Comentário do Evangelho Lucas 1,26-38 20\12\2012
Depois do nome, a referência mais importante de uma
pessoa é a sua filiação, filho de fulano e de cicrana, ter uma mãe e um pai,
uma origem, algo que está na essência da nossa humanidade, sem essa referência,
até da existência se pode duvidar. Quem é ele, filho de quem, onde mora? O
Filho de Deus, onipotente, onipresente, onisciente, aceita trilhar o mesmo
caminho do homem. A encarnação é obra de Deus, mas que irá acontecer com a
colaboração do homem.
O rei Davi era a dinastia mais famosa de Israel,
pois unificara o norte e o sul formando um dos maiores impérios do oriente, o
povo sonhava com aqueles tempos em que Israel era uma nação respeitada e temida
pelas demais, pois o rei Davi impunha respeito, pelo poder do seu numeroso
exército, mas acima de tudo por ter sido ungido do Senhor, pois ser rei era uma
missão divina. As profecias falavam que o esperado messias era dessa família e
que seria igual ou até melhor que Davi, ele era para o povo o braço poderoso de
Deus lutando a favor dos pobres, alinhando-se com os homens justos e punindo os
maus.
Os grandes acontecimentos ou decisões importantes
que representem mudança na vida do povo, só poderiam ocorrer no meio dos
poderosos, ao povo cabia ouvir, dizer amém e aguentar as consequências.
Entretanto a vinda do messias começa a ser articulada entre Deus e uma mocinha
pobre da periferia chamada Nazaré, até ela própria fica assustada e surpresa
quando percebe que está em suas mãos mudar os rumos da história do seu povo. A
mudança dos rumos de uma nação, só começa a acontecer de fato, quando o povo
descobre a sua força. Deus nunca seguiu as estruturas humanas para realizar a
salvação da humanidade, escolhe como parceiro pessoas fracas, aparentemente
incapazes de fazer qualquer mudança.
Por caminhos tortuosos, incompreensíveis para os
homens, Deus irá cumprir com a promessa, o noivo de Maria chama-se José e
pertence a família do grande rei Davi mas apesar disso, José é um homem do
povo, que vive de sua profissão de carpinteiro. E Maria? Quais eram seus planos
de vida?
Todos nós temos de ter um projeto de vida, quem não
tem, acaba não vivendo bem e nem sabe o sentido da vida. Maria estava prometida
em casamento a José, como seu povo ela também esperava o messias, ela também
alimentava no coração a esperança de dias melhores.
E em um momento de oração Maria se abre para ouvir
a Deus e descobrir a sua vontade a seu respeito. Somente uma fé madura e
consciente consegue se abrir diante de Deus e ao mesmo o questiona. Há certas
coisas em nossa vida de difícil solução, e que seria tão bom se Deus fizesse do
nosso jeito. Não que Deus seja sempre do contra, mas nunca vai ser do nosso
jeito. Em Maria vemos o que é realmente a fé, quando não fazemos questão que
seja do nosso jeito, mas sim do jeito de Deus, daí é que as coisas vão
acontecer. Só que o jeito de Deus não é muito fácil de aceitar porque
ultrapassa a lógica humana.
Maria não é casada, não tem marido, quando ela
apresenta essa dificuldade o anjo anuncia que as coisas irão acontecer do jeito
de Deus e para que Maria possa confiar é lhe dado um sinal, a prima Isabel,
avançada em idade e ainda por cima estéril, irá conceber uma criança. Os sinais
de Deus nunca seguem a lógica humana, mas é preciso confiar. E Maria aceita
totalmente a missão, que não será das mais fáceis, abre mão de todos os seus
planos, inclusive o casamento com José, ela aceita o risco de ser acusada de
infidelidade, o que poderia fazer com que fosse condenada á morte, caso o noivo
a denunciasse.
Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo
a vossa palavra - Para nós, hoje é muito fácil aceitar e entender essa
história. Mas pensemos um pouco em Maria, que não fazia idéia do que vinha pela
frente, mas sabia que Deus estava com ela.
Hoje o reino de Deus vai acontecendo e sendo
edificado em meio aos homens, na medida em que, como Maria, nós aceitamos o
desafio, fazendo de nossa vida uma entrega total e silenciosa nas mãos do Pai.
Para isso é sempre preciso renovar a cada dia a decisão em favor de Jesus e seu
reino...
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