epílogo na História da Humanidade, tudo irá
convergir para Deus. Naquele momento irá se revelar quem é o ser humano, criado
por Deus e chamado para viver a vocação do amor em sua plenitude, todos os
homens se encontrarão com Cristo, Senhor do céu e da terra, o primogênito de
vivos e mortos, o homem verdadeiro nascido do desejo de Deus, feito á sua
imagem e semelhança.
“Quando todas essas coisas começarem a acontecer..” Isso é,
quando tudo parecer estar perdido, quando o homem perder toda sua dignidade e
rastejar-se diante das forças do mal, enfim, quando a derrota do Bem parecer
iminente, o cristão altivo, que professa sua fé em Jesus Cristo, único Deus e
Senhor de toda a História, deverá levantar-se e erguer a cabeça, porque a
redenção está próxima. O seu testemunho firme e resoluto irá desmascarar o mal,
onde ele estiver, e como a neve tênue, o Mal não conseguirá resistir ao raio de
sol do Bem Supremo que é Jesus Cristo.
Quanto aos que acreditaram nas potestades do mal e em seu livre
arbítrio trilharam os caminhos da escuridão, naquele momento irão abaixar a
cabeça envergonhados, porque não conseguirão contemplar o Cristo Glorioso sobre
as nuvens estes tomarão consciência da vitória definitiva do Bem e depois,
assistirão estupefatos a instauração definitiva do Reino, e depois, cabisbaixos
seguirão adiante, mergulhando na angústia eterna, tendo a sã consciência de que
tiveram mil oportunidades na vida, para conhecerem o Senhor, mas que
desgraçadamente fizeram a Opção errada!
2.
Estar vigilante
Hoje,
com o primeiro domingo do Advento, inicia-se o novo ano litúrgico,
antecipando-se ao início do ano civil. O Advento é um tempo de aprofundamento
do grande acontecimento da encarnação do Filho de Deus, já em processo desde a
concepção de Jesus no ventre de Maria, comemorada em 25 de março, na festa da
Anunciação, e manifestada no seu nascimento, comemorado no Natal, em 25 de
dezembro.
A tradição litúrgica abre o tempo do Advento com a leitura de um
trecho do discurso escatológico dos evangelhos, com a advertência aos
discípulos para permanecerem vigilantes. Dessa maneira, para a Igreja, o
nascimento de Jesus é compreendido como a chegada de um novo tempo, o qual deve
ser acolhido com uma fé atenta e vigilante.
Quando Jesus falara sobre a destruição do Templo de Jerusalém
(cf. 27 nov.), os discípulos perguntaram sobre quando isto ocorreria e qual
seria o sinal. Estes discípulos tinham ainda a expectativa da restauração
política da Judeia, tendo Jerusalém como o centro de poder mundial, com seus
critérios próprios de justiça e direito para o julgamento dos demais povos
(primeira leitura). Jesus apresentara, na terra, os sinais das guerras, dos
terremotos, pestes e fomes. Menciona, agora, alguns sinais cósmicos, com
caráter simbólico, próprio da literatura apocalíptica. Estes sinais indicam o
desmoronamento da ordem social injusta, seja no mundo religioso judaico, seja
no mundo gentílico, a qual cede lugar a um mundo novo possível. "As
potências celestes serão abaladas", indica o fim dos poderes que usam a religião
e o nome de Deus como instrumento de opressão e lucro. "E então verão o
Filho do Homem vindo numa nuvem com grande poder e glória." É o poder do
amor e da vida (cf. segunda leitura) que frustra os objetivos dos poderes da
morte.
Pode-se ver no título de "Filho do Homem", atribuído a
Jesus, a expressão da humanidade, em toda sua simplicidade, humildade e
fragilidade, assumida em Jesus, pela encarnação. Envolvida pelo amor de Deus
Pai e Mãe, esta humanidade é filialmente revestida de divindade e eternidade. A
comunhão com Jesus se dá na libertação das preocupações da vida submissa aos
interesses dos ricos poderosos, e na vigilância e na oração contínua, na
atenção e no serviço aos mais carentes de vida e amor neste mundo.
Vivemos o dia da presença do Reino de Deus no mundo, que vem
como uma armadilha para aqueles que estão seduzidos pelo poder deste mundo. Os
poderosos do mundo procuram apanhar a todos com outras armadilhas, que não vêm
de Deus. Eles têm como meta suprema a acumulação de riqueza, que é feita a
partir da exploração dos empobrecidos. Sua principal armadilha é a ideologia
que infundem, incutindo nos empobrecidos a esperança de que um dia alguns deles
poderão tornar-se ricos também. Os iludidos, mesmo vivendo em condições de
carência e exclusão, são tomados pela ansiedade do enriquecimento, tornando-se
indiferentes à solidariedade fraterna que leva à comunhão de vida. A atenção à
palavra de Deus e a oração libertam os discípulos destas armadilhas.
Lucas associa a oração contínua à vigilância escatológica. A
oração contínua é a oração do coração e do compromisso, na presença de Deus,
que completa a vida em comunhão fraterna.
Hoje é o tempo de amar, é o dia de comunicar a liberdade e a
vida, semeando a Paz, na alegria da fraternidade dos filhos de Deus.
3.
SEJAM VIGILANTES!
A
exortação de Jesus à vigilância visava criar, no coração de seus discípulos, a
atitude correta de quem deseja acolher o Senhor que vem. A incerteza da hora
poderia ter como efeito desviá-los do caminho certo, levando-os a se afastarem,
perigosamente, do Reino.
Vigiar significa por em prática as palavras de Jesus,
especialmente o mandamento do amor. Significa enfrentar a tentação do egoísmo,
que leva o discípulo a convencer-se da inutilidade de fazer o bem. Significa
acreditar que vale a pena lutar para construir o Reino, a exemplo de Jesus, num
mundo onde a injustiça e a maldade parecem falar mais alto. Significa estar
sempre disposto a perdoar e a se reconciliar, revertendo a espiral da violência
que assume proporções sempre maiores.
A vigilância cristã é perseverante e se alimenta da esperança. A
pessoa vigilante não se abate, ainda que a realidade seja desesperadora. O
discípulo do Reino sabe olhar para além da História e contemplá-la na
perspectiva de Deus, segundo o ensinamento de Jesus. A vigilância, portanto,
faz com que ele não seja esmagado pelo peso da história humana. Pelo contrário,
o permite descobrir nela uma lógica inacessível para quem não tem fé.
O discípulo esforça-se para não se deixar vencer pelo sono da
infidelidade ao Senhor e ao Reino. Ser encontrado, assim, seria a sua ruína.
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